quinta-feira, 2 de novembro de 2017

DENTRO

Dentro um rio de saudade
dentro a vida pesada e firme
que morre de pé
a coragem das raízes
a força de ser gente
dentro este porquê constante
que já não acredita em maldições
dentro a fé que se transforma
dentro..... a coroa
da arrogância pisada
destino de quem nasceu
Margarida Cimbolini

ENTRE

entre
entre os meus casulos
posto que deles cuido
e os observo...
Entre os meus casulos
sempre os vejo de forma diferente
estando dentro de um
acho o pequeno e feio
há sempre um outro onde fico...
extatisada....
mas se os vejo de fora
recuo mais e mais
e penso...
...são todos iguais !
....mas na testa num postigo diferente ...
quando vejo..
....já não sei onde situo o
"entre ,,
Margarida Cimbolini

JOSE REGIO


Não, não vou por aí! Só vou por onde Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos, Redemoinhar aos ventos, Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi Só para desflorar florestas virgens, E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois sereis vós Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós, E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem, Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas, Tendes jardins, tendes canteiros, Tendes pátria, tendes tectos, E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura, E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe; Mas eu, que nunca principio nem acabo, Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou, Não sei para onde vou - Sei que não vou por aí!» - José Régio, Poemas de Deus e do Diabo

ONDE

onde
onde os meus olhos se fizeram lua
onde o meu corpo se fez abraço
onde liberta de género me tornei eu
onde no efémero encontrei força
salguei o vinho com lágrimas
foi a minha voz cascata
e a minha loucura sensata
e meu pensamento ateu
Fui então abençoada
e serei vaga ....
fragata
onde a ancora se perdeu
livre mais do que a gaivota
longa ilha ignota de trilhos
virgem de todos os suores
a ti me ofereço na viagem
será o caminho meu fim
passadas as pontes na margem
.......................sei que esperas por mim
Margarida Cimbolini ,,poeta das madrugadas,,

ARREPIO

arrepio
é um arrepio
de chuva
de frio
o Inverno estreita o tempo
espreita no postigo
quem me dera meu amor
que estivesses comigo
vem aí o teu dia
e o vento já chama
Maria ! minha doce Maria.....
.....irei meu amor..espera...
deixa que seja mais e maior
deixa que seja só poesia......
3-11-2017

AS PALAVRAS

As palavras
as palavras cansam
já não dizem nada
são surdas
ocas ...vazias
sufocam
já não falam
por isso as calo
e não as procuro
algumas mentem
outras omitem
magoam
ferem deliberadamente
são punhais
Essas as que nos beijam
não são beijos
são degraus
pedras onde nos sentamos a pedir
a pedir
ninguém sabe o quê
nem a quem
a pedir tudo....
menos palavras
A pedir beijos ensejos.. amor.
a pedir..cheiros. .
enleios..
... até a pedir dor
calamos as palavras
Queremos comer
mastigar roer apalpar
queremos desesperadamente sentir
a poesia é para comer..
Margarida Cimbolini
arte Paul Gauguin - clovis gauguin asleep,1884.

ALEXANDRE ON,EIL

Amigo
Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».
«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!
«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado, 

É a verdade partilhada, praticada.


«Amigo» é a solidão derrotada!
«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!
Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'

FLORBELA ESPANCA


Feita de fumo, névoas, e luar,
E pus-me, comovida, a conversar
Com os poetas mortos, todo dia.
Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
Dos versos que são meus, do meu sonhar,
E todos os poetas, a chorar,
Responderam-me então: "Que fantasia,
Criança doida e crente! Nós também
Tivemos ilusões, como ninguém,
E tudo nos fugiu, tudo morreu!..."
Calaram-se os poetas, tristemente...
E é desde então que eu choro amargamente
Na minha Torre esguia junto ao céu!..

BREVE

breve
Não te tenho nas memórias
porque és breve
mas gosto de te ver 
porque me trazes o vento leste
e o som dos tambores
e o cheiro das marés
Quando te olho vejo-te..
Queria ser por segundos
.uma ave nova e fútil.
para viver no brilho dos teus olhos
....apenas um relance que já fui..
Gosto de ser como sou....
e que sejas como és.......
Não sei bem o que quero de ti....
...talvez chamar-te meu amor.....
Talvez me reveja em ti ..
e em memórias que vive-mos separados
gravadas nas sombras da lua...
...molhadas de chuva nas margens do Sena...
......pranteadas pelos postigos da vida.....
reflexo de gestos banais mas que reconheço..
Distantes como montanhas paralelas
nunca vamos tocar-nos......
mas no chão do céu estrelas pequeninas
dançam de baixo dos nossos pés..
Se não tivéssemos corpo nem palavras
havia-mos de rir juntos no meio das nuvens
Viventes antigos de raças lendárias vamos
....no ir dos nossos caminhos e encontramos-nos ás vezes..