terça-feira, 20 de novembro de 2018

A VIAGEM

A viagem /prosa poética /

Cheguei hoje . A viajem foi curta no tempo mas deliciosa.
Corria na estrada com pressa de encontrar a casa tanta
era a vontade de chegar.
O coração batia descompassado na respiração,estava já muito pesado, cansado dos meandros da cidade .Pode ser muito dura a cidade para quem a sente tanto como eu...antes bebia nas suas fontes ,sonhava nos seus jardins ria nas suas ruas extasiava-me nas suas igrejas douradas pelas talhas...deixava-me perder nos bairros e nas estreitas vielas enlaçada nos chafarizes, amante daquelas pedras tão nuas como eu !
Mas a cidade mudou as gentes são outras..até os pombos voaram e já não se demoram nas belas estátuas patinadas pelo tempo.
Tinha a cabeça num turbilhão, as gentes confundem os cérebros cansados ,falam com dureza,,sugam a energia das almas ! sentia as suas paixões os seus ódios os seus medos e pecados como se fossem meus...soçobrava de novo em meandros que me traziam amargura e tristeza.
Então fui.. tinha de ir a casa chamava-me ouvia os cucos ao longe...muito ao longe !
Cheguei numa noite de neblina mas até o nevoeiro me acolheu com a doçura do algodão doce que em menina deliciava o meu paladar.
Abri a porta com cuidado ,a medo como quem pede licença para entrar e tombei no cheiro a pinhas e alecrim a casa transformava os odores que eu tinha deixado e rescindia para mim. Tinha o cheiro da cera amarela que tanto me custara a espalhar no soalho de tábuas corridas o cheiro da minha avó o cheiro da minha infância que sem saber eu tinha recriado para mim.
A casa agradecia cheirava a amor ! abraçava-me num abraço tão quente tão doce que quase me entontecia.
Acendi a lareira ,o fogo queimava a madeira recentemente cortada e crepitava alegre feliz de me ver de me ter ali já vencida ,abandonada àquela imensa ternura o fogo era coisa minha e eu coisa sua...tudo se tornava tão claro tão humano que na primeira noite fiquei ali adormeci de um sono à muito desejado estava muito cansada.
Acordei na manhã clara dos eucaliptos dos pardais chilreantes no meio das hortenses vibrantes de chuva num crescendo de paz num remanso de sossego onde não havia mais nada onde nada me obrigava a nenhuma coisa onde ninguém perguntava nada ,onde as barreiras se tinham diluído e a idade não tinha passado .
Eu era só a pequenita de caracóis louros e corpo franzino que se escondia nas escadas da adega na altura da partida com uma secreta esperança de ficar ali esquecida e aconchegada até ao próximo Verão ou ao próximo Natal, sem escola e sem gente,livre de obrigações de temores e de desejos .
Uma esperança enviesada porque sabia que teria de ir....
Agora já mulher na minha precária liberdade condicionada pela vida sabia bem pensar que podia ficar...e fiquei dois incandescentes dias...
Saltei na lama do quintal festejei as flores do jardim perdi-me nos maravilhosos livros que já li quinhentas vezes....fiz amor com os meus poetas na minha cama de linho frio e de letras de lava....fui eu !
Abracei a minha casa...cheirei todos os cheiros, bebi de todas as fontes, comi todas as filhoses, chupei todas as azedas enchi-me de todas as margaridas....
E foi assim que num fim de semana em meados de Novembro eu tive já o meu Natal...mais um Natal verdadeiro a somar a todos os Natais da minha vida !

Margarida Cimbolini

20-11-2018