segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

lucido alimento

É deste lucido sonho
que me alimento
a fome
a fome destroi
barreiras
tem por vezes a cor do sonho
o cheiro do amor cresce na saudade
Fome saudade e sonho
pupulam na minha cidade
Canto enobrecido pelo tempo
aqui onde não ha verde
onde o azul se escoa
na pequena janela
Há sonho.
Dormido no polo da memória
é nesga de vida
Promontório!
é brinquedo nas mãos no gigante da fome...
Por ele me dói a palavra
pelo sonho...
Margarida Cimbolini

A MISÉRIA BEBE CAFÉ !

São resteas de sombras
Vagueando noite dentro
nessas avenidas escarlartes
Morrem os ciprestes
Que fazer...
Moribundas sombras se enovelam
agitando ramos prenhes de flor
Amor lancinante azedume
inspirado mesmo assim nos miseráveis
miseráveis ódios e
invejas
miseráveis pequenas mentes
lábios vermelhos de dor
repintados de baton
corpos cansados de sofrer ..mentindo
Inconsciência total
miséria
profunda e atroz miséria que dói ..
que escorre e se entranha..
nas tranças de Julieta
no caixão de Inês
nas mãos de Dulcineia
No chão lamacento de merda
tomba a miséria só ela é totalmente miserável
A miséria bebe café!
Come postas de sangue grelhadas
E passa todo o tempo engolfada
atulhada de miseráveis historias
Entretanto as sombras recolhem.se de vergonha
E os ciprestes morrem
Margarida Cimbolini

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

OLHARES

Olhares
Tinha um ar despojado
E uns longos olhos
Uns olhos de Maio.
Serenos como Primaveras
Deixei aquele olhar penetrar -me
Tão jovem o brilho das pupilas
Tão lânguido
Sustentei o com toda a minha doçura
Repassei o. com a imensa viagem....
de mulher madura
Fui..num segundo mãe ....amante e irmã
E já me queria escrava
Já me chamava sua
Já me imolava num altar de beijos
Numa música de carícias
Num suplício de amor.......
Num correr de fluidos...
......mais finos que a pele
Perfumes almíscarados
Era o cheiro do amor
Rejeitava lençóis
Eram bocas.........
.. línguas que lambiam felinas
Doces e ásperas
Possuídos solfejos..
...regados de noite...
Molhados de luar
Corpos em fogo
.... no ar voavam antigos pergaminhos
Porosos véus de vidas passadas
Futuros antecipados
E um olhar sereno algo
...longo .........lascivo
que exigia agora...um agora único..
.....................pois que ainda é sempre.
.
Margarida Cimbolini

HOJE OU ONTEM

Hoje ou ontem !
Já nem sei...
hoje tardou a chuva !
não ouvi o seu soar nas telhas
bem escutei o passear das nuvens
toda a noite as senti pesadas e nevoentas
mas não choveram
Chovi eu por elas apesar do Sol
também eu sou agua e chovia...
agora tenho corpo e fujo da chuva...
mas pequenos chuveirinhos cantam dentro de mim
cantam canções de céu....
transparências cor de chuva recém nascida
e dão de beber aos lábios secos das violetas
hoje não choveu !
.mas tinha gotas guardadas nos meus olhos.
e com elas dei de beber às pestanas que reclamavam beijos
Margarida Cimbolini

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

HAICAI

Dormia
Senti o hálito do mar
acordei desfeita em
maresia...

O SORRISO

O sorriso
Nunca mais sorri
riu ás vezes
mas sorrir aquele sorriso
aquele sorriso aberto
esse nunca mais o vi...
Lembras-te ?claro que não...
onde tu estás não há memoria.
Dizias que quando eu sorria
.....riam os meus olhos !
o meu rosto luzia como o Sol...
Dizias
que todo o meu rosto se abria ...num sorriso !
já não sei sorrir......e tento.....
consigo apenas um esgar de sorriso...
um esgar triste e lamacento !
Esqueci como se sorria.......
Sabes ás vezes sorriu por dentro.....
mas os meus lábios cerram.se ao sorrir...
Não tenho pena mas fico assustada...
até o meu rosto se recusa a mentir .... !
Pouco a pouco recuso tudo o que não sinto...
e sinto cada vez mais o que é não sorrir !
Sinto tudo cada vez mais com mais intensidade...
Sinto-me mal por não sentir ainda mais....
E por isso escrevo e não gosto do que escrevo !
Sinto-me á beira de um planalto e quero saltar....
...mas não salto.....
Sei que tudo está nesse salto.....
A altura ...o espaço....a poesia..........
Depois sorrirei de novo......
Sinto as asas mas temo não conseguir abrir as suas penas !
....aqui tens o meu sorriso...

BAILEI

bailei
no cimo de mim
rostos
mãos pernas ideias
vaginas
vassalos
belas vidas
e vidas feias
o tempo sozinho
rugidos em cadeia
pés unhas labios
línguas de semen
encadeada
bailei
cega
com as candeias

FOGOS FÁTUOS

Será minha pele pergaminho?
e luzeiros meus olhos
e meus seios ninhos?
e meus lábios beijos !
e meus ouvidos sinos ?
e minhas mãos adagas....
e meu corpo chagas !
e o meu sangue vinho ?
Não eu não quero
ser pergaminho ...
Eu quero esta alma viva caminhando...
e este templo remoçado....
e bailar e rir
e amar sem nome
quero ser homem ou mulher..
ou campina ou ceara ou prado
seja em mim pra sempre
este meu canto sagrado

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

DÓI-ME

Doi_me a escrita
Na mão pesada
recolho a chuva.
a caneta tomba
as palavras fogem
Erguem as letras muros
Muros de alvernaria
cansada de dormir..
Fecho de novo os olhos
Quero dormir mais..

FORIR

FLORIR
É neste espaço de mim
Entre o silêncio e o grito
Que espero a folha caída
Espero a morta e a florida!
Pois não é a morte assim novo começo...de vida?!!
Lindas as folhas castanhas...
prenhes de esperanças tamanhas.
que não as merece o mundo....
Pontes de troncos tombados...
cruzam ribeiros sagrados...
Onde o dia iguala a noite!
Não vão brigar noite e dia.
Nem o tempo vai parar..
Onde a natureza descansa..
Nem o vento vai bradar!
Cruzarei eu esta ponte
esperando ver -te chegar!
Dispo este meu vestido
de penas e de cetim....
...visto outro perfumado !
..............na flor do alecrim..
Quero aparecer -te Rosa
e ter -te como Jasmim!
Vem meu amor, vem agora..
Vem neste espaço de mim

TEMPORAIS

Temporais
serei resgatada num deles
Num desses temporais de areia
regados de secura
num desses volteios ...
...de poeira amarela..
Irei antes de ser poeta..
....irei na busca dos versos..
Aqueles que nunca fiz..
...irei antes de conhecer o
..âmago amargo e doce da poesia...
.irei sonhando o fundo de tudo !
Aí onde não há palavras....
... hei-de ganhar um dia....
.......... o direito de ser gente..
. *******
Morrendo vomitando egos e mundos que já me sobram..
*******
É a Paz o que procuro....escondida nas rimas
espreitando,.,... nas vidraças embaciadas
esgueirando-se no sorriso das tardes...
assomando no perfume das fores.......
*******
....é a essa a luz que quero ver....
....é essa a música que quero ouvir
....é no embalar desse ar que respiro
desse hálito pazeiroso e verdadeiro que serei poeta !

TOADA

toada
o teu rosto
que me beijava
boca de mosto
onde eu nadava
grossa a pele
poros fendidos
caricia tão leve
desperta os sentidos
meus longos cabelos
que tu enredavas
saudades tantas
dessas mãos brancas
postigos da vida
dizem que não
sem te dar nada
fui coração
fui fio de prumo
e tu meu rumo
rota muito amada
dentro de mim
crescia o calor
e era tua
na margem do rio
no chão na cama
o corpo sorria
na tua chama
partis-te um dia
como quem ama
agora saudade
esta alma ferida
no teu rosto sonha
e não te chora
olho o teu rosto
uma prece erguida
amo-te mais
amo-te tanto
mais que outrora
na vida partida um sorriso chora...
Margarida cimbolini

O ROSTO

O rosto
da cara fechada
do sorriso mudo
se escusa a palavra
o olhar diz tudo
olhos de imenso mar
lábios mansos de ternura
e o lenço posto
nos cabelos foscos
galantes de candura
meiga solidão
tão nua despida
na ausência da lua
é ela o luar
ilumina a vida ilumina a rua
é mulher de cera
dissolvida em lume
ardida na neve
vestida de chuva
no rosto fechado
no olhar molhado
apenas mulher
de olhar velado
donde vem
onde irá
que vida é a sua....
nem ela sabe
ninguém saberá
Margarida Cimbolini
,,in mulheres e deusas,,

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

fFRIO

Frio
Está frio dentro das pessoas
o frio húmido de quem
amanhece sozinho
Está frio no coração das estátuas
Essas que dançam ao som dos tambores
feitos música
a fútil música que ressoa
nessas montanhas sem eco
Hino sem explendor
País sem passado
Estátuas alacres e vazias
Essas que envelhecem a saudade
Cujo brilho ofusca a verdade
Raiz mergulhada no gelo
Feminil caricatura de mulher
Sempre encontra seu par
Ocarinas sibilantes
Só o mar pode salvar
só ele pode lançar seu feitiço
Muralhar lento corroendo o frio que está dentro das pessoas
Que venha o amor!
Margarida Cimbolini

EPITÁFIO

Epitáfio
quando eu morrer
deixai-me ser
quero navegar
numa jangada a arder
no mar
quero morrer assim criança
e ir sem pensar nem ver
na morte que avança
pluma que dança
um canto.. um som que balança..
corpo que descansa
no mar
quando eu morrer
nada mais me cansa
só quero enfim ser
ave tranquila
onda maltrapilha
a arder
no mar..

insensata

insensata
serei sempre assim
sem rumo e sem rota
sem casa sem filhos sem netos
com tecto por acaso
com o frio que a roupa dá
insensata
sem pensar sem saber
sempre louca tonta e gata
agarro a mão que me estendem
sem saber quem é
e mordo a pata negra que me ataca
sem saber quem é
zombo das dores e das agonias
todo o abismo é meu
sem abrigo ...abrigo meu
é meu amigo....
e nem os erros corrijo
insensata absurda e chata
serei sempre assim
olhos de água e de maresia
olhos de pranto....a vida não fia....
mas dá demasia...
e assim se vive.....dia a dia.......
dia a dia.....dia a dia...

SOU

Sou
sou barco ancorado
no ventre de minha mãe
não venho pedir nada
não quero nada de ninguém
quero nascer dentro de mim
saber o que a vida sabe
ter o que a vida tem
quero o âmago da noz
da romã os rubros bagos
do cimo da amendoeira
quero ser a flor branca

que guarda a alma inteira
quero para mim a moura princesa
o branco dos olhos dela
e no azul claro que ilumina os céus
quero minha luz acesa
com olhos de mim lavados
e as minhas mãos abertas
presas há historia do mundo
de luar as quero cobertas
e a sede na alma bem fundo
molhada na água do mar
para que tenha mais sede
e queira o amor profundo
incondicional e fecundo
pois meu destino e meu rumo
é cada vez mais amar não o amor
deste mundo.....mas aquele amor salgado
que vem nas ondas do mar..........
Margarida Cimbolini
Arte Salvador d'Ali

ESTES SÃO DE CARNE

estes são de carne
estou a pensar em ti
em ti ...aí há espera que suba o pano
o palco está vazio
só estamos tu e eu
bolas de pano...antes fossem de sabão
mas não ..são bolas de pano.....
bolas de trapo...querias sedas e linhos..
e palcos e vozes.......não...
são bolas de trapo e não há público
ninguém a puxar o pendão...
nem pancadas vai haver....
nem câmaras a filmar...nada..
nem fotógrafos.... ninguém !
já é noite..não esperes mais....
o jogo é este...bolas de trapo e pés de barro...
eu não jogo...tu sabes ...eu não jogo nada !
nem á bola......
parti os pés há muito...os de barro ! estes são de carne !
carne e osso .....dentro têm sangue
não jogam...são iguais a mim parados...
parados na cauda do cometa......
não procuram nenhuma meta....
leva as bolas...as de pano..não há jogo..
acabou

SONETOS


FELINA É

felina é
esta minha alma que desconheço
******
descubro cada dia nela mais.........
********
uma enorme incontinência de amor
*****
amo terrivelmente em torrentes desgarradas
em cascatas de espuma
em veios de seiva..... em calosas saliências...onde tropeço......
tropeço no desejo quimérico de beijos
no terror de abraços amplos de pantera
de garras rasgando-me da pele
rasgos vermelhos de amor
amor e raiva na carne do meu corpo
*****
alma rebelde onde cabem tais delírios
numa angulosidade onde lânguida me espraio
***e digo
******
alma e corpo febris porfiam em me confundir
quantas almas tenho....?
tanto que em mim desconheço...
assim me assisto ao que em mim se passa
sem saber se por bênção ou desgraça
sigo
metendo as mãos nesta carçaca
deixando o amor correr
chorando por o não ter ...rindo por me achar graça !
sofrendo como só eu posso sofrer
*****
tendo assim nas mãos este saber
maldigo esta minha humana raça
este mundo ...esta pantera que em mim caça
escondendo o que devia conhecer..

Margarida Cimbolini