domingo, 14 de abril de 2019

OS TEUS OLHOS FALAM

Os teus olhos falam
ouço o que os teus olhos dizem
e ouço palavras de amor
ouço canções de Lisboa.
que correm a Mouraria
são olhos negros de mel
mansos de nostalgia
vejo a bailar nos teus olhos
mil amores e fantasia
.............vejo noites e noites sem fim
e o luar ensolarado.......... do dia que nasce por fim
olhos de sonho a brilhar
............no teu corpo já cansado...
São olhos de feitiço... uivados de mistério
gritos de dor....tempestades...
.....e são estes olhos que fito....
..........tão humildes sem maldade....
Olhos cegos de paixão.........
....dessas paixões tão cansadas...
que deixam no coração raízes mal saradas....
feridas de dor e de sonho.....
..................portas há muito cerradas..
são teus olhos de luar
.....esses rios de serenatas ....
.......baixa esses teus olhos loucos...
que tornam os meus regatas....

O JOGO

O JOGO
No canto do bar
as luses de néon
Iluminavam o rosto emanciado e triste
Devia ter sido muito bela aquela mulher
O oval perfeito
as maçãs do rosto salientes
Os lábios ...brancos de susto
evidenciavam o vermelho de outrora
Os olhos fundos inchados de rugas !
brilhavam ainda timidos e quentes ...
Fulvos os esparsos cabelos eram ainda belos..
Sob aquelas luzes brancas e cruas
a face pálida demais
dir -se- ia extinta desmaiada ..
Um todo de desânimo de acabado e sem luz nimbava o vulto ..tão debil !
Tão inevitamente elegante..
A mão segurava o queixo....
Num gesto cansado a mão afastava o cabelo..
Os olhos fugiam das luzes
A boca rejeitava os beijos
O corpo rejeitava o amor....
Mas mesmo assim o fogo saia - lhe dos poros !
A perna emagrecida e fogosa traçava encantadora e nua !
No canto do bar ainda que muito cansada talvez até velha ...! Estava uma linda mulher e tudo se passava ali em torno dela !
Os homens olhavam pelo canto do olho..
uns desencorajados pelo porte altivo...
Outros demasiado jovens temiam a abordagem dificil ...trabalhosa...
Mas ninguém ficava indiferente àquele frêmito..àquela guerra ..àquela angustiante ternura ...
Passaram -se muitas horas o bar ia fechar...
A mulher calada e um pouco tremula tinha de sair..
Lá fora era o deserto ..morria uma canção.!
Perdida estaria a alma ¿ bateria o coração ?
Pra onde iria !
Sózinha ali ..noite afora ...
Ninguem sabia..nem ela !
Ambígua ? Sem destino...
Onde a saída.... qual o caminho...
Não havia... não tinha !
Mal saísse..... a gargalhada do mundo a envolvia !
E seria só mais uma ..na multidão que seguia...
A mulher no bar quase vazio no seu canto encolhia.....
O canto caiu ..o bar desabou... a terra tremia ....
Era só uma mulher
mas na terra que se abria ..essa mulher ficou...
e por um acaso essa mulher....sofria !

SIM

Sim
sim meu amor eu quero
eu quero a tua pele na minha
sequioso
a sorver-me cada poro a sorver-me a vagina
a gritar-me esse adoro
num gemer de amor
a cada palmo... a cada dor a cada esquina
eu quero-te no meu corpo a toda hora
fosse eu planície e tu colina
fosse eu mar e tu ribeiro manso
levedando o mosto estaria eu foz e vinha
quero o teu sexo no meu em desatino
fodendo em mim o destino
como eu fodo o desalento
de te ver lento e pequenino
Batalha sem vencedor...
..espada afiada sem esgrima
Amor decepado... nesta fogueira... neste calor
que tento extinguir com muita dor
mas que sempre ressurge a clamar amor
nesta árvore...neste alto pinheiro de onde escorre
este leite esta resina....
.
Destino sem rumo ...planalto sem céu que se foda também a minha rima !
/historias vivas )
(arte Paula Rego )A casa das historias

ESTE CORPO

Este corpo
Sim
sim vejas bem
este corpo que eu habito
é outro
o antigo despojei-me dele
está moto e hirto
E agora preciso da alma
! de outra ... da minha... não sei.....
Esta regorgeia.....salpica,,,,,está cheia...
Ou será a...
alma um mito ...?
...e a poesia verborreia !!!!
Será a ciência um dito
e estava eu enganada esta alma inteira ?
dando o dito por não dito...
venha então outra alma ... !
esta esperneia !

ANIVERSÁRIOS

Aniversários
Houve uma época em que eu fazia anos !
Era eu uma garotinha e já não me lembro bem !
Mas era bom !
Depois disso fiz
muitas vezes anos !
E uns anos foi bom !
Outros foi mau !
Hoje já não faço anos ..não acho que não!
Já fiz os anos todos !
Um dia a minha neta perguntou - me se depois de mortas ..no céu..as pessoas fazem anos ..disse- lhe que sim !
Mas na verdade não sei !
Há alturas em que as palavras não fazem sentido perdem - se e não temos certezas de nada.
Há noite todas as ruas são belas
E nas casas brilham luzes nas janelas
Parecem cortiços a zumbir de tudo !
Zubem de conversas palavras...ideias rumores !
Há quem zumba de solidão...
O meu zumbir não se ouve ..é mudo !
Mas quem sabe se farei ainda anos !
Foi a noite que me levantou esta questão..
quando à janela lhe dizia como era linda ..como era bela...
Não sei se farei muitos mais anos aqui ou além !
Mas dou os parabéns à noite por me fazer pensar tanto e preço-lhe uma estrela numa noite em que faça outra vez anos !
Margarina Cinbolini

quarta-feira, 10 de abril de 2019

AS CASAS HISTORIAS VIVAS

As casas
Gosto de casas ou melhor gosto de recordar as casas onde morei e em todas deixei sempre um pouco de mim.
Houve casas onde estive pouco tempo noutros países e até dessas tenho saudades pois no pouco tempo que lá estive fui muito feliz.
Mas casas ..casas de mim tenho estas duas onde me sinto em casa ..Penso muito na minha grande casa de familia uma casa que estando longe fala comigo todos os dias e agora na Primavera me chama ainda mais ! Sinto aquela casa tão presente que quase posso toca-la mesmo estando a 300 Km conheço o som de cada tábua corrida daquele soalho quando a pisam....sinto a maciez daquele ar fértil e calmo onde pulula a vida forte e breve da natureza.
Tenho nas narinas aqueles cheiros ...o cheiro doce das Acácias..o cheiro acre das videiras ..os cheiros reconfortantes das salas e os cheiro sereno dos quartos centenários e caprichosos....
Gosto de casas com alma....cheias...cheias de molduras com fotografias a dourar as gerações a encasular o amor que se acumula como o pó aos cantos ....que brilha nas teias de aranha que sem piedade expulso ainda que o faça contrariada....
Também nesta casa sinto o amor ainda que sem teias de aranha ! Também aqui cada peça me beija cada livro me afaga num carinho desmedido de quem se conhece há muito tempo também eles os livros falam comigo ! São teimosos e cheios de caprichos e escondem -se de mim ..às vezes ..atrás dos outros para que os não veja ou aparecem nas minhas mãos...os atrevidos ! e não me largam enquanto não os leio ávidos de povoarem os meus sonhos de me levarem em vertiginosos devaneios onde fico tonta e feliz.
Mas tudo isto vem a propósito de um cão do meu ultimo canito que lá se foi ! mais um cuja velhice não perdoou e que me faz grande falta ! Nas minhas moradas de curta ou longa duração sempre me lembro de ter cães e de os amar furiosamente apesar de por vezes lhes ralhar muito.
Este foi o último de todos.
Mas nesta minha casa no piso de cima noutro mora um gato que não se dava com o cão e só às vezes descia sorrateiro e desconfiado sempre de olho no meu canito que lhe ladrava e o punha a mexer sem dó...
Agora e depois da partida do cão anda o gato à vontade pela casa toda e..começo a conhece - lo e a amar....gosto do seu deslizar suave parece voar sobre as minhas peças antigas e pousa com cuidado sobre os livros com as suas patas de veludo sem partir nada.....é meigo muito esperto e não faz barulho ....mia devagarinho quando quer alguma coisa...é um bom gato !
Ás vezes senta-se e olha-me com os seus olhos grandes e verdes de felino um olhar enigmático e misterioso ..que quase faz medo....um olhar que me remete para os olhos castanhos tão doces e expressivos dos cães.....uns olhos que me ficaram no coração ....e me enchiam de ternura .... que me diziam tantas coisas.....os cães tem olhos que falam que gritam que beijam...uns olhos que riem e choram ! não sei já se aquele cão foi o ultimo acho que não posso viver sem esses olhos tão expressivos e quentes !
Mas entretanto tenho o Jeremias o gato que me ensina liberdade e independência que me segue de longe meneando o seu corpo belo e quase sensual...exigindo atenção mas só quando ele quer..
E assim na minha casa taõ minha entre livros filmes e fantásticos animais ás pergunto-me se vale a pena sair para o mundo ...para as pessoas...para as suas mentiras as historias complicadas das suas vidas...os seus silêncios ! e ainda levar-me também a mim aturar-me no meio das gentes é tão difícil..tão cansativo ! dá tanto trabalho cansa-me tanto ! ....mas mesmo assim lá vou eu para a roda da vida .....afinal não sou cão nem gato....sou simplesmente humana !
/Histórias vivas / 4-4-2019

DESASSOSSEGAS

DESASSOSSEGAS
por Margarida Cimbolini
Saudade
corpo boca riso
rolando na esteira
anel
tombado na lareira
dedos de fundos abraços
dedos erguidos nos ente-laços
corpo que no fumo se esgueira
água que não se contém na peneira
unidos seios joelhos umbigos
que perduram
agora em fogos nascidos
renascidos da poeira
sempre nunca não talvez
ainda
arde o desejo
rola o ensejo
perdido sugado bebido
mais uma vez

PREDADOR

predador
O poema é livre e louco
sai todos os dias
vive de sonhos
memórias
medos
jogos
historias
sai para caçar
superlativo
como um verbo imperfeito
procura a presa
não leva arma
mas leva o pão,,,o vinho,,,,a mesa...
Margarida Cimbolini.

ONDE

Onde
Hoje fui ver
a luz de Lisboa
nua e coalhada de historia..
Chovia a chuva de Abril ...
E de Abril choveu memória !
A cidade estava cheia !
O povo vende nas ruas vende tudo..
Oferece a quem pague... historia !
O povo vende o que tem...
não se lamenta mas chora !
Feira da ladra gigante tudo se vende agora...
O meu povo é um povo pobre...
vende o tempo
num instante !
Fica o turista mais nobre !
Engana -se o povo assim...
Na algibeira moedas que não valem o chimfrim !
Trabalho não há... não tem...
E passa -se o tempo assim...
Minha cidade tão linda...
curvada e engalanada ...
Chovem moedas do céu...
Mas tu estás suja e sem nada...
E cansada talvez triste..
voltei pra'casa a pensar...
Naqueles que de vida em mão
defenderam a cidade...
Fizeram outra nação..
Enquanto o mesmo povo pobre mas iludido !
Põe à venda o coração..
Ou se torna sem abrigo !
Onde estás Lisboa....?
O povo anda perdido...
Margarida Cimbolini

FOZ

Foz
Eu trago em mim incerteza !
A incerteza do povo
às costa da minha cidade
Eu trago sete colinas
E o baile das ondinas no Tejo
a dançar saudade !
Eu trago casas velhinhas
que são negócios
audazes..
E trago a calçada desfeita...
e os azulejos partidos !
Eu trago as fontes mortas ..
a sede dos chafarizes !
E trago o rio pendurado...
...
ao peito como colar...
Estão mortos os peixes no rio..
e ele não quer assim estar ...
Dos jardins não trago nada...
E já não dobram os sinos...
ressoam as gargalhadas...
Venho triste de ver assim minhas fragas...
de ver fechadas as portas
e as paredes riscadas !
E ergo a minha palavra...
reclamo a doce beleza
da minha cidade usurpada..
Da foz de mim trago beleza !
E na frente além do mar...
vejo um povo conformado que chora e não sabe gritar...

ERA EU

Era eu
Essa que corria no pinhal
Essa que vinha carregada de giestas
essa que não sabia como era o amor do mundo
Era eu a outra vestida de farrapos que se transformava em algas
era eu essa que nua dormia na margem do rio !
E aquela mascarada de arlequim
que jogava o dominó amarelo
na lage da igreja
e ria dos ateus..
Essa também era eu !
E a noiva debaixo do azevinho
e a que encasulava fios de seda
e a que tecia sonhos no tear
e descamisava as espigas na eira ..
Era eu a andorinha que voava na planície !
A mulher da vida que bebia de ti também era eu..
Foi a mim que os teus olhos beijaram primeiro !
E nas palmas das minhas mãos tive o teu destino..
Beija- me e esquece - me !
Mas serei sempre eu a mulher que te viu morrer !
Éramos nós e foi esse o nosso caminho...
Margarida Cimbolini