sexta-feira, 19 de outubro de 2018

PAUSA ,, PUBLICADO NA ANTOLOGIA CORPO E ALMA

Pausa

Pausa na chuva
e no meu pensamento
Sigo o piar das aves
.....voz melancólica
no silencio tremulo dos ramos
Correm soluços nas árvores
e em mim o arfar do tempo
abre brechas e postigos
quase ignorados
onde a minha alma dança....
Vozes loucas que me inquietam
relâmpagos de calor que crescem
onde me entrego extasiada...
Lembro antigos cantos índios
sons do céu e da lua
que abrem os meus sentidos
para um cante novo onde os
horizontes se diluem.... e descanso ....
Serena pausa na tempestade
noite agora mansa
que avança nos rumores
das árvores que rezam..
e se abrigam no meu coração..

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

O LEGADO VIDA E MORTE PUBLICADO NA ANTOLOGIA CORPO E ALMA


O legado vida e morte (1002 Cor do Vento )

O meu legado
são as historias 
as historias da vida
as historias da morte
o ir e vir do que se diz ser sorte
...as palavras...as águas do remanescente...
o fluir das águas no regato
o seu som ritmado que tamborila....
também é meu legado.

O seu inevitável e único som

Não as historias da mente
não o som do pânico também inevitável
e sempre crescente
...o pânico louco e dormente
que nos entra no coração
e nos mostra... o luzir da morte !
Porque ela tem luz e sombra e vive ...vive eternamente !
Ela... essa sombra cínica sarcástica e evidente
que tudo encurrala que nada diz...só se sente !
O meu legado é a historia de uma maçã e de uma serpente !
...e nada mais há que acrescente...

Simples/ assim como quem não é gente...

Não... o meu legado é a roda que mexe é o fogo frio
e a neve quente é a angústia constante e fremente...
de quem quer o amor que anima a alma...
O amor... aquele que cresce
...no caule da planta..no cerne da espiga...
aquele que brilha no sábio e no descrente...
aquele que em tudo está e tudo pressente...
aquele que nasce com a vida
e está lá sempre...

O amor é aquele que não morre não tem nome
não é animal nem criatura não pensa é amor por si só !
Único e solo em todos habita e é duro doce e quente !

É todo este o meu legado! este presente danado de ser
vida morte e amor...um legado que não posso legar
pois que nada tenho
nada uso
nada sei...e tudo me foi dado...

É este o meu legado...

Margarida Cimbolini

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

FALO

8 h
Falo
falo contigo
como se a chuva ausente
me respondesse
como se as horas moídas
contraídas fossem minutos
e estivesses ao meu lado
Presença nunca serena...
torrencial presença...mas mansa !
Falo contigo como falaria a um rio..
com água....como peixe cadente e vivo...
que me ensina a nadar...
Nado em ti...... na tua palavra
na fluência dos teus gestos
Na alma que emprestas aos sons..
na mão que se desdobra em caricia e me percorre !
Mergulho no nosso tempo....
que será sempre nosso e belo e sentido...
Abro os braços e abraço-te.....
Tem o nosso abraço raízes tão fundas...
...... que sobrevive a todas as marés

Margarida Cimbolini

BREVE

7 h
Breve
.... na cor do vento
Um toque breve da brisa
....na pele que estremece
e nasce o sussurro do amor
A pele arrepia o tempo...
No salgueiro onde desabrocha a pluma
soa a breve cantiga do vento....
e o vento geme por não ter cor....!
Doce cai o manto da lua ....
....encobre o desengano do vento.....!
que toma as dores do luar....infinito e branco....
e corre a dizer segredos ao mar....
Diz das cores do arco -íris.....
.... e das suaves mãos das fadas ...
Mãos cheias de poemas crianças brincam nas marés..
e as algas sentem-se lindas e verdes !
A poesia ri...um riso nu e descalço..... breve...
.. na pele arrepiada pelo tempo...
Será ainda mais belo quando amanhecer...

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

DA BUSCA.. PUBLICADO NA ANTOLOGIA CORPO E ALMA

Da busca
Desta minha busca conheço
todos os recantos
todos os seus cantos.....
... ecoam em mim como chuva....
....tombando em telhados de zinco...
.essa chuva......gota a gota me molha e eu sinto !
Tenho nas unhas toda a terra que cavei
,,,e nos lábios o vermelho das amoras...
...e na boca estalam os bagos das romãs !
Eu gosto das uvas temporãs
....as que nos lagares pisei...
e as que nas vinhas faz tempo deixei...
No coração nu e aberto
guardei todas as paixões....
....e como amei,,,,!
Na mente tenho as memórias...uma a uma..
.....tantas historias.....
Na alma carnuda e sofrida encerro todas
as minhas vidas.... !
Na terra guardo as mortes...as de céu aberto...
almas correndo no deserto.....
.....e mais fundo as dos caixões ..... .
... pois a morte não tem grades nem portões !
Desta minha busca tenho escrito versos.....
desabridos.....incertos.....
........e gritado gritos mudos.....
..........,,,,e cantado surdas alegrias ,,,
tenho sulcos na pele e no rosto....
......rugas...fundas e frias.....
Cada dia recomeço até o tempo chegar.....
...cada noite adormeço a sonhar.....
E não hei-de parar....buscarei......
... sempre.......
... até que desta busca nasçam.. vivam..
e morram todas as minhas crias......

terça-feira, 9 de outubro de 2018

A CASA

A casa
as casas os templos os lugares..
flutuam numa simbiose
que baptizo com incenso
Tudo tem uma energia própria..
cada móvel cada objecto
cada pedra
imite constantemente sinais
que me perturbam e agitam
Sou como um salgueiro agitado pelo vento...
Tudo em mim é vida..
e toda a vida à minha volta
se mistura com a minha e ruge
Hoje recebo o que plantei ontem
e a pequenez da minha presença..
faz com que tudo pareça girar à minha volta...
Densa.. densa e volátil..
esta estranha forma de vida!
Nos dias ...em cada um nasço e morro mil vezes...
e tudo à minha volta permanece.
Cada dia todos os dias aprendo a lidar comigo !
Pequena curiosa e inquieta formiga carregando o mundo !
Como me sinto humana !

OLHAR

O olhar sobe na madrugada
como farol. Cheira a noite que se avizinha..
Começa o Outono
a noite cresce mais e escuta ..
Escuta..a ausência de passos..
Ouve-se aquele surdo silêncio filho da solidão ...
Alonga -se o olhar na noite !
...cada vez mais fundo..
Tudo está tão sereno na noite que o olhar se esconde !
Tem medo volta-se para dentro.
Corre na garganta tem um gosto suave..
Tem o gosto do fim do estio ...
Tem o vício da saudade
e asas de borboleta..
Dentro espraia-se em saliva..
...rola na boca...com a língua...
A noite e o olhar conhecem-se bem...
Sabem tudo um do outro..
Teem o vício da saudade e embalam no vai vem da respiração..
Breve será Inverno...