quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

SE

Se
Se fosse canção
seria uma canção de amor
seria um grito de alma
uma prece uma brisa uma cor
Se fosse regato corria para o mar
seria um peixe verde
um raio de luar
Se fosse cegonha faria um ninho alto
voaria perto do Sol
seria a vida a despertar
e em sendo caminho ia ter
contigo
onde pudesse amar !
Seria tábua rasa
onde servisse o tempo
onde a ausência se tornasse luz
onde a luz
viesse pernoitar
Mas sou esta busca
este sentir desenfreado
Este jeito de ser magoado
sem controle
Este nó apertado
que não sei desatar
Sou esta ave sem ninho
Este casulo esta mágoa
este carinho
que não sabe onde poisar
Em sendo viva serei sempre
lençol de neve
lençol de linho
Borboleta breve
de asas de arminho
frágil tinir de sino
Av'e - Maria sem lugar ..!
Margarida Cimbolini

BARAÇOS

Baraços
Eram teus beijos baraços
de cristal e de plumas
eram sargaços do mar
eram baraços de espumas
Tinham teus lábios vermelhos
o doce acre das amoras
Foram meus lábios braseiros
onde dormiam demoras
Bebias deles sequioso
mordendo perfumes de rosas
Eram teus beijos baraços
e dançava o meu corpo
em mãos quentes,
amorosas
Mas eu queria mais e mais
queria tudo ,queria abraços !
Da tua pele queria a vida
dos teus olhos queria a luz
queria sedas ,queria laços
Queria das nossas veias nós
Juntas queria nossas almas
e dava-te as mãos nuas
que tu beijavas nas palmas
Passou o tempo a correr
queria mais , mais sentir mais ser !
Devagar pouco a pouco...
ficou o amor cansado
E esse amor que era louco
principiou a morrer ...
Foram teus beijos baraços ..
No chão ficaram estilhaços
e foi juntando os pedaços
que deles me puz a escrever...
Margarida Cimbolini

GRITO DE NEVE

Grito de neve
Corro os olhos na planície..
Esventro a terra
Sou semente
Sou espiga
E pão
Ceara
É clarão
Onde os meus incêndios
Onde o fermento em
que germino
Onde as palavras vivas
são pontes lianas e degraus ...
Ressoam claridades !
Quebram-se em mim geadas
é o grito da neve este que solto
Grito sem voz
Margarida Cimbolini

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

CAMÉLIA

Camélia
Flor tão formosa
Tão terna
Tu mais do que a rosa
Sabes a dor do espinho
Sabes como dói o não ter ninho
Tu nascida no carinho
Cresces também na terra arenosa
,,,,e doce segues teu caminho
Sempre linda e cheirosa,,,
,,,,camélia segues ansiosa
Mas sem fugir ao teu destino

NA CIDADE

Na cidade

Nas retinas enevoadas pelas luzes
o verde permanece,
mas sempre orvalhado !
Ah memórias invasoras
porque faiscam ?
E gesticulam e duram sobrepondo-se ao tempo..
Restos de outras luzes e de outras cidades gritam !
As melodias distantes
batem como sinos
no vazio de um presente surdo...
Nos regatos a solidão agudiza-se..em gelo..!
Silêncios povoados de giestas , gotejam..
Perfumes de roxas violetas
brilham loucas e dançam e caem !
Tombam como folhas murchas engelhadas pela sede...
fumegam como estrume..
Está hoje o céu tão alto !
e as palavras tão duras!
Está hoje tão longe o quente..
E tanto vento disfarçado de brisa...vagueia no asfalto..
A cidade queima incandescente de brilhos de sons e de luzes !
Que estranha me sinto minha cidade !
Estranheza e solidão no meio dos ócios destas ruas..onde os lagares sangram...
Venho de manso e largo as minhas cinzas !
Aflita olho como elas voam !
Afinal as cinzas ainda podem ter asas...
Margarida Cimbolini

AMIGO

Amigo
Amizades fundas que beijam e doem..
Mãos que abraçam mãos
Amizade feita de tempo...
tecida dia a dia durante mil anos
Vida crescida vida vívida no bem e no mal..
Amigo é leal !
Amigo é berço é ninho é postigo !
Onde se pode poisar !
Amigo é corpo feito de mar..
É alma que sente ! coisa presente..
Alguém que chora conosco e pressente...
..o nosso chorar !
Em tendo assim um amigo , guarda ! arrecada esse tesoiro escondido ..
Um amigo é singular..
É de oiro !

TOMBO

E assim tombo no Natal
quase com raiva !
Não quero este Natal Não é o meu !
E desolada vejo as montras
As luzes nas ruas
Os sorrisos hipócritas
As sombras esventradas e nuas
De uma ilusão !
feita de notas do dinheiro
que passa altaneiro de mão em mão !
Em criança o Natal era alegria tudo era novidade e luzia
porque eu era magia...
Agora não faz sentido...
E todos gritam é Natal !
Todo dia bombardeia a televisão ...
É um Natal pagão...
E as festas os jantares... os pares ?
Esses não vão !
É a esquizofrênica solidão !
Na doca os carvoeiros descarregam carvão
brasas incandescentes a queimar as mentes
e a gelar o coração
No fim tudo se junta num único presente...
O medo da rejeição !
Pois nem em parte alguma ou em algum lado nunca um ser humano deve ser rejeitado !
Mesmo no Natal pagão e rebuscado às vezes há um menino
em palhas deitado... pois é a ele que se festeja ! E só a ele ao menino rejeitado..
Margarida Cimbolini

HOMENAGEM AO POETA ARY DOS SANTOS

Homenagem ao poeta
o Portugal D,Ary....
uma foice e um arado 
um mar louco encastelado
um país morto castrado
um filho mais enteado
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verdes campos e canções
a palavra apaixonada
~~~~
uma arma de amargor
um povo nobre esmagado
numa batalha sem cor
~~~~~~
navios cheios de maldições
~~~~
um poeta redentor
~ ~~~~
quarenta anos anos passados
~~
meu poeta ...meu amor
~~~~
que dizer-te do país....
está mais nobre e mais ousado
faz jus aos antepassados
carrega pós e areias
~~~~
mas somos nós os soldados
nossas vidas as trincheiras
~~
um povo mais velho e cansado
os jovens já cá não estão
~~~~
......a saúde é pouca e má
..........o ouro há quem o tenha
.......mas para o povo não há!
~~~~
grassa praí a fome a droga e a loucura
.....mas~sim a vida perdura... !
religiões ...ideias tristes.............
~~~~~~
a luz de Lisboa.....resiste !
~~~~~~
no Tejo morrem os peixes....
não há pombos no Rossio.....
e poucos são os que ficam....
.......´á noite a olhar o rio...
~~~~
a Lua e o Sol baralhados ....
.....já se põem ou se escondem...
~~~~
e nos campos não há gado....
nem quem apanhe azeitona
~~~~~~~~
o tempo mal passou !
mas a poesia fica.. brilha ... basta e rica !
o teatro morre aos poucos......
de resto....pouco mudou...
mas a esperança essa grita.....!
~~~~~~
o mundo não acabou...
e a memória ainda sangra e a tua palavra fica !
Margarida Cimbolini

RECADO

RECADO
AUTO-PLÁGIO
Meu querido
toma um breve apontamento
e escreve na folha do vento
que estives-te comigo
e se a vida te trouxer saudade
beija o sorriso da tarde
como se eu te beijasse
Margarida Cimbolini
( um poema escrito em 2012 )

BUCÓLICA

Bucólica
Memórias que vivem em mim
transformam o presente num longo sono
Sono de sonhos tão reais que me amedrontam
Todas as dúvidas me assaltam
Por dentro um tremor de criança !
Nas mãos um resto de Esperança
Nos lábios um rictús de amargura...
Queria um Natal de menina ...
queria os loiros caracóis da infância
esses onde a memória perdura !
Que saudade dos riachos
que me habitavam...
das flores que me cheiravam
dos abraços, dos beijos que me davam.....
dos anjos rindo em mim
que á minha volta voavam
semeando uma imensa ternura
que achava não ter fim ..!
Volto ..hiberno ...cresço....
descanso nesta menina pequena
que guardo e preservo dentro de mim ...

Estou

ESTOU
Estou aqui
onde me deixou o tempo
trago nas mãos rouxinóis
e nos olhos trago sóis
são tão brilhantes,tão lindos
que me cegam
e não vejo
os escolhos do caminho
ouço estas músicas lindas
que me enchem os ouvidos
e o perfume dos lirios
inebria-me os sentidos
de amoras vesti os lábios
o corpo cobri de véus
a que chamei meus segredos
esperam por ti os véus
eles desejam os teus dedos
os seios enchi de mel
que vai correr-te nas mãos
enquanto guardo teu beijos
com jeito no coração
mas se demoras,vens tarde
vou dar-me a outro qualquer
será o mar com certeza
ou o luar....ou cometa
entrego-me há claridade
ou fico esperando por ti
numa rua da cidade.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

A VIAGEM

A viagem /prosa poética /

Cheguei hoje . A viajem foi curta no tempo mas deliciosa.
Corria na estrada com pressa de encontrar a casa tanta
era a vontade de chegar.
O coração batia descompassado na respiração,estava já muito pesado, cansado dos meandros da cidade .Pode ser muito dura a cidade para quem a sente tanto como eu...antes bebia nas suas fontes ,sonhava nos seus jardins ria nas suas ruas extasiava-me nas suas igrejas douradas pelas talhas...deixava-me perder nos bairros e nas estreitas vielas enlaçada nos chafarizes, amante daquelas pedras tão nuas como eu !
Mas a cidade mudou as gentes são outras..até os pombos voaram e já não se demoram nas belas estátuas patinadas pelo tempo.
Tinha a cabeça num turbilhão, as gentes confundem os cérebros cansados ,falam com dureza,,sugam a energia das almas ! sentia as suas paixões os seus ódios os seus medos e pecados como se fossem meus...soçobrava de novo em meandros que me traziam amargura e tristeza.
Então fui.. tinha de ir a casa chamava-me ouvia os cucos ao longe...muito ao longe !
Cheguei numa noite de neblina mas até o nevoeiro me acolheu com a doçura do algodão doce que em menina deliciava o meu paladar.
Abri a porta com cuidado ,a medo como quem pede licença para entrar e tombei no cheiro a pinhas e alecrim a casa transformava os odores que eu tinha deixado e rescindia para mim. Tinha o cheiro da cera amarela que tanto me custara a espalhar no soalho de tábuas corridas o cheiro da minha avó o cheiro da minha infância que sem saber eu tinha recriado para mim.
A casa agradecia cheirava a amor ! abraçava-me num abraço tão quente tão doce que quase me entontecia.
Acendi a lareira ,o fogo queimava a madeira recentemente cortada e crepitava alegre feliz de me ver de me ter ali já vencida ,abandonada àquela imensa ternura o fogo era coisa minha e eu coisa sua...tudo se tornava tão claro tão humano que na primeira noite fiquei ali adormeci de um sono à muito desejado estava muito cansada.
Acordei na manhã clara dos eucaliptos dos pardais chilreantes no meio das hortenses vibrantes de chuva num crescendo de paz num remanso de sossego onde não havia mais nada onde nada me obrigava a nenhuma coisa onde ninguém perguntava nada ,onde as barreiras se tinham diluído e a idade não tinha passado .
Eu era só a pequenita de caracóis louros e corpo franzino que se escondia nas escadas da adega na altura da partida com uma secreta esperança de ficar ali esquecida e aconchegada até ao próximo Verão ou ao próximo Natal, sem escola e sem gente,livre de obrigações de temores e de desejos .
Uma esperança enviesada porque sabia que teria de ir....
Agora já mulher na minha precária liberdade condicionada pela vida sabia bem pensar que podia ficar...e fiquei dois incandescentes dias...
Saltei na lama do quintal festejei as flores do jardim perdi-me nos maravilhosos livros que já li quinhentas vezes....fiz amor com os meus poetas na minha cama de linho frio e de letras de lava....fui eu !
Abracei a minha casa...cheirei todos os cheiros, bebi de todas as fontes, comi todas as filhoses, chupei todas as azedas enchi-me de todas as margaridas....
E foi assim que num fim de semana em meados de Novembro eu tive já o meu Natal...mais um Natal verdadeiro a somar a todos os Natais da minha vida !

Margarida Cimbolini

20-11-2018