quinta-feira, 19 de abril de 2018

desencanto

Desencanto
Passei hoje no nosso sonho
Passei como quem voa
Como quem não quer. 
Ouvi os cucos muito longe
Havia vento estava frio
Sabes já é Primavera!
Senti desencanto..
Um terno desencanto!
No mar não havia estrelas..
E nas minhas mãos abertas faltavam as tuas
Desertas estavam as ruas
E as amendoeiras brancas mas nuas
Pediram Sol....
As minhas historias morriam com falta de beijos
Acariciei algumas! e calçei o sapatinho de cristal..
Voei um pouco na nossa nuvem.... carregava lágrimas de chuva!
Adensei -me na terra..solta e leve.... gemia por semente..
Desencanto meu amor.!
Trouxe desencanto e deixei Amor!
Espero -te florida..
No flanco do sonho...na espuma da tarde..na aresta da noite vou florir....
só para ti

GARROS

Garfos
Garfos de veias inundam o meu coração
Vasos comunicantes
alguns muito finos
vermelhos e azuis
alguns estanques..
baços ou brilhantes !
Tudo neste corpo vibra e mexe
na sutura de mil vivências ..
Bridas sem escultura...
Cicatrizes de tantas idas !
Seculares e invisíveis...
as memórias de mim circulam
na ciranda do corpo...
Clamo à firme mãozada do artista...
Fazedor de corpos...
esse terá de voltar...
na promessa da obra inacabada...
Eros clama por mim sã !
O amor liquidifica descongelado !
Na cadeia apertam-se elos..
Brechas brisas marés e ventos
querem voar !
É preciso explodir !

ontem fui um pássaro

Ontem fui um pássaro ...
Um pássaro enorme !
Fênix pousada em ramos altos
...altos e emaranhados ramos a roçar os céus ..
Tinha asas brilhantes de fogo ...em...
chamas azuis e roxas
e negros olhos de águia a gritar por luz...
Há minha volta miríades de estrelas...
pequenos pontos brilhantes que se abriam para me deixar passar..
Ontem fui um pássaro sem medo e sem rasto..
No cume da montanha mais alta...
revi-me na mais branca neve....
mergulhei na àgua de cristal..
e fui batizada pela lua...
O meu nome é
eternidade !

MANDA EMBORA AS ROSAS

manda embora as rosas
manda embora as rosas
elas roubam o teu cheiro
quem quer o cheiro das rosas
quando tem o amor inteiro
abraçado .....assim florido
tatuado, amado e cerzido
no meu corpo bailam beijos
rosas são os meus poros
mais rosas não fazem sentido
mandas embora as rosas
fica só comigo

DIZ

Diz-me tudo o que não sei
Com os lábios pronuncia-me
Molda nas tuas mãos o corpo em que me sentes
Torna-me na imagem dos teus olhos
......depois devagar esquece-me

travessia

Atravessei o rio
carregada de ti
a minha pele tingiu
as águas
a Sul ouvi o vento.!
Ouvi a tua voz rouca
chamavas...
tinhas nos olhos o
passado
e as mãos estendidas
de medo
...de solidão
Vergonha e ego
tornavam meigos
os teus gestos
suplicavas fome e amor
Vendias turbulência
e longas noites
sem sono
que
trocavas por sorrisos
escondido
.... atrás de muita dor..
Eras muito belo
dentro de ti vivia o
conhecimento
.mas não sabias como.
Achasvas.te pouco e mal
e logo um Deus do Olimpo
e logo um divagar
verbolento
que te tornava velho e lubrico..
libidinoso e feio..
Carreguei.te dentro de mim
atravessei o rio
Era o teu corpo Sal !
o teu sangue nevoeiro....
Depuz na margem um ser branco e leve ! eras tu...
Fiquei no rio muito tempo até deixar de o colorir..
Mas guardei o teu olhar...
Margarida Cimbolini

segunda-feira, 16 de abril de 2018

ESCREVO

Escrevo
em bicos de pés
escrevo !
escrevo numa tarde de Abril
tarde morna e húmida
com nuvens grávidas de chuva...
após a noite
florida em giestas...
Escrevo...
numa tarde morna de mais um Abril mais do que morno !
Breve vão agitar -se cravos !
e em vermelho e verde a Liberdade terá cor...
Escrevo e sinto e olho e abraço
este povo estoico e cansado !
Aqui...
estão ..aqui estamos nas ruas..cinzentos e tristes..
Aqui estão nas portas dos hospitais ! um povo doente ! velho !..com fome ....
Mulheres a clamar justiça!
Gente a clamar trabalho !
Crianças a clamar educação !
Um povo que procura Abril..
e grita em vão !
Porque é de novo Abril !
Porque falta tudo.
Porque escasseia o pão
e por tudo pela liberdade....
..olho-os...olho -me...
e num silencio mudo...
...murmuro..
....perdão...!