terça-feira, 28 de agosto de 2018

NÃO SOU POETA BASTANTE

Não sou poeta bastante
para mim
não sei dizer tudo desta chuva que me queima
desta lava
desta voz que me chama
Não sou poeta que chegue
para esta cruz
para este mar
esta luz
esta forma de estar
onde amo sem amar
Caminho que não tem fim
Viagem que é caminho
Chaves que não reconheço
Muito alto é este preço
Não sou poeta bastante....
para colher tanta espiga!
morando eu na ceara....
direi que ela me castiga !
Caminha ...vai sempre em frente....
grita empurra e obriga.....
Não sou poeta bastante....
sou rosa não sei ser urtiga !
E assim caminho e lamento....
este caminho é tormento e é também alegria !
Possa eu ir na noite e inventarei o dia !

FUJO

fujo
fujo da morte
mas não lhe sei o nome
não a conheço
bebo-a todos os dias
logo ao acordar
depois esqueço
pôr o pé no soalho
magoá-lo no espelho
que espalho no chão
estilhaçando-o
é morrer
e morro...horas....e horas
até me apetecer viver
não gosto que me acordem de manhã
mas não quero dormir de dia
tenho medo de morrer
morrerei á noite.
por agora cavo o túmulo no vazio
todos os dias antes de querer viver
morrerei se não puder amar
não sobrevivo a mim
cansada olho a vida de longe
os meus amores magoam muito
são muito cruéis
então morrerei na noite e sózinha
tal como nasci
Margarida Cimbolini

FAGULHA CONTOS E HISTORIAS

Fagulha
/Contos e historias/
Fagulha soprada pelo vento agita- me os sentidos em fogo alto em labaredas
Subo até ao Sol refrescando nele o meu corpo a arder ! Depois destas noites e destes dias eivados de verde cheios do som alto dos pinheiros e de todos os madrigais que me sussurram os rios estendo as asas agito as penas em que se transformam os meus poros mas não consigo voar....
Debalde luto são muitas as raízes que me prendem há terra ..são muitas as paixões que tenho no corpo para que possa voar !
Sofro com isso ! sofro muito ...tanto como pode sofrer um mentiroso quando a verdade lhe salta em cima e o amarra com cordas feitas de sangue...que só a morte pode desatar !
Mergulho nos verdes onde sonho com frescura os orgasmos das palavras sufocam !
Os livros com as suas páginas cheias de pó engolem os meus olhos e revolvem esta mente cada vez mais forte que não consigo parar !Deserto este tão povoado de almas tão rico de esperança e tão seco de amor !
Margarida Cimbolini / Historias e Contos /
15 Agosto 2018

VI O TEMPO NOS TEUS OLHOS / CONTOS E HISTORIAS /

Vi o tempo nos teus olhos
/Contos e Historias /
Vi o tempo nos teus olhos amiga e tive medo .
Como ele passa ..como ele corre !
Vi o tempo nas tuas rugas...nas ruas do teu olhar..nas tuas mãos que adivinho mãos de gente ..arrepiei- me..também passou para mim o tempo ! Pensava- te ainda menina mulher altiva e leviana...fugia de ti ! Achava-me tão longe desse tempo ! agora que te vi...vi o meu embaciado espelho ...perdoa ! Também os teus olhos estão menos brilhantes mais sérios e o teu sorriso mais contido..
foi o tempo ! É o tempo ..é a vida...somos avós..e somos mulheres ! Escrevo para ti e tu nem o sabes nunca o saberás....Tenho ainda medo do denso espelho que tu representas !
Vou repousar nas tuas rugas no ricto amargo da tua boca onde tantos cigarros arderam ! Estou nos teus longos cabelos agora louros...antes eram pretos mas rebeldes...rebelam-se ainda ! Vejo neles o sonho !
Já não te temo nem às tuas marcas ..vou procurar-te ....no espelho vejo alma ...por favor dá- me essa dimensão....hoje ..agora gosto de ti ....
Margarida Cimbolini
(historias e contos )26 de Agosto 2018

A HORA / CONTOS E HISTORIAS /

A hora
/Contos e Historias /
A hora é severa lenta ..apaixonada. São horas de tudo ...os relógios marcam as choras em tic-tac ritmado e são horas...não as horas do chapeleiro de Alice.....agora são horas de tomar conta das horas....dos minutos, dos segundos, do tempo das asas que correm no vento.... das minhas asas......
Estas minhas asas que voam mudando constantemente de planeta como se a lado nenhum pertencessem !
Quero pertencer a algum lado a alguém....estou farta de caminhar só e no entanto sei que não pode ser de outra maneira...
O tempo pede-me meças ...são horas ..é tempo !
Por todo o lado me chama o maldito do tempo.....são as paredes da casa que estão velhas e é preciso reparar e as rugas ao canto dos meus olhos .....
As horas passam e não esquecem nada nem ninguém ...e este meu cão ..eu digo que é o ultimo ! não sei.... este meu cão que talvez o ultimo acusa cada hora cada minuto cada segundo entra-me no pensamento rói-me a memória é feito de tempo e tem pouco tempo ...já ouve mal...caminha devagar ladra menos e eu observo-o mais muito mais...
Talvez eu observe tudo muito mais....as árvores ..estas árvores ! sim elas tem mais tempo ...são gigantes no tempo..mas não saõ eternas..
Começam agora a tombar as folhas verdes que breve serão amarelas depois douradas e por fim pó...
O tempo chama por mim são horas !
Sofro por meu bem ou por meu mal as consequências do tempo....são horas..
Margarida Cimbolini
28 Agosto 2018 /contos e historias /

domingo, 26 de agosto de 2018

FUI

Fui
e não levei rosas
fui no sulco dos eucaliptos
fui apesar do nevoeiro
e não levei rosas
nem preces
fui hoje no meio do verão
saltei nas abóboras meninas
e não levei o mar
mas levei um amor tão grande !
apesar de ti...levei tudo o que tinha
apesar de nós.............
* intermitentes abelhas mestras*
fui na maciez da noite.... chamei o luar
ele enviou-me gotas de orvalho e madre silvas
não levei rosas ....mas tremia na orvalhada
cheguei agora.....
*carregada de Marias venho a cantá-las por dentro.....
e trouxe um amor tão grande !
apesar de nós.............
*há-de chegar para os dois*
e levarei as rosas....
...............assim o sol queira levar-me.......
Margarida Cimbolini

VERDADE

VERDADE
a verdade na alma se esconde
de saia curta e peúgas
a pele nua se reconforta
em sedenta procura 
do que não pode ter
os sonhos se transformam
em anjos
monólogos da verdade
e acabam em água
verdade da mulher
que não pode ser fogo

ALEGRIA

Alegria
Canto...
esta brisa de lua cheia !
Canto em silêncio 
esta noite onde ondulo
vestida de arrepios
onde a pele transpira seiva
Coração transbordando de Paz
encho cântaros de camélias
e riu...canto !
Tonta com o odor dos lilases....
com os brilhos dos pirilampos...
canto...canto..
neste mergulho de vida de verdes de harmonia...
simplesmente canto..
Vivo e louvo a vida..
.. o doce deste meu canto é enorme alegria....
Margarida Cimbolini

cAL

cAL

de cal pedra e sangue
é o poema
as suas arestas ferem
os seus rugosos bordos
magoam os lábios
entumecem a língua
Como pénis em púbere vagina
penetra a minha rima !
Quero espada de poesia
no útero imberbe e virgem
me retiro da mente..
Escondo o poema latente...
aquele que lateja e arde
que fura a terra como semente...
Que fala de ser.. da alma.....
aquele que geme e sente.....
De cal pedra sangue é o poema....
é ele o húmus da gente.....
Aquele que cala e consente a mentira
cujo suor me tomba aos pés
Que finge ser dor e é alegria....
Quero esta fina dor....quero ser poesia !

Margarida Cimbolini