terça-feira, 25 de julho de 2017

OS ANJOS

os anjos
desabam anjos dos céus
....vem aos tombos....
....alguns sem asas....
outros de asas cortadas
uns chamam pelos outros
......uivam de medo....
choram de dor.....
desabam anjos dos céus !
_venham ver...
sintam-lhes o perfume
apanhem as asas
ajudem os anjos...
desabam anjos dos céus !
ardem fagulhas no ar
.....arde o meu amor.....
as rosas choram comigo
desabam anjos do céu
.....arde o meu coração....
e o Sol.........o Sol continua rindo......

TANTO

tanto.
vem.... vem quando o Sol morrer
vem e traz a tua voz e os teus olhos
e a tua boca meu amor
e traz os teus beijos húmidos de sabor
e as tuas mãos doces e o teu sorriso
e se puderes traz riso
....sinto tanto que é mais que sentir......
...........é canto.....................................
o canto magoado de uma flor................
o canto daquele primeiro beijo........
...........daquele ardor........
...vem quando o Sol morrer..........
beijo-te muito.........tanto !

MULHER

Mulher
e esse fascínio pelo mundo
esse seduzir sempre lá a brilhar... confunde
pede a esse teu deus existencial ,,,e tão leve tão fundo
que o corte pela raiz
que te faça velha e feia... trémula
,,,,trémula como essa tua bandeira
e que como ela caia,,,,,mal se hasteia...
e que os teus olhos só vejam dentro
e a tal música que não a ouças
só dentro de ti serás mulher por fora apenas velha e louca
que se cale tua voz rouca
que se enjaule esse cheiro almiscarado que lanças...
.....e se torne essa vagina mouca..
vaga sem marés.....barco sem convés..
e no porão será tua carga pouca...
pois nem terás pão ou terás de vender essa boca
de te dar no mijatório dos imbecis onde irás p´ra roubar
um trapo uma misera roupa...
a cobrir teus nus mamilos quilhados na proa
,,,,,,,desse barco de onde sairás tropega...
Mulher põe fim a esse lamento de vítima,,,, de onde tiras sustento
,,,menos que pedra no chão és tu.....
e mesmo assim não ,,,não serás louca..
hás-de assistir ao escarro de quem te beijou essa boca
hás-de ver tudo ,, hás-de
,sentir até ao fim a vida que pensas ter e é pouca...

ERAMOS NUVENS

éramos nuvens
as nuvens dançam sempre sozinhas
dançam a sua lenta dança
sem perguntas,,,,sem respostas....sem caminhos
.......vem densas e leves ...vem do mar..
lembras-te quando ficávamos a olhar as nuvens
quantos castelos nas quinas do tempo.....
quantas imagens no postigo das horas.....
eram vagarosas ...mas nunca voltavam atrás..
caminhávamos nas nuvens subindo ás montanhas altas
e lá de cima descia-mos ..na chuva... éramos gotas
água procurando os oceanos....marés de ondas brancas
a beijar os sonhos do mar.... naquele vai e vem
bailando ao sabor do vento não éramos nada....
.sim.....éramos já respiração ....só que não sabíamos..
não sabíamos nada....não queríamos nada.......
éramos água....éramos nuvens....
e as nuvens dançam sempre sozinhas...

DOR

dor
basta a vida ser tão transitória
e tão breve
para esta leve dor se instalar fundo em mim
dor ...breve dor ...leve.. mas .....mesmo dor assim
.........uma mágoa que me apavora..........
como a morte que sempre antevejo
esta dor leve e breve gera enorme tristeza
era o silencio da palavra escrita
o amor da palavra lapidada e dita
o alvor duma mente irrequieta
uma estranheza feita verdade solidão enorme e inquieta
tudo era plural em mim
o roçar da pele o olhar míope de quem usou os olhos
como eu viajando parado no presente e no passado
um tudo em comum mudo e nunca descrito
mas sentido na perspicácia do dito
a lucidez de um caos consciente culto e inteligente
a maravilha de ser compreendida....a morte e a vida...
qualquer coisa que saia de mim e ecoava
como ecoa uma única lágrima permitida
e a certeza absoluta de um encontro imediato
perdido na selva no mundo num incomensurável hiato..
Margarida Cimbolini
Por
Nada posso contra mim
nada posso contra nada
sem foco sem mestre..
vivo uma vida alvoraçada
esta foi a vida que eu nunca quis
dia atrás de dia em fútil passada...
dona de mim que nada valho
e de mim senhora e escrava
construo um pombal no jardim
e sendo mais pomba do que pomba assim
colho rosas na auto-estrada
tudo á toa mas entoando sempre....
uma ária escolhida e apaixonada...
.....jogo fora a paixão de mim.......
e conto os segundos que cada hora tem.....
e outra e outra até a hora estar finda e zangada....
digo palavras que não dizem nada.....
e com isto tudo estou apavorada !
Que frágil e inconstante eu sou que menos do que nada
....tudo pode sobre mim.......
e eu não posso sobre nada............................
Enorme é a raiva que não conhecia por não poder
voltar atrás e ser um fantoche da vida....
Eu em desassossego em desatino temo a morte e desatenta
me largo em vida e sem tino...
.............no sopro de vazio espinho .............
onde estendo a mão pra ser picada................
E grito qual Eva serpente e maça envenenada.......
a um deus que não sirvo e a quem não dou nada....
Pobres seres humanos complicados ........
....como eu carregando estes enormes fardos de egoísmo......
..e sonhando mundos belos.....e reais..........
......e mentindo porque não sabem fazer mais...
Margarida Cimbolini
(in vivências )

BEIJO

beijo

o beijo aquele inesperado
que nos salta ao caminho
como uma borboleta
e que nos despe
só boca nesse beijo
só língua só saboroso desejo
da outra boca da outra língua
tudo nesse inesperado beijo
sem corpo nem nome nem alma
............apenas beijo..............
mais ...mais e mais ..e mais beijo
toda a cor do mundo e o seu fundo
toda a glória da encarnação
está ali ...nada a imaginar ...a querer
nada a sonhar nem a morrer...
e outro e outro beijo .....só beijo
sem mãos sem olhos .....sem guarida
só as bocas sugando-se em ferida
inesperada troca tão real ...tão unida...
.........que nunca mais estará morta......
nunca mais será esquecida........
e nessa bocas desnudas.....bocas ternas
e nesse beijo inesperado.....demorado
terá sido talvez o primeiro beijo.......
inteira e realmente dado..........

Margarida Cimbolini

NENHUMA ESPADA

Nenhuma espada
nenhuma espada corta o meu sorriso
........porque está dentro......
.........................................e está vivo..
estou só mas o caminho não me embaraça
nem a silva me traça....nem a baga me mata
estou só ......não .....não estou ....estou comigo
e vem a rata ...que traça ...que rói ..que trapaça
e vem a serpente mordida ...rasteja corrida....
e vem o lagarto macaco timbrado de fato
e a toupeira zumbida de cara alegre....mestiça...
mestiça de seca de carraça que mata ...não de homem
não de raça.....mas de praça...
e a lagarta na folha de trolha querendo de mim....
o quê .......? o alento ...o hálito ...eu sou a rainha da mata
não tem prego que me cruze e nem cruz que me carregue...
nenhuma espada corta o meu sorriso
porque está dentro... no olho ....na saga
porque ´é triste meu sorriso....!!!???
porque é meu e é vero e está vivo...
nenhuma conjura me apanha......
.....porque não tenho maldade nem manha..
....................meu sorriso.......
é meu choro....meu grito ...minha chama........
o meu sorriso é o meu perigo...
.........e está na cara de quem me ama..

terça-feira, 18 de julho de 2017

UM E O OUTRO

um e o outro
a ida e a vinda
o beijo abordagem secular
as bocas em deleite
um quase amar
ternuras esquecidas
reinventadas..reaquecidas
nas mãos
o mar ao fundo vertical
a vertical ingenuidade da água
e a insanidade vertical do vinho
um e o outro
a ternura reencontrada grita range
diz-se....fala ........
....a atrocidade da inveja
aquela que tudo mata
vem chega..... rói ......e rata....fede....desidrata
a ida e a vinda ...a vinda e a ida
a vida e a morte o tempo a sede...a fome..
galopante a saudade junta e sara
e grita de novo ...
arara ! ! ! maldita arara....
a ternura é linda e mostra a cara....
é linda a ternura.... uma ave que voa....
um desmaio ...uma candura de silêncio......
um suspiro que quer vida.....tímida vontade ser
um nascer....
e conclui a inveja a maldade concludente
que volta apalpa restringe consente o não
inventa crimes ...ilude a paixão.....inventa é ferida quente
infecção
que rói e que mata desvia a água...
busca corrente
e mata desata descasca o amor ingénuo da nascente...
Margarida Cimbolini

OUVIRIA

Ouviria
havia de ouvir-te
se soubesses imitar a cotovia
havia de ouvir-te
fosse o teu canto o uivo da serpente
o chilrear de um pardal
ou simples musica de canavial
lá longe ao pé da capela
ouço-os aos meus tordos todo o dia
e a ti porque não te ouviria .....?
claro que te ouvia
se para ti o dia fosse noite ou a noite dia
e se tu fosses eu e eu fosse o toque do meio dia
ouviria os sinos a repique
o dia mais belo na aldeia
aquele dia ..o dia da procissão
aquele dia em que serias alguém e eu Maria.....
O que eu ouço é que tudo silencia
´e o eco daquele cordeiro que alem balia
o que eu ouço é o choro mudo
dos que Herodes matou
e porque sou cotovia ouço também
os que calados gemiam e não foram mártires
porque o povo não sabia...
Agora a tua voz se a ouvisse sei.....
mas quero ouvir mais e juro que não queria

DEVIAS

Devias
talvez ....mas não vou cortar
aquilo que sinto
sinto de forma inteira
todo o meu corpo sente
todos os meus nervos vibram
nas minhas veias corre um sangue rápido
talvez.....mas eu sou toda eu
no milagre deste ecossistema....
criação em mim é milagre
tudo funciona e se encaixa
em todos os lugares de mim eu sinto
extirpar-me não....
e não porque me amo e me odeio
na dimensão de todas vidas....
e nos hiatos penso.....
não gosto dos hiatos....gosto de sentir
morro no pensamento .....paralelo....
......e inverso a mim faz-me sofrer....
cria.me dúvidas... inconfessáveis hiatos
desmesurados olhares que pouso nos verdes
quase sempre orvalhados.....
também o orvalho é meu....saiu de mim.....
verdes tenros quase doirados aqueles onde poiso
,,estes meus pensamentos orvalhados,,
e o ,,,devias perde-se nos mosquitos que também...
.....pousam nos meus verdes.....
se não fossem estes meus ramos verdes e doirados
orvalhados e tenros......
....onde pousariam os mosquitos.....?''??,,,
....onde pousariam os meus pensamentos !!!

quarta-feira, 12 de julho de 2017

LAR

Lar

Todo aquele sitio onde posso amar
e amo ....amo esplêndida....e longa
nestes campos cheios de humanidade
a casa acolhe-me receosa
num regougo de agonia
num arfar de coração cansado...

Que se junta ao meu ...ecoando no eirado
cansadas as duas..... mas vivas e feras
com a energia de tempos antigos
e as paredes cobertas de heras..

Onde maior ajuda do que o tempo !
onde maior ajuda do que o amor....
este que me remoinha em esfera
Que me exige voz....que me exige força e paz
Que me diz ...és capaz !

Estes campos que me enchem de ternura
Que me pedem arado....e mãos e corpo e fado...
Estes campos que me viram crescer
Estes olhos ...estas espigas ... este gado....
Enorme solidão de quem está só..
...pois que nunca esteve acompanhado..

A casa ...que dimensão ...que lonjura.....
que longo e glorioso passado...

E pago comigo este meu legado..
São do meu sangue estas vinhas...
secas agora ....foram uvas peregrinas...
e cada pedra do chão saíu de mim
chama-se água suor e pão....

É da torre mais alta do meu pranto
que estou em cada pequeno recanto
Assim olhando a casa antiga e gloriosa
é com a minha pele que a cubro
e com toda a minha ansia
a levanto mais uma vez... pequena e frágil
senhora dela e de mim....senhora ansiosa...

Margarida Cimbolini