quarta-feira, 31 de agosto de 2016

O CAIS

O cais
gente
gente que chega
gente que sai
olhos cor de viagem
presos na pressa do cais
as mãos caídas
os braços moles
ou seguras ou erguidas
ou estendidas lá no cais
pedem pão
pedem perdão
mulheres sem par .
....cor de ferrugem
homens demais
encostados fumam
.... ou abraçados ..
....cor de nuvem
crianças aflitas
sobresaltadas
meninas com fitas
rapazes de boné
pela mão dos pais
... uma mão zangada
porque é quarta -feira
...cedo de manhã.....
acabou a noitada....
e a mãe está atrasada
o barco apita
um homem grita
sobe a parada
faz-se o barco ao rio
que de mar não tem nada
bufa o navio
... no quartel é alvorada
voam gaivotas no nevoeiro
no cais a vida crepita..
e o gaiato dos jornais anuncia
....num berreiro...
,,quarenta graus no mundo inteiro,,
o peixe remexe ainda vivo nas bacias
é assim cada dia,,todos os dias...
........lá no cais....

O VENTO

O vento
quero saltar
para elas
para as palavras
tudo começa aí
na letra que ferve na veia!
Gramática, pragmaticamente..
suada,,,pesada.. medida
nos bordos das letras
a palavra existe..na língua , na nação...
Pátria guarda a palavra..
usada,,guisada...
Cabelos de ondinas,tagides,,,cinjidas em verdes algas..
presas no dicionário...
Não...
São minhas as palavras!
As que recebo no sangue...
As que me saltam na boca
Que me saem da alma em dedos aluados..
Brincos de princesa..
Pérolas de incerteza..
Vidas vivas sem grades..
...erro...pecado?
Qual a língua do vosso Deus. ? hebraico..
Evangelho de conceitos!
Peixes somando pães?!
Minha palavra é segredo
de antes da criação.
Escreverei sem medo
com tintas da cor da paixão..
escutando a espuma dos dias..
E a minha respiração!

VIVER

Viver
Viver
Pede.nos tudo.
Para viver nós damos tudo
Vida a maior. das dàvidas
E a mais difícil de honrar!
A honra na vida pactua com o acto de nascer
Sempre
Viver, nascer é honrar a vida
Quem nunca pensou nisso
Nunca viveu!
Aflorar ligeiramente a vida! Renegar a dor..
E.a honra!?
Palavras vãs!!!
A vida! A morte! O amor! Palavras cruzadas..
Então como podes ter ainda corpo e dores!
E doenças e arrepios!
E usar trapos sobre a pele?!
Como podes temer a morte ou matar -te?!
Ama -te ao menos.. honra o amor...

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

AMO

amo
conheço a voz dos meus dedos
o lapidar das palavras
cruas
pedras fiéis das minhas vivências
tenho toda a agua do mar há espera
e uma opera de Verdi ecoa no meu ouvido
tilintam abelhas rainhas há minha volta
e amo
amo voltar... avanço o prazer da chegada
saudades de partir...
sempre
chegar ..ir ..partir...
já não receio as viagens
apenas lamento ter de fazê-las na carne...
de ninguém me despeço...
levo tudo comigo......
perco tudo no caminho.......
já cada dedo enxerga outra letra....
e outra onda clama por mim
e a opera de Verdi desvanecesse ...difusa
empunho o coração no peito aberto
e toda me dou há viajem
ainda estou...vim ....fui...... já cheguei....
ou não se passou nada.......
amo não saber...e não sei...

SÃO DE LINHO

são de linho estes meus versos
germinados de seiva e de carinho
a seiva das árvores que deixei
o carinho ..muito aquele que fiei
Na casa de um pescador
esta noite eu pernoitei
havia redes e anzóis á cabeceira
e uma ancora no tecto do meu quarto
a lembrar um pouco o meu retrato
estava deitada julgando -me num barco
.medindo os passos que passei.
.que uma vida ninguém a faz sozinho.
que a dois se faz algum caminho...
Precisa uma mulher de um homem
quando se pôe a pensar no destino.....
e chegou-me um odor a vinho...
Estava o pescador bebendo.....
.......... com o cão ao lado ganindo...
cantava o homem uma canção liberta
no fogo da palavra que sabia....
e eu já desperta...fiquei por ali ouvindo...
a ver se convinha a melodia......
Correu a noite ...correu o vinho......
e escutou-me o homem espantado
de como lhe contei do meu caminho...
de como a minha alma tinha fome
de como dei sangue ao tempo...
e como tendo a morte como certa
de não lutar saí ilesa...
....e sempre lutando sem estar presa...
lhe conto assim viva e acesa...
Ouvindo sua historia tão parecida com a minha
Era um homem ...nem mártir ....nem soldado..
apenas alguém pescando noite incerta.
Lançando sua rede sem letras e sem tino
Alma buscando alma ...casa lançada na praia
......corpo aceso no vinho......
a areia foi almofada...e foi o mar nosso ninho...

AMEIXOEIRA

ameixoeira
diz-me dessas palavras
com que embrulhas os rebuçados
diz-me essas palavras com que vendes bolas de sabão
dessas palavras gémeas e fecundas
que fazem tombar ar romãs
e onde se albergam duendes
e onde os azuis se misturam
e as aranhas tecem suas teias
diz-me das palavras de cimento ....
..dessas com que constróis castelos e ameias
Eu sou a ameixoeira carregada de ameixas amarelas..
diz-me dessas palavras onde nascem janelas
Tenho longos ramos sumarentos de sois brilhantes e quentes
diz-me dessas palavras redondas e ágeis
que saltam os muros do conhecimento
que comem as pevides das abóboras meninas
Aqui no meu tronco há ninhos de melros..
diz-me essas palavras que falam do mar....
Diz-me...diz-me...ensina-me a falar...
.............depois a escrever......
Ensina-me essas palavras.....quero ser poeta !
Margarida Cimbolini

A PELE

a pele
a pele surge
nua e inquieta
mil pequenos olhos espreitam
sentem
num roçagar silencioso
procuram-se
as peles estão fartas de falar
dizendo nada
dizendo tudo devagar
aproximam-se
não se conhecem ainda
temem
as línguas sabem o som
não o sabor
o corpo quer o cheiro
agora o corpo urge
está primeiro
o corpo sabe a cor do orgasmo
os dedos querem outros dedos
o receio nunca é igual
ou não existe
aqui persiste
onde.. como ....e o tempo...
É o momento
saltemos a barreira....
ou geramos uma invisível
É o momento
fluir no Verão quente
misturar peles e risos
leva me como souberes
eu não quero saber
apetece-me rolar contigo na cama
mulher e homem juntos
sem drama
quando voltar a chuva
vamos saber se a pele também ama..

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

A MINHA CASA

A minha casa
a minha casa era uma casa
longa ..bela e farta
não havia portas 
só janelas abertas de par em par
quem chegava tinha sempre lugar
e pão e amor e calor se estava frio
a mesa sempre posta
as acácias em festa ....as rosas....fulgentes..
Casa de portões de ferro mas abertos
franco o sorriso e os risos das crianças..quentes...
......alácres... vivos como esperanças.....
e uvas nas fruteiras cheias.... e vinho no lagar
e as mulheres cansadas da vindima sentadas a merendar
era uma casa cheia...avós ..tias e primos e passarinhos,,a trinar
tudo tinha ....de seu e seu lugar.....
Agora pelas frestas das paredes entra a inveja ..
.....a cobiça..........mas há alecrim....
porque eu estou cá ...sobrei........falto eu....
Mas tudo está em mim.......
semente bem lançada ,,,fundas raízes...vontade sem fim..
Herança pesada e amada mas eu...que sou eu ????
cabeça de medos insondáveis coração inquieto lanceado !
.....menos que a mais débil flor do jardim...
Ave com carne de leoa e a alma há beirinha....
quem me dera ter asas e não braços e pernas cansados....
Quero o olhar da águia ...........
e a hera... nas paredes onde está ?..f
....fraco o cantar da cotovia.......
onde estão todos ? onde está quem aqui vivia ?
Ainda há pouco era eu que nascia........
Medos insondáveis. ..quisera não os ter ....
....mas não seria eu nem esta a herança que me cabia....

terça-feira, 9 de agosto de 2016

FRAGA

Fraga..
ou pedra de mim
como aquele rio de onde vim
e tão carregada passei
Mandarão-me vir assim
mas onde é a viagem ?
Vou pr,a terra dos danados
isto é tudo o que sei......
e onde é a passagem
dos que são abençoados ?
oh ! da barca que serei ?
Fraga de meu consolo...
.....eu em terra ficarei....
barca esta onde carregas...
....tudo o que não queres dizer....
pedras e paus de dois gumes
e mais o incenso e os lumes
para os mais adormecer......
Deixá-la não pode ser....
guardas dez mil enganos....
não procures mais linguagem
que é esta a tua barca.......
há quem te puxe na margem.......
não terás perdas nem danos....
E a dos abençoados onde a encontrarei ?
lá nos dinheiros mal lavados
nas mentiras e nos brados.......
E Tantos que encantei........
oh ! Santa Caravela podereis levar-me nela...
que repesa me jurei..
e trago uma fraga bela....
e uma estrela que tenho..essa também a trarei..
Assim te julgas singela.....
...pega remo ...sopra a vela....
e se não te enredares nela........
irás nessa barca bela..e leva a fraga inteira..
...........o tempo mais me diria.. !.......
pois remando seguirei..............
....a estrela e o anjo me guia.....
e mais do que posso.....não podia.....

MORDISCAR

mordiscar o amor
mordiscar o amor
amor melancia
a escorrer 
redonda
despida
tão quente
tão fria
nua de negro
nua de chita
olhos de luar
mordiscar a dor
boca de romã
na pele
seda de alma
alma de sede
a dor sabe bem
e eu não sabia
mordiscar o amor
comer poesia

AMEI

amei
amei
e fiz de ti gente
amei-te
tantos dias
como quem sente
como um rir
como um voar
e dei-te asas
voámos
como quem mente
brancas melodias
ouvíamos
leve..levemente
amei
fiz de mim gente
olhos largos...os nossos
olhávamos o Sol...
na noite
amor demente
hoje vi
o nosso amor
tão longe
finalmente..

ENLACE

enlace
Pois comigo é que eu te queria
na cama em delírio ou agonia
morder-te.... saber de ti tudo o que havia
embrulhar-me nos teus versos
dormir no teu abraço
rir de nós..... que saudade !
sentir-te a entrar devarinhgo...
ou a invadir-me com loucura......
o nosso cio aberto...eco de mar
perfume a flor .......
.e esta enorme paixão...aberta ...
fluída ...brilhante e rica....
palavras sem amanhã.....imagens...
escrevendo e rindo ...feliz....
Pois é comigo que te queria..na cama..
meu amor meu pecado ....
dia em que me escondo e elevo..
no mar feito nuvem..voando....
na noite em mim ao meu lado...
florindo no luar prateado....
jorrando em borbotões da minha veia...
sangue jorrado do amor....
deste enlace onde morro de saudade
onde canto a minha liberdade
onde transbordo de alegria....
eu e tu descendo sobre mim
vem que te espero sem género nem idade
.....Baixa sobre mim poesia minha amada....
deixe que eternize a tua eternidade....

NARCISA

Narcisa
tenho fome de ti
arde-me o peito
suam os meus dedos
tremo.. confusa ....deliciada
ávida.. sedente...quero ouvir a tua voz
ser anel e tu serpente
ser cabelo e tu pente
ser nada e tu tudo
mesmo sendo tu altiva
serei eu a escrava
,,,narcisa,,
pois é a ti que vejo no espelho
e no lago ,,,e nas árvores nas folhas
,,no ribeiro..
em ti há ventres abertos..há tecidos...
há pescoços de virgens degoladas..
há vida e sangue e sémen ..
sucessivos orgasmos de deusas..
...deusas cegas pois não te enxergam...
mãe do escândalo...grito impúbere ...amante
há em ti o palco e a cortina..
e actor como pato ganso teu amante sem retina
ave de carne ...meu corpo.....alma que te chama..
e esta actriz misera e saudosa que te aclama
poesia enche-me rebenta-me dá-me a tua chama...
Margarida Cimbolini

terça-feira, 2 de agosto de 2016

MUROS

MUROS 
muros
muro alto este que eu salto
mas metade ficou lá
no cais com o cão
aquele meu cão
que perseguia as gaivotas e ria !
aquele cão que ninguém queria.
quantos cães,, quantas gaivotas.
quantos amores....sei lá.....
e as casas,,,,, quantas casas,,,
moradas vertiginosas,,,,,ruas de alecrim
muros que derrubei,,,,,,, tantos que construi
outros que trespassei ,,tantos que vendi...
moradas da vida.....muros que já esqueci...
e eu sou ainda essa ...a do cais...
mochila ás costas,,,,um saco com livros e jornais...
essa dos papeis rabiscados..
só o corpo magro e franzino....alargou!.... e enrugou o focinho!
e os muros ,,,caíram...ruíram.... já não podiam mais......
mas não leio jornais.........
o rio tenho nas veias gravado....fundiu-se no mar onde nado..
Alargo os olhos nas moitas que avisto da janela....
...tenho vertigens !
..recuo não vá saltar o muro dela.............
Alargo os olhos nas noites onde pernoitam anjos.....
e vou deitar os cães coitados.......
Amanhã ...logo.....daqui a pedaço.........
acordarei de novo já cheia de cansaço...................
............................. e será mais um muro que eu salto....
Margarida Cimbolini

NOS CORPOS

nos corpos

nos corpos
nas sombras
nas colinas
escondem-se olhos
abertos
como bocas
furam os poros
das loucas
comem dores
inquietam sobressaltos
misturam-se
no prazer
sempre paralelos
assumem
sustos
expurgam terrores
secos
abertos
sobrepõem-se
transpõem os corpos
mas não choram

Margarida Cimbolini

arte Jose Romussi

BUSCA

busca
Esta noite busquei alguém ao meu lado
....talvez o meu amado ! e não o achei....
Levantei-me e corri por todo o lado ...fui ao pinhal
ao rio ...ao eirado...
Chamei os cucos ..vieram em bando..zangados..
ciumentos dos tordos que tenho chamado...
Viram o meu amado ?
Aquele que mora na minha alma....
Aquele que se passeia de noite nos meus sonhos..
Aquele que apascenta os meus rebanhos...
Viram aquele que eu chamo ?
Esse que me põe os lirios na cabeceira...
Ele é meu e eu sou dele.....onde está ?
É ele que traz as orvalhadas....que pula nos outeiros...
..que se esconde nas ramadas...
Corri então os campos......passei os vales e as colinas...
Chamei...pedi ...antes que refresque o dia e caíam as sombras..
...encontrem o meu amado....
Veio a noite devagar e a lua de gelo a queimar...
Mas não veio o meu amado.....fiquei sem amar....
Outra vez a noite e vazio o seu lugar.....
Cerrei os olhos e pus-me há janela a escutar....
ouvi sussurro leve como a brisa ....
sereno como o luar que me enchia...
Escutei pr,a lá do silêncio pr,a lá do mar...
e senti dentro uma luz a brilhar.....e ri..
Era ele em mim....estava comigo....a cantar...

RECEIO

receio
receio
levanto os olhos
contrita
e vejo um tordo
. adejando.
entra e sai
num redopio
no calor
receio o frio
receio quase viver
receio sonhar
e escrever
e este corpo de fogo
vai carregado de sal
.receando .
encontro um rio
receio
este lago de mal
pesada
não renuncio
as lágrimas
soltam mais sal
os olhos miram o rio
cansada
procuro arrimo
já nada enxergo
mas caminho.