sexta-feira, 28 de setembro de 2018

MIRIADES

Miríades
miiriades de cristais
saem de mim e explodem
saem de uma pele que não é minha
pequenos pontos de luz
coalham o chão como seixos
e luzem como diamantes
saem de um corpo que não é meu
mas falam comigo
sabem de mim
colam-se ás plantas dos meus pés
saem da minha cabeça como rosas
florescem de raízes que mergulham no meu cérebro
e sobem e crescem em silêncio
quando caminho ficam nas minhas pegadas
inscrevem-se em luz nas linhas das minhas mãos
rompem meus vestidos
fiam o meu linho
tecem em mim invisíveis marcas que só eu vejo
doem....magoam como o passado
procuro no tempo e nada encontro
são espinhos destas rosas que tombam de mim
são amores de pombas brancas
são rolas,,,penas... alegrias....esperanças
são talvez andorinhas brancas
que na ponta dos meus dedos....
........ pintam de sangue as estrelas
Margarida Cimbolini

AQUI E AGORA

Aqui e agora
Quero reescrever minha memória
numa mão de pensamento
quero reescrever a nossa historia
numa nação viva e sem lamento
quero amar o meu pais
e dele fazer uma bandeira
que quero desfraldar ao vento
Este amor quero gritá-lo para além de mim
para além de nós.. sempre e em qualquer tempo !
E dos dedos do passado trago da tortura...
...da fome e da guerra esse sabor amargo...
que de pequena vivi e não desgarro..
Mas ergo o meu punho de guerreira de mulher
e de escravo para empunhar esta bandeira
de um Portugal que embranqueço e lavo....
Quero reaprender esta memória que antevejo
como água que correu e que repassa
e olhar os verdes campos com vaidade....
Quero gritar nesta voz mais crescida.....
na raça e no poder de estar viva.........
quero essa palavra de letra esquecida.......ainda e nesta nação empobrecida .....quero gritar Liberdade...

terça-feira, 25 de setembro de 2018

SORVO

Sorvo
sorvo o ar em grandes haustos
como se fosse eu o dia
e o Sol e a Lua fossem meus
e brilhassem só para minha alegria
engulo os mares
saboreio o tempo
e pelo tempo sou erguida..
Fincando os pés na terra nua...
..
pequena e doce formiga
vivo e sonho
tecendo teias e redes
onde me enrolo
e pareço vestida...
Mas nua me sinto em face da mais débil espiga !
Em baixo a terra negra e brava respira...
Em cima o céu louco chove lava...
No meio estou eu apenas nada..
com esta forma velha e cerzida...
Sinto e respiro o enorme milagre da vida ..
Margarida Cimbolini

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

TRINADOS ---CONTOS E HISTORIAS

Trinados
na casa cheia com o silêncio da noite
vagueio..e quero permanecer aí
rios a atravessam e neles tropeço
molhando os pés em todas essas memórias
pé ante pé procuro não perturbar o silêncio
em vão ...os pensamentos ressoam e fazem eco
pego num livro....sento-me numa cadeira..
e logo mil livros e milhões de cadeiras invadem,colam-se
ás mil imagens sobrepostas que vivem em mim
Quase posso apalpar o brilho verde dos teus olhos
que era ás vezes tão azul......Entretenho-me a tecer bordados
nos cabelos dos meus filhos ainda muito loiros....
Ouço as músicas antigas guardadas nos armários....
................todos as ouvem agora....
.....sou-lhes muito fiel...
.........ainda lhes quero mais por saber de cor os seus sabores ários....
E as peças antigas..... vivendo por todo o lado.....chamando-me
.....mil vezes ouvi as suas historias e são elas agora,,,,,
que querem saber de mim.......curiosas..Não lhes falo ....passo.
e passo-lhes as mãos nos mudos carinhos que sempre trocámos..
Sinto os cheiro das rosas que antigamente floriam nestas jarras,,,
Há muito que não trago flores.....deixo-as nos jardins....
.......ali abraço um querubin dourado.....roubando um jasmin..
que colheu enamorado de mim.......além na guitarra as cordas sorriem
e na janela mesmo aqui ao lado já ouço leve trinado acordei a cotovia.....sim
Na casa cheia do silêncio da noite vagueio assim........
Margarida Cimbolini   CONTOS E HISTORIAS 20-9 -2018

SER

Ser
Nenhum de nós consegue arrancar o coração do peito
nem os olhos das órbitas
Nem a boca vai cessar de pedir beijos
Nem a cabeça vai deixar de desejar....
Em nenhum de nós cessará o sangue de correr...
Não..enquanto a respiração se elevar no peito...
e uma réstea de lucidez agitar o ser..
Nada mudará !
A alma essa permanece talvez...eterna..
até que o destino se cumpra..
Nenhum de nós deixará de morrer..

O TEU BEIJO

O teu beijo
tenho esse beijo na memória
vi teu beijo hoje
num lírio do campo
Inesperado !
Tímido no nascer
Todo doce e delicado
como com medo
como repeso !
apesar de descuidado..
Lírio do campo nunca plantado...
Beijo aceso e molhado..
tenho o na boca ainda..
Afoito saboreado...
Beijo de lírio !
no cabo da noite...
é beijo amiúde dado !
Nos meus lábios tenho um beijo de lírio..tatuado !
Margarida Cimbolini

É

É
/contos e historias/
É já um
pássaro louco
este que me reacende
todos os dias
eu reacendo e apago constantemente
só um pássara louco viria
este vem.
Vem quando acordo ! ....a qualquer hora.....
eu nunca sei a que horas acordo
. deitada estou muitas vezes.
mas só ás vezes adormeço.....
Em geral acordo magoada e fujo do Sol..
Mas gosto do Sol...se ele não me fustigar..
a manhã fere-me...entontece-me e escondo-me
Amo este meu pássaro louco...
...que sempre me diz ,,um dia acordas louca como eu,,
Já tive mais medo dele...agora não lhe ligo nenhuma...!
....Mas preciso dele...onde ele está eu também estou....
Em breve virá a chuva...e acordarei menos magoada...
O mar sim.....este Verão falei com ele........mas pensei tanto..
....pensei-o tanto que acho que o tenho dentro...
inunda-me todos os dias....................
.........................................acho que nunca tive tanto mar
e que nunca acordei tão magoada...
Qualquer dia acordo ...........................................................
..e não largo mais o meu pássaro louco.......................
peço-lhe que me leve no flanco da loucura.........................
Margarida Cimbolini
/contos e historias /

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

doces cinzentos

doces cinzentos
na presença de um coração cheio
o tempo fica quieto
toda a saudade fica no caminho
viagens de águas
em tons serenos
tudo se desvanece
a poesia difusa acontece
em cores, em risos, em esperanças !
em trinados de guitarra
brilha ..,como os olhos das crianças.....
e o tempo sem mágoas corre lento...
é o doce sabor do agora
e não me reconheço
tão depressa a alma chora
como de mim me envaideço
clareza é a cor malva da rosa
mas a vertigem não esqueço......
Setembro.....este Setembro singular
onde o sonho me acarinha
mas sei eu como é fácil tombar
nesse inverno que se avizinha.....
debruço-me na janela
e a natureza quieta e bela
ralha-me seriamente....
pois não demoro n, esta Paz singela
e já corro..fugindo á frente
então faço como ela
e mergulho em mim suavemente
Margarida Cimbolini

terça-feira, 11 de setembro de 2018

QUERO

Quero
tudo o que beija
tudo o que arde
tudo o que bate
quero tudo de tudo !
*
pedaço de nada
pedaços partidos colados
presos no rosto da água
não quero
*digo não ao desamor
*
dos campos experimento a calmaria
calmaria aberta em fogo
em humanidade
*das águas entendo a voz entontecida
ou rumorosa e saltitante
como o tempo com sabor de instante
com sabor de lima
com o sabor de boca amante
*entenderei eu esta alma errante
entenderei eu este queixume
este choro este cante
entenderei eu a morte
tendo a vida sempre adiante ....
*quero ...e de tanto querer me morro
me torturo
nesta angústia nunca bastante
de ser... de cavar a mente..
de a rejeitar
*
quero a um Deus distante
e sou serpente sou rocha dura
sou pedra e maré vazante
*quero toda a vida que perdura !
e toda a dor do mundo
entrego para o Sol levante
*serei terra fome e sede
beberei a chuva do céu
e de púrpura me visto...
feita flor de gritos
nunca serei mulher e mutante
Margarida Cimbolini