quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Não
FuJo da escrita..
Na luz difusa da cabeça do coração dos nervos
que me atacam com as garras da poesia
Eu fujo ...não posso !
Agora não posso !
O foco ilumina outro palco !
Ao longe ouço a voz da poesia !
Por vezes alta em
contralto ...
E fujo saio do palco !
Mudo de corpo de nome de rua...
Visto camadas de roupa...
Não me quero nua !
Agora não posso !
Quero isto ...quero estar aqui neste foco !
Fujo de ti poesia..
dos teus olhos de adamastor !
Da tua febre da tua dor....
Fujo dos oníricos tempos das noites sem dormir !
Da tua doce melancolia...agora não ..
poesia !
O Sol também brilha !
E a lua também é dia ...
Questiono a solidão e no espelho vejo cara séria suja de sal
sem sombras sem perdão...
Tenho de acabar esta partida !
De pôr fim neste sermão..
Nem amor nem poesia...
Os pés na terra o olhar na mão !
Em mim acumulo vidas e versos !
Mas sei que em breve...
eles surgirão !
Mas agora ..agora não..

SENTIDOS

SENTIDOS

aprendi a solidão
devagar e com amor
foi talvez a ausência
de dedos nos meus dedos
de medos nos meus medos
o silêncio das palavras
na musica dos risos
não me trouxeram dor
antes cavaram em mim
tesouros no coração
pouco a pouco
dia a dia
ano a ano
calaram-se as guitarras
as vozes cantaram caladas
e os passos recuaram
nas pedras das longas estradas
o meu olhar alargou-se
agudizei os sentidos
e ouvi tocar as harpas
em vez de escutar ruídos
há noite cantam cigarras
em longos concertos alados
de manhã vem as fadas
com beijos de namorados
e são quimeras sagradas
os dias que passo comigo
pirilampos brilham muito
e povoam os meus sonhos
de amores e de sorrisos
guardo assim meus segredos
nos cofres do coração
e com beijos agradeço
ao amor esta benção
que dia a dia bendigo.
Margarida Cimbolini

POBRE

Pobre
Tenho fome !
Tenho fome e tenho sede
da poesia agreste e feroz..
Daquela que abre janelas
e arrepia a alma
Daquela que redopia nervosa
firme e sem calma
Tenho sede da sua lavada historia...
E o cheiro cravado na memoria...
E na boca o tal gostinho...
...da poesia sangue ..,, da poesia vinho !
Tenho sede do amor da raiva e da ternura da poesia
viva...
Que lateja e sai da veia
de Cristo na ultima ceia...
De Malhoa e do seu fado...
Da poesia surreal do sexo e do pecado....
Deslumbramento constante...
eu quero poesia errante..
Quero esse sonho que tive..esse verso que me alenta
Esse poema que é lobo..
feito de lava e de lodo....
Esse pedaço de vidro...
que me corta e me alimenta !

TULIPAS AMARGAS

Tulipas amargas
Amargas são as tulipas
que nos caem do alto das madrugadas...
Quando o silêncio enobrece as sombras...
e dá a tudo o seu misterioso sussurro...
Quando os olhos se viram para dentro...
e todos os sentidos se iluminam...
a noite torna-se clara..
as tulipas ficam amargas..
...querem àgua !
Onde a irei buscar
se não conheço o
caminho das fontes !?
..se no mundo encontro vales e montes..
...se a cada passo
desfalecem pontes...
e troco o Sol por luar !!!
Tombam do alto da madrugada..
tulipas amargas! ..quando alguém se põe a pensar..
....os olhos calam
mas não fogem..
alguém terá de as matar.
Porque as flores também morrem.
Margarida Cimbolini

SERPENTE

Serpente
Seria como uma serpente a gritar dentro de mim !
Vejas bem ...seria como àgua fervente
...erva do diabo ..rio de lava !
Seria o poeta maldito que no seu grito aflito quisesse uma bengala...
O caos é dificil de suster a mentira impossível de manter..
Então se só tens tormento..
Não me acresentas ! Se para ti ser humano é isso que representas..
Terás o teu palco o teu sabor a tua glória..
Mas não me terás a mim !
Eu não tenho história ! Sou o princípio e o fim !
Sou uma estranha memória !
Eu a que esqueço tudo ..
Eu não presto para bater palmas !
Coitada de mim tão cheia de almas...
Eu todinha de braços abertos de lábios abertos..
com os meus rios incertos...
sem olhos porque não enxergo ...só sinto...
porque sofro e não minto...
porque poiso a toda a hora...
neste meu poiso que o ser humano ignora..
Eu que nada sei e tudo pressinto !
Eu sou aquela que mesmo a rir chora !
Não sei que queres de mim !!!
Nada tenho para ti nem para o mundo..
Eu estou só !
E pra companhia quero os anjos ! as nuvens do céu !
Aqueles que se escondem são os meus..
Aqueles que estão atrás do pano...
Os que são loucos ..vadios e insanos...
Nao os loucos da ribalta...
...os meus loucos não tocam piano !
Cheiram mal ...
a amargura ..a solidão... a desengano !
Por favor vai - te embora...
Arreda de mim..deixa que até ao fim..eu possa ainda acreditar no ser humano !
Ilha de mim
sabias-me a água
nuvem solta de mar
ilha de nevoeiro
ilha de mim
aprendi a procurar-te
quando em mar alto te chamava
ainda me não conhecia
presa entre a alma e o fumo
cega de olhares e de carinhos
apenas olhava
corria entre os ninhos dos peixes
vestida de algas
sentia ás vezes as coxas molhadas de sol
era a ti que procurava farol
um olhar sobranceiro ás tempestades
olhos de luz
pesei o fumo e a alma por ti
quase sem peso o meu anseio
.....porque era nevoeiro
Mito de ondinas
caminho de barcos sem ancora
armados cavaleiros contigo navegaram
em ti encontrei a sombra leve do meu corpo
leve como o ar ....breve como espuma.....
sou nevoeiro e no mar no meio da neblina
sem género procuro ao largo a tua luz
e sigo no rastro da tua espada fina
e se te escondo é porque existo
peso agora mais que o ar....deixei de ser mito das ondinas
e subo mais e mais alto voando num sobressalto
mas sei-te lá no meio do mar bem a prumo
em me perdendo sei onde moras...pronto sem tempo sem horas
será em ti farol que acharei sempre rota e rumo.....
apesar de ser menos que o ar....sou apenas fumo...
Margarida Cimbolini.
(arte Rui Lóio )'

RENASCER

Renascer
Quando fecho os olhos
a luz bate - me na testa
e vejo a devagar
vem num crescendo de brilho..
....num raio ou muito ao longe....
... a chamar ..a pedir..a amar..
É macia e radiosa...e apazigua..ama e cura....
Não há palavras que a descrevam !
É uma luz viva.. e
sinto o sangue a circular nas veias !
A respiração vai vem ..pulsa..é vida ..
Na boca nasce um sabor a romã..
E no ar um cheiro a nuvem um cheiro a alma cheia !
O som embala .
! vem....
..... mavioso e distante...som de maré..raro ..imenso ..
......um som sem pensamento !
Um som que me ignora..desapareço....
Viajo às vezes para longe..em vôos muito breves !
e fico extasiada e leve..
...como num casulo...
Gostaria de ficar lá...
nesse sítio de leite e de mel..
nesse sítio onde não tenho que ser nada...
E quando volto o meu coração vem a rir...
Aqui e agora nesta manhã onde sou madrugada...
..curvo - me e estremeço !
Curvo - me e agradeço no meio do silêncio .. mudo de mim...
..por sentir assim..
sou
... um eterno e constante obrigada !
Obrigada ...