quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

BOLHAS

Bolhas
Vejo os meninos que fazem bolas de sabão
tecendo liberdade e ilusão
e penso ....quantas vezes já fiz bolas de sabão
no correr desta minha singularidade
no correr desta minha solidão
quantas vezes fui sopro no vento
e vento soprando ilusão
Se agora as fizesse seria com desalento
insensata vida esta onde corre o tempo
Quem me dera dar pão a todos esses meninos
que tecem bolas de alento ..feitas de sabão
Maldigo este mundo sujo e lento
onde a fútil ignorância da hipocrisia
nasce já na esperança do perdão
Maldigo estes pescadores de agonia
que pescam neste poço fundo
.....asas para voar na heresia
tornando cada vez pior o mundo
mascarando a falsidade de alegria
em dolorosa ilusão......
Maldigo os santos de sacristia
que só aos pecadores fornecem redenção
enquanto os outros.... calados esperam perdão...
Maldigo este mundo que me asfixia..
melhor acender uma vela do que ficar maldizendo a escuridão
Pois que façam os meninos bolas de sabão
mas fujam nelas..agarrem esse instante esse clarão
não fiquem pardais agarrados ao ninho
deixando corroer o coração
levem a alma lavada no caminho...
sempre longe dos heróis e da razão.....
pode ser que escapem ao destino
da manada que ferve o caldeirão......
de quem teima em dizer a verdade e o caminho
rebuscado numa vida de mentira
num relâmpago de pavor...... renegando a própria criação..
E eu
.....ai quem me dera pode...r ainda... fazer bolas de sabão....
Margarida Cimbolini

VONTADE

Vontade

fraca vontade
recebe mais um amanhecer
manhã fria
caricias nuas
olhos piscam
já cansados da Luz
que o Sol apenas ameaça
fraca vontade do dia
mais um trilho que se traça
no corpo cansado de sentir
bem vinda seria a neve
esquecido seria o caminho
essa mortalha branca e leve
faria migrar a vontade
havia de gelar o ninho
havia de aguçar
esta fraca vontade
de continuar o gelado caminho..

Margarida Cimbolini

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

RIOS

então os rios cansados de correr nos leitos
resolveram saltar as margens
correndo como amantes desunidos
perdidos que estavam na nua cidade
amantes e rios correram paralelos
universos e vidas tinham a separá-los
apenas a eternidade os unia
e a foz
descem a colina rolam sobre seixos
suas almas desordenadas
gesticulam.
sobem na espada nua da corrente
retalham veias de água
em rosa dos ventos louca
fluem
corpos desafiando a corrente
descarnados e lúbricos
apenas a eternidade os unia
e a foz

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

MAR DE PENAS

mar de penas
.larguei minhas penas no mar.
Que negras penas eu tinha
nas águas verdes do mar
ficou uma lágrima minha..
Larguei minhas penas no mar
eram penas cor de chuva
nelas desfolhei a terra
eram penas de viúva..
nelas deixei manto negro
e canções de bagos de uva.
Cobri penas de luar
e entre a branca espuma
ficou o sonho de amar
sonho tecido a voar
nas asas de uma pluma..
Larguei minhas penas no mar
e o mar tornou-as brancas
quando voltei pr,as buscar
tinha doces penas mansas...
Meu mar dourado e azul ...
.....que verdejou minhas penas
vestiu-me de algas salgadas...
..fiquei deitada ao seu lado
....com ele bailei suas danças...
e com penas de brocado........
.... enfeitei ondas crianças......
O mar salgou minhas penas
..... roubou-lhes medos e dores
saí do mar tão lavada..... tão sem receios
................limpa de tantos terrores
.. que o Sol me sulcou trilhos
......e me cobriu de flores.....
Larguei minhas penas no mar
.............e troquei-as por amores...

OLHAR

olhar
sobe meu olhar
. na terra Mevlana.
procura um outro suspiro
um olhar de luz..
onde só o amor clama
os olhos chamam estrelas
se o olhar encontra olhar
a alma acende uma chama
olhar onde a vida cresce
lá na terra de Mevlana
.onde o olhar emudece.
na lágrima que o tempo tece
ficou um olhar assim
olhar que o longe perdia
ou porque verde seria
guardava o meu olhar
onde o meu olhar se queria
olhar que me alumiava
na estátua de mim escureceu
olhar que ainda olhava e mesmo assim ...morreu ...
olhar que se estendia que olhava a se perder
na estátua de mim ficara..mas em estátua se perdeu
Nas estátuas os olhares são os primeiros a morrer....

SABIA

Sabia
Sabia que não podia viver sem as encantadas marés
de onirismos ,quimeras de um sentir....
Marés vindas desse sitio onde só cabe a palavra ,,ir,,
Como dourar estas manhãs
Sem as doces madrugadas onde banhada em poesia
,,,deixo correr o amor
Como deixar fluir o tempo tão leve prateado
Esse tempo onde me embriago
Plural na minha singularidade
Vou servir -me versos
Alimentar as veias de azul
Vou subir de novo o cume dos horizontes
Sinto -me de novo poeta

MAS .....VEM.....

mas vem
queria chamar-te
a ti meu bem
bem mal me quer
quem olha a sombra da luz
bem mal me quer
quem sabe assim não me querer
.mas vem.

AMANHÃ

amanhã
hei-de acordar com a boca a comer vida
no amanhecer ou ao crepúsculo
tão solitária como no dia em que nasci
hei-de lá estar brilhando no fundo
do meu sono pardacento
terei ainda olhos ,pernas,braços e vontade
hei-de ser eu berrando liberdade
no silêncio da minha voz de formiga
no meu corpo lúcido como um diamante
e como ele pedra ignorante...
....deste templo onde me alberguei
sozinha de mim para mim rirei....
o espelho não pode reflectir-me
a agua vai distorcer-me
vou bebe-la sôfrega como nunca a bebi
mas não posso ver-me nela
não consigo ver no que me tornei
pois sou ainda e sempre serei outra
aquela que apesar do olhar vago
e da voz que nasce de mim sempre rouca
surge renascida quando neste bailado da vida
exije saber de onde vem o som para onde é a ida
e morde com força a maçã,,,,apesar da boca em ferida....

ALVOROÇO

Alvoroço
Acolho Janeiro com alvoroço!
O alvoroço das crianças!
É um ano novinho em folha.
Quero brincar,,dançar e.rir!
Quero viver!
Vou querer por um segundo!
Não mais! mais não me deixa o mundo..
Dentro está o desassossego...
Tudo o que me inquieta..
Não é por ser Janeiro que a estrada se torna recta...
Nem a alma exigente perde a sua meta..
Tudo em mim está igualzinho..
A Ponte bifurca -se. ..a escolha é constante..
Estarei sempre triste!
Tudo em mim pede ainda mais...
A busca é maior a dúvida existe..
E o coração clama por amor...
e dentro mim sempre está a enorme dor de ser que ....subsiste..
Mas solto a voz num alvoroço de criança!
Venha Janeiro....quem sabe o que quer.. alcança..
E abro o olhar vejo ao longe mais um ano.
e encho -me de fé...
E sonho -me confiança!.

A MALA

mala
a mala é o lugar onde as certezas moram
na mala cabem os medos
florescem inseguranças
na mala se guardam os escritos as lembranças
o batom,as aguarelas,os cigarros
tudo o que é meio -.certeza
....ou meio esperança
assim se sonham vazios
assim se sonham os rasantes voos
onde somos apenas criança
assim voam os cucos sobre os rios
.mas quem tem medo não dança.
voar incerteza pura
o vazio ,o nada, o universo ,o abismo
escrever o poema, a rima, o verso
é voar sem altura
voar é o sem eco... o total o inverso
é a vertigem... o terror do vazio
mas só no vazio o voo acontece
por isso leva-mos a mala
ela pesa pouco ..mas pesa
é a certeza de passado e do presente
sem ela o futuro desaparece
é essencial ao não voo
é lugar onde a mão e a mente remexe
com a mala o abismo esquece
a mala é o lugar onde as certezas moram
e com a mala a alma entretida ....não cresce !

LÁBIOS

Lábios
que se afastam,que se colam,que deslizam
lábios que dizem
esses lábios...aqueles lábios ..os outros lábios
os meus lábios.....como choram
como gritam...como amam...como coram
os lábios que eu tive...que me tiveram
as bocas ..bocas deliciosas
lábios de lágrimas,,,tacteando choros
repenicando coros inventando gemidos...... de guitarra
lábios de umbigos ..de gelo.......de sexo...sofridos
bocas de prazer amorosas cobiçando o licor das rosas
lábios cor de vento....ciosos de alento..
lábios de mãos....... gulosos de glosas
os lllllábiossss,,,,,,,,,ávidos... tão ávidos loucos a perder
os lábios onde morri e morrendo vivi....
lábios da minha vida...eu vos beijo ...
.....por mim.....por ti....
lábios ....... de mim.....sim....
Margarida Cimbolini

DESFOLHANDO

Desfolhando
desfolho suave e mansa
.o manso livro de Maria.
já vai alta a madrugada
ouço a mansa cotovia
minha mão doce descansa
está quase a nascer o dia
fecho os olhos a espreitar
se dentro de mim dormia
não me quer ainda o sonho
ouvirei a cotovia....
Margarida Cimbolini

MARAVILHA

maravilha
E vou andando neste enorme carroussel
montada no febril alazão
desta enorme fantasia
onde sou tudo o que eu quero
sem ser nada
e aqui ando de mortos e vivos rodeada
tremo de frio neste desafio
engordo no rebanho dos tristes
mas sou a mais triste da manada
arregalo os olhos de espanto
e fico-me num quebranto
a juntar vogal e consoante
na busca da minha palavra
Aluguei esta fantasia
e não sei como despi-la
por baixo tenho a pele dorida
e assim me arrasto
pé ante pé... colhendo uma flor ferida
o pó de arroz a tapar as nódoas negras
maldizendo o caminho cheio de pedras
mas caminhando rindo da dor não tida
sonhando com açucenas
vejo para além do além
com esta minha força cerzida
neste enorme tear que é esta minha vida

SOMBRAS DIFUSAS

SOMBRAS DIFUSAS
difusas sombras tão difusas
que não sei qual delas vestir primeiro
teci vestidos de sargaços
mas não enxergo o mar
caiu nevoeiro
sinto a maresia longínqua
a brisa traz o seu cheiro
os seus olhos continuam lá
estranho como me perseguem
colaram-se a esta pele que me cobre
e fizeram pequenos poros de luz
como retinas negras salpicadas
de dimensões inesperadas
que me amedrontam
porque não falam
parecem julgar-me
guardo-os mesmo assim
,,como algo que já me tivesse pertencido
margarida cimbolin

VERDADE

verdade
quero a verdade
a verdade... enorme palavra
mas sendo. nada. não tem sentido
se me for permitido
era a verdade
tão simples como o mais bruto dos calhaus
sem mais
sozinha sem buscas nem filosofias
sem bons e sem maus
a verdade
coisa pouca nua e radical
era a verdade

Margarida Cimbolini

RECUSO

Recuso
Recuso o medo
Imponho a mim própria
este segredo
Esta minha fragilidade
Este sentir em demasia
Está alma há flor da pele
Este mar íntimo
Estas lágrimas de maresia
Morre o verso de presságios...
Por onde erram os meus filhos
Os meus olhos de poesia
Os sonhos que deixei na mesa do café
Os meus arroubos de nostalgia
Perdi -os voltei vazia!

CONTO

Conto
um conto assim
como eu te contei
era uma vez
sim eu conto !
era uma vez um rei
e uma rainha
era uma vez uma menina
sim ,eu conto !
a menina era esperta e ladina
mas primeiro nasceu e cresceu
foi criança e depois menina.......
corria nos pinhais
na copa das árvores
com ela viviam os pardais
lia livros sem fim ....e sonhava
viver um conto assim
um conto de um mundo lindo
de pessoas boas
de rosas sem espinhos
as rainhas seriam todas as mulheres
que trazem segredos no ventre
e que sabem fazer ninhos
e que passam na vida rente
rente ao segundo agora e presente
os réis esses eram os homens sábios
semeadores do pão
homens de amor e de razão
e todos irmãos do seu irmão
era um conto lindo
de uma terra de leite e de mel
onde batia um grande coração
e ia crescendo a menina
sem o sabor do fel
,,,, correu pelo mundo
aprendeu a cozer postigos
a abrir casas ,,, e a ver vidas cheias de castigos
bateu a portas fechadas
aprendeu a perder amigos
aprendeu a palavra ,,não,,
e que os homens tinham inimigos
e que as mulheres não eram rainhas
antes frágeis andorinhas
e que a terra era um redondo perigo
sim ,,,eu conto !
e conto um conto lindo...
era uma vez uma mulher
louca,acossada,acabada ,vencida....
forte ,arrogada, guerreira ......
como outra qualquer carregando cada dia
vivendo na corda bamba,,,,que levantava e caía
,,,vida onde o abismo sorria.....
aprendeu a voar e a amar com alma e com coração
e da copa das árvores chamava os pardais e ria
e aprendeu a palavra poesia
e nunca cedeu a um ,,não,,
mas mais que tudo no mundo em que vivia
de um sonho ,de um som,de um anel de magia
aprendeu a palavra,,compaixão,, como a maior de cada dia...

SAI

SAI
sai-me da pele o sorriso
por isso o seguro
por isso o quero franco e maduro
a pele
rasgo-a em poros pequenos
um a um os arranco
.cada um é um abismo.
.em cada um pequeno sismo.
saem da pele gritos fundos
quando eu morro......morrem mundos
todos aqueles em que cismo
todas as minhas quimeras
tombam do alto da torre
....e com elas tomba pele.....
....já não sofro só um pouco...
sofro muito...... por um nada...
e sinto sempre a pele arrancada
rotos são os meus olhos.....
não......... as lágrimas não secam.....
se temos amor e vida a lágrima tomba sempre
...............e grande se torna a ferida......
Sendo assim peço guarida...
que guardem as rosas os espinhos
e se há pedaços de vidro saiam do meu caminho
e se embaciem as passadas quando der um passo em vão
e me embotem os sentidos quando salto para os perigos
pois de pele já tenho pouca é muita aquela que gasto...
......pois vou sem mascaras nem roupa...
adem os azuis pergaminhos das estradas onde passo
por barreiras nos atalhos e encher-me as as mãos de graça....
....................................................................Não vêem que estou descalça
Margarida Cimbolini