quarta-feira, 21 de junho de 2017

INESPERADO

nesperado
o vôo da borboleta
na selva da música
no bafo dos corpos colados
os dois lagos azuis
na rosto escuro
pousando nos meus
a mão leve queimando a pele no tecido fino
colados na dança sensual
parada irreal..
azuis de azul profundo
visão de povo antigo
místico amor
dimensão de chuva
mistura inesperada
jovem olhar
nos lábios rotos
de mais uma noite
tinha corpo e voz
aquele olhar
jovem demais
mas real
ainda me persegue voando
na asa delicada
da borboleta..
na beleza...
3.6.17
MÚSICA

a música sim é minha

as notas o som 


as linhas que dobro e escuto


o ritmo o sorriso nos lábios

de quem ouve

a doce loucura que varro
com o bater das teclas


o sino ...a língua ...badalo da voz


estas armas brancas

que não querem ferir
são os ouvidos abertos
de quem quer ouvir

a dor que badalo na escrita
este cheiro a mim que grita


este espelho algo algoz
que não acredita


os olhos com que o humor me fita
a malícia gentil e aflita


da opera que vivo e me exita

voltas imagens voos de andorinhas


folhas secas ....pôr do sol
aguaceiros
ninhos de pardais


voÔs dos cucos 

pios   de chacais

passagens rápidas breves


aviões em arrozais

o grão mais fino 


nem isso é meu
,,,apenas o começo
,,,,ou as notas finais,,,,,,,


Margarida cimbolini

MAIS

Mais...
quando nós cantar.mos o tempo das cerejas
meu amor
talvez elas não me estalem na boca
como os teus beijos
e os lábios ainda vermelhos
e o riso das cerejas no olhar
meu amor
é Primavera !
vamos cantar as cerejas
enquanto as temos cá dentro !
É agora !
Ainda o rosto toma o rubor e o corpo estremece !
com as cerejas !
doces plenas plebeias ..!
Vem meu amor esquece os dias cinzentos..
é o tempo das cerejas....
E amar é tão bom!

PALAVRAS SÓS



Palavras sós
Palavras sem eco
onde ouvi teu som
onde a tua caricia
as palavras
queria amputá-las
cortar uma a uma
engasgar-me nas virgulas
podar os olhos
na conjura do silencio
fogueira de pontos finais
arrancar de mim
..essa memória....
porque foi violada
porque pedaço de mim
guardado em mim
era só meu
lançado do alto da ternura
caiu estilhaçado no chão
pedaço despedaçado
na pragmática retórica
do desamor
palavra colhida na raiz
arrancada
escondo-as envergonhada
já não minhas....
pena que fossem tão sinceras
não posso repudiá-las

DESCONHECIDO

Desconhecido
desconhecida sou eu de mim
pois de mim pouco conheço
e dos outros não conheço nada
desconhecido como o cheiro da rosa
antes de a cheirar
conhecia apenas o sangue feito pelo seu espinho
o meu sangue ,seiva que me corre nas veias
seiva que transbordou quando o tempo quis
e no casulo do meu corpo viveu
e sempre transbordou nas metamorfoses do ser
o sangue foi o primeiro dos mistérios que conheci em mim
tudo era desconhecido apesar de anunciado
sinais constantes na terra nas flores e nos astros
sinais na migração das aves riscando os céus
sinais da comunhão entre mim e o Universo
no gesticular constante da alma conheci as suas humildes exigências
poderosas questões escritas na ansiedade da minha voz
que me chegavam e cujos gritos me saíam dos poros
e que só eu continuo a ouvir no abafo da pele
desconhecido foi aquele que me criou
até aquela primeira vez em que através de mim conheci a criação
desconhecida a minha rota e o meu rumo apesar de anunciada
De presságios morrerão os versos e o tempo caçoará sempre de ............................................................................mim...
Serei sempre eu ...cobaia de mim e de mim eterna desconhecida.....
Margarida Cimbolini

A NOITE

A noite
em chegando recebo a sua carícia
 também a amo
é nela que mergulho
é quando ela chega
que esta estranha paz
me invade
mais que a paz do silêncio
mais que a clareza da lua
mais que a tamisada luz do luar
a paz que em mim se instala
dimensão da distância das coisas
.doce plenitude tão frágil .
que ouso chamar-lhe verdade.

NÃO



Não
Ninguém imagina o que é difícil ser eu
É como retalhar a própria pele
e em cada poro
sugar a essência da vida.
...e arranca-la à dentada
e ficar a rete-la
olhando a
 sem saber o que fazer com ela.
É não ser homem nem mulher nem pessoa..
mas ser terrivelmente humana..

CARDOS

Cardos
Tinha tanto amor nos olhos
que transbordaram enfim !
Fui levar a água à bica
e ouvi chamar ..assim...
como quem diz um segredo!
como quem gosta de mim!
Era um pastor que chamava
..ao longe...no monte !
Trazia na mão rosa brava ..
e uns cardos engelhados !
E bebeu da minha àgua
fazendo de meus olhos fonte...
...deixou-me os olhos...
cansados...CARDOS
Dá-me cardos pastorzinho..
que os ponho na janela...
Rosas já não as quero...
que tem a vida breve
e eu mais breve que a delas !
Vim com ele de braço dado....
....e tinha os lábios salgados...
Chamei um favo de mel....mais doce era a minha boca......
.Da-me cardos pastorzinho..
pr adoçar esta voz rouca..
E fiquei mais o pastor....pastoreando azevinho !
Levámos cardos e rosas e de alfazema um cheirinho..
Não sei qual de nós ficou..
mas dos cardos fiz raminho !
E vim da fonte contente trazia o amor nos olhos
e nos pés....
..nem um só espinho..!

INSTANTE

instante
Nas teclas do meu piano
eu toco árias antigas
antigas de mais de mil anos
seriam precisas mais vidas
muitas mais para as tocar
outras tantas para ouvi-las...
Teclas brancas brancos dedos
nos corações que se dão
todas as notas delas......
..... fazem mais que uma canção
fazem séculos de partidas
.......idas e vindas de amor...
........eras e eras de instantes....
e amor ..amor a rodos ..
...........sempre a rodopiar
Nas teclas do meu piano..
,,,,,nos fusos do meu tear........
tanto linho que teci....
...tanto aquele que rasguei.....
mas todo o amor que tinha......
.....nunca o regateei......
e os instantes passaram....
Onde começam os anos ....
Onde pára o tempo errante..
Quantos anos são precisos
.....pr,a construir um instante.......

quinta-feira, 15 de junho de 2017

MAR INTIMO

Mar íntimo
Vê como a noite se agita
Correm em mim murmúrios 
de desejos...
a noite ensina- me
o caminho da sombra..
mas não o vejo...
Sinto a fervura do meu íntimo mar..
...só.
Vê como a noite se agita
Sinto como me reclama
Quer falar - me!
não a ouço...
Vem falar- me de ti !
Calam -se os tambores..
Regougam os cucos baixinho..
Falam de ti..
Que diz a noite ..
Onde o vôo cúmplice dos cucos...
Onde as palavras..
de onde os silêncios...
Pausas longas...planicies de solidão
Colinas altas ..elas trazem sombras
Jornadas onde o tempo se não engana...
Vértice da vida em muitas vidas paralelas..
Agita-se a noite
inquieta..
e a lua ferve-me nas veias..
Desejo de te ter..
Desejo plural de plenitude...
De linguas..de bocas ..de poros..
De carícias ...de vivências partilhadas..
em beijos..
Desejo de palavras ..
Mar íntimo partilhado...
Margarida Cimbolini

ALMA publicado na Antologia Corpo e ALMA

ALMA

e porque sinto
amo e choro
e humana que sou
pressinto
esta alma
que me dá corpo
que sinto
em doença
em gozo
em alegria
e porque sinto
como não sentir
o que é a alma '?
é isto que eu sinto
este infinito momento
em que não penso
sinto
não sei o que é a alma
mas não é o desespero
que sinto
quando alguém me diz
,,não sei o que é a alma,,....
isso eu sei e sinto.

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SINTO

sinto
sinto o ódio dos corruptos
o meloso abraço
o mentiroso objectivo
o grito sufocado da inveja
o amargo de boca dos pobres
daqueles onde o mesquinho espírito reina
e incomodo como a chuva infiltrada no telhado
incomoda toda a casa...... num só pingo
incomodo o absoluto,, o ditador,,o rato...
o rato na sacristia do padre e o seu retrato
e na vagina incomodo o esfregaço
ouço as palma e os bravos e os sorrisos de falso pasmo
a vontade de rir no fundo dos olhos
nesses olhos pardos de nevoeiro
que roçam a perfeição das consciências habilmente tranquilas
ouço o bater surdo das mandíbulas a mastigar ócios
a alimentar paixões a criar amizades e amores
A fomentar indigestão e tremores .....
a todos esses eu sinto e deles me ressinto e vomito
......só me pergunto como podem aplaudir este meu dito..

NO INCENDEIO

No caminho
Incendeio o tempo
Saio a correr
saia rodada
pés nus na terra
No caminho de nada..
vou apressada..
Levo brasas no regaço
vou semeando fagulhas
e fica um rasto de lume..
Levanto a saia rodada
já sinto a fímbria queimada
e nas pernas um queixume
por certo é a pele crestada!
Levanto a saia rodada
tombam as brasas no chão!
E tiro a saia rodada
..arde a saia na ciranda !
gritam fagulhas na estrada! e eu a caminho de nada !
fujo mais apressada não vá perder pé e mão..

CANTIGA

Luís de Camões
Cantiga
Descalça vai para a fonte
Leonor, pela verdura;
Vai formosa e não segura.
Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamalote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura;
Vai formosa e não segura.
Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro o trançado,
Fita de cor de encarnado…
Tão linda que o mundo espanta!
Chove nela graça tanta
Que dá graça à formosura;
Vai formosa, e não segura.
Luís de Camões
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terça-feira, 13 de junho de 2017

MARULHOS

Marulhos
espelho meu
quem é mais bela do que eu
águas da minha fonte
onde a foz do monte ?
abri.vos águas cristalinas
aquietai-vos
quero ver o meu rosto de menina
qual o teu '?
não o outro.....aquele ....
onde eu não era eu.....
quero o meu rosto de criança....
esse onde brilhava a minha trança
não esse não....há ferrugem na moldura
quero o rosto de quando era pura..
isso existe ....? não....não...
quero uma máscara triste....
aquele já em mulher.....onde ri e chorei...
esse onde parir foi ...bom.....onde amei..
não esse não..... dele já me cansei...
um com cara de ondina....no rio...
tágide me chamavam lá na foz do Nilo...
não o vejo ...procuro desesperada....
esse ? mas não eras tu !!!!! foi em vida passada...
Não sei espelho meu.......não sei.......
Quero um rosto meu.........!
Senta-te á beira da estrada....sem azedume...
E apanha a folha rasgada de ti.....na montanha...
...em cima ..em baixo ....no sopé ...no cume...
Queres pedaços de ti ..
.bocados de morte ou de estrume......?
Não....''''? então não procures um rosto...
cheira o teu próprio perfume.......
....és tu apenas mulher ...só mãe .....só fêmea..
és tudo ..fogo ...fogueira ....rio ...castelo ...ameia..
espada afiada e certeira ...mulher de lume...
o teu rosto é máscara ...é pele..é curtume...

segunda-feira, 12 de junho de 2017

HORAS

horas
entre mim e as horas apenas o ruído
o tic-tac do silencio a passar nas bocas da colmeia
entre nós e as horas apenas o tempo
o tempo inexorável da vida a passar
as abelhas procurando a colmeia
o mel escorrendo nas bocas de sangue dos homens
a carne terrível e perecível
sempre a mudar de nome de idade de sexo
a carne sombra de beleza que nos cobre
sombra do destino de dor a que nos condena
entre o singular e o plural sempre o tempo
a dor dos ossos que gemem das articulações presas
entre mim e as horas o corpo..templo infectado ,abcesso a rebentar
a inocência...a mocidade..a velhice senil ..grito dado ao nascer
entre a vida e a morte sempre as horas irredutíveis que passam
entre mim e as horas a poesia....o verso ..a metáfora ..as palavras
entre mim e as horas a vida polvilhada de brilhos
os dedos polvilhados de uma luz emprestada...entre mim e
as horas o tempo as palavras a construção de cada frase
entre o poeta e as horas tudo....quando as horas pararem....
quando as horas pararem o poeta morrerá
Margarida Cimbolini

SONO

sono
beijar-te-ei os olhos quando dormires
ao meu lado
beijar-te-ei o sexo quando acordares 
ao meu lado
só no sono seremos cúmplices
morderei os teus lábios
até que me tinjas os mamilos
de sangue
e nos gonzos gemerão as portas
quando o meu gemido ecoar
seremos finalmente um

TU CAMÕES

TU Camões
em ti meu amor medito
de ti me pergunto mais
onde estará esse escrito
que fala da tua historia
não os escritos do mundo
mas os da tua memória
busco -te e não te encontro
trovas mil e mil imagens
entre Pedro e sobre Inês.
e tantas onde cantaste
em trovas de amor e prosa
mas é a ti ,,ser,,que eu quero
a ti mesmo sem glória
homem de vida e amor
libertino sem freio nem medida
meu poeta trovador
que tenho dentro de mim
de exacerbada dor
exaltados os sentidos
ao mais que pode o amor
ser mãos ser boca e ouvidos
toda a tua poesia
essa ânsia mal contida
foi a ela que senti
e tu lhe deste o nome
o nome primeiro que vi
procuro-te nas barcas nos céus
nas simples flores do monte
nas belas mulheres sem véus
que nuas levas á fonte
e banhas no teu carinho
vem encostar no meu ombro
essa fronte tão formosa
quero cantar-te todo o dia
e no teu dia poeta deixa-me ser tua rosa..
Margarida Cimbolini
10-6-2017-dia de Camões

quinta-feira, 1 de junho de 2017

BEIJOS ROUBADOS

beijos
beijos roubados
na boca da chuva
na aresta do planalto
beijos sorvidos da dor
prenuncio da ausência
na solidão anunciada
beijos nus...salgados
como manchas de agua
salpicam a rude rocha
descem vertente de um corpo
descem pelo ventre liso
loucos sedentos mastigam as bocas
povoados de anjos...voam
no cabaré do destino
beijos roubados... caricias imensas
despedidas de um amor
boémias caricias voláteis
línguas de fogo erram
no vale da púbis serenam
imaginados nas bocas
unem-se sedentos de saliva
choram da eterna despedida....
Margarida Cimbolini
Théophile Alexandre Steinlen - Le baiser (1895-1896)
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RESSUREIÇÃO

Ressurreição
Vertice sagrado
na ponte inaugurada
Recebo a solidão
na minha sala de estar
que não é um salão.
mas fica longe da rua..
Recebo.a todas as noites
entre os vestígios de lua
cantada pelo vento
que se julga em casa sua !
Na corte da minha sala
onde Pessoa sento
aí me sento também
na minha ressureição !
cada noite ressuscito
e falo com poetas sagrados
com Camões penso e medito..
e quando me lança a mão..
sou fêmea e poeta....
...Acredito !
Vem Ofélia enciumada...
digo-lhe que é amada
e no seu amor ressuscito...
na minh"alma gravada...
está seu poeta bem escrito..
Recebo a solidão..
e está Quintana a meu lado....
e Florbela festeja com a mão o pêlo do gato
...
Natália ruge pra' mim no meio desta solidão ..
discuti.mos Platão !
Solidão abençoada...
E assim ressuscito as noites
nos dias ressuscitada..

NOITE DE VERÃO



noite de verão
entro na noite sem pensar
como quem entra dentro
e espera dentro o alento
para poder lá entrar
não bato há porta
não tenho o passe nem a senha
minha noite borboleta
depois do dia a noite é fresca
lava os poros da sua gente
linda noite de Verão
romanceira e clamorosa
deito-me na sua areia
satisfeita criança nua a sonhar
a noite recebe-me inteira
e segredo.....amo-te luar......

MINHA LISBOA

minha Lisboa
lamento tanto minha Lisboa.
vendida neste carrossel de fendas e futebóis
sou eu rasa tábua nessa mesma fenda
deste mundo fantástico de multidões
probrezinha esta Lisboa .....minha......
encolhe-se engalanada
também ela se queria sozinha
mais que vendida e calcorreada
também ela queria uma mão de beijos
e do mar desejos de navegar
sinto-a cansada....não pode mais...
há meses apregoada,não em pregões matinais
em greves ...em gritos .....em ódios....
acudam-lhe não pode mais....
e agora está em saldo e amanhã vende caldo
lavando os pés aos espanhóis
e arrecada tostões escondida e envergonhada
outros que ganham milhões fogem á garraiada
invade-me longa nostalgia,,,,,pobre cidade....
desfia-se podre da vida....
esconde sorrisos e arraiais,,,,,fica deitada estendida
esperando a gloria esquecida e mesmo assim canta
na minha voz rouca da noite ...rouca da vida
erguendo-se uma vez mais.....
margarida cimbolini

O ULTIMO RAMO

O ultimo ramo de espiga
já foi à tanto tempo..
com a papoula vermelha
a espiga
e a oliveira mais o pão !
..ramo de espiga !
que bom ter mãe !
que bom ser rapariga !
que lindo olhar !
que lindo amar !
...como salta o coração.
!
e ter pai e ter família...
Como era bom acreditar.
e estar assim protegida...
Atrás da porta o meu ramo de espiga