sábado, 30 de julho de 2016

RETRATO DE FAMILIA

retrato de família
pestanas rotas de pasmo
as mãos apertadinhas
punham laços aos rapazes
e fitas ás meninas
vinha a avó com fato negro
a mãe pintava os beiços
o pai vestia o fato
ia o tio meio cabisbaixo
e a tia se pertencia
e assim se fazia o retrato
o retrato de família
atrás ficavam os homens
há frente as senhoras sentadas
uns sorriam outros não
quantas películas queimadas
e tantas obrigações.....
e no peito das crianças...
... batiam os corações
que caixa negra era aquela
pensava a rapariguinha
que retinha a sua imagem
uma imagem que não tinha
de bigodes retorcidos
ficava o parente antigo
mais tarde,,,quando guardado
de todos o mais dotado
era o irmão que traçava .....
.....estas barbas no retrato.......
....são as recordações .........
..inocentes tradições..................
farrapos sobre farrapos......
pestanas rotas de tédio.......
e estava feito o retrato......
....não havia outro remédio...
Margarida Cimbolini
Jose Romussi (arte )
(leitura de imagem)

quinta-feira, 28 de julho de 2016

DOBRAS DO TEMPO

dobra do tempo
é meu corpo labareda
filha de um vento norte
e meus olhos fogos fátuos
enxergam prá além da vida
procuram prá, além da morte
por minhas mãos ergo ermida
feita de água e de fogo
do céu me caem fagulhas
fagulhas que eu pedi.....
Mulher sem fé
faz pedidos
chamando ......
....por outros mundos
e queda-se desalentada..
vem os mundos..e os fundos
e queda-se arrepiada...
a muitos faço falar ....
palavras são meu sustento
mas se tiver de parar
só ouvirei mesmo o tempo
ainda há menos de nada....
.......passou aqui uma moura...
ia a moura carregada............
levava conselhos e chistes
tombou e ficou sem nada.....
e não lhe invejei a sorte..
rezarei na minha ermida
há sombra do vento norte
e se me fugir a vida
não pode fugir-me a morte
Margarida Cimbolini

segunda-feira, 25 de julho de 2016

HORAS

horas
quantas horas tem o mar
quantos minutos o mundo
meu amor se me queres dar
dá-te a mim até ao fundo
quantas pétalas tem a flor
mais os amores que já tive
se te recordo na dor
o teu amor já não vive

EXO

exo
o sexo
em triângulo
apareceu
sem nexo
volátil
belo
táctil
no bar
tremeu
na coxa
morena e ágil
redonda e frágil
na nuca febril
inábil singular
plural no amar
o amor
saíra no véu
conspurcada
em género
nos anjos
inanimada
voz de arcanjos
gritai aos céus
eixo saltado a dois
ou um a um depois
a vaca loura morreu
e o verso pereceu

Assim morrem as rosas

assim morrem as rosas
ente ser e viver se passa a vida
mudando a cada minuto
numa incessante corrida
inglória é a passagem
inglória será conhece-la
em ramos altos e árvores frondosas
onde o rumor do vento é alto
e solto o voo das aves
aqui me sento e medito
acima de mim acima do que sinto
o vento faz a vida correr por entre o tempo
até a água no ribeiro parece querer falar-me
mas nada me faz sentido...até a alma
nada me premeia .....nada acontece
a natureza calada também fenece
tudo tem a sua altura dada
nem da erva o destino se esquece
assim morrem as rosas
os prazeres acabam...cessam as dores
o que sentimos não é o sentido
junto-me eu a essas flores formosas
das quais nem o perfume subsiste
eu de mim me afasto e levo os meus amores
quero gastar estas concedidas horas
fluindo na vida que não sei ...mas existe
tendo de mim apenas conhecimento
nada podendo contra o que de mim fizeram
que seja leve o meu fardo e o meu olhar menos triste

O LUTO DOS PINHEIROS

No verde


Entro no verde com força
apalpo-o...sinto-o ouço o seu eco
quente...
... com odor a terra
As copas tocam-se por vezes
já as raízes não....
vigorosas ou débeis ..afundam-se
procuram o húmus
expandem se paralelas
Entumecidas como sexos
salientes ...grossas....belíssimas...
algumas de enormes árvores centenárias
A seiva corre coleante ,viva......engrossa...
torna-se resina...cola-se ao tronco....
São terrível e assustadoramente vida....
Quase espero que se movam...
Quase espero que me falem........
eu falo com elas....ouço o rumorejar das folhas....
Os meus tordos são pesados e muitos....
Alma no meio das almas ...vida no meio de vidas..
solitária como todas as almas......solitária como todas as vidas
...soçobro...choro...as lágrimas tombam em cascata..
soluço ...urro...tudo em mim grita........
São pesados os meus tordos........mas há o amor...
não se vê...não se mexe...é silêncio .........
..exige atenção....é ele que nos une é a resina que nos cola
.....e no amor cabem as almas ....a vida e a morte.......
e mais uma vez faço o meu luto ,,só,......
,,,,,,ausências .........
presenças que carrego....... que amo..............

Também as árvores se vestem de luto.....



Margarida Cimbolini

quarta-feira, 20 de julho de 2016

SEARAS DE ESPINHOS

SEARAS DE ESPINHOS
Ardem no meu peito os gestos
reciclam o amor
chamo mentirosa há rosa
perfumada airosa
esconde os espinhos
mostra-se formosa
suam meus poros em regatos
veias sem cor
mente a mulher na ilha
guarda o fuso e a roca
amores e derrotas fia
mas seus brancos linhos retira
mente esta alma em desejos
não tem este corpo pejos
e a mente sinuosa
passeia rodando rodeios
em malícia
mente de mulher
quer tuas mãos em meus seios
conversa com Eros em enleios
desenha imagens pr,a mim
beijos de lábios reais
doidos sonhos sensuais
em que só e quieta
dou mil braços ao asceta
e meus dedo gelados
trituram moem teus dedos calados
e acabo nos teus braços
mentirosa me esvaio em abraços
e clono meu amor nos espaços
e ouço palavras de amor
abro-me ao teu calor
é só volúpia e desejo
te dou novelos que guardei
tesouros de quem amei
e tua boca gulosa
morde estes mamilos de aço
recolhe flores do cacto
e são gemidos de gozo
em ti me inundo e morro
e me dou sempre mentindo
escondo o espinho mostro a rosa
corro depois ansiosa
a beber a poesia
a embriagar de magia
esta alma sequiosa
que quer . mais amor e mais alto.
deste Universo descalço
onde tu és um socalco
apenas . um lago em que salto.
e volto ao mundo escondido
que dentro trago comigo
que não tem mãos nem umbigo
.não minto sorvendo a vida.
minto sou mentirosa
rodando esta minha roda
que partilho só comigo
Dou-te farinha e farelo guardo pr,a mim o trigo

ESPREITO

espreito
espreito a noite entreaberta
já que o Sol que eu canto
acaba sempre em noite
também a noite eu não canto
mas pudesse eu suspender o tempo
e seria o meu canto lento
pois cantaria o momento
passa o dia correndo atrás do meu ócio
ou fica o meu ócio esperando o tempo
mal a brisa ecoa e a escuto
escuto e está passada
será que foi porque escutei
que tão breve passou
não sei
na minha teia a aranha fica
a mosca morre ...foge a traça aflita
tudo tão breve ....tudo tão leve
nunca o prazer dura em nada
e já é madrugada
manhã dos outros que correm há porfia
correndo atrás do dia...
e eu sonharei ainda na raiz do pensamento
pois chego a pensar que não penso
e rodo neste eterno tormento
flutuo nas águas paradas
nenúfares vestidos de nadas
as algas são meus cabelos ...folhas mortas
e sonho no sono do vento
sempre a espreitar as madrugadas......
e o tempo passa e passa tão rápido e tão lento....

segunda-feira, 18 de julho de 2016

ORVALHADAS

orvalhadas
orvalhadas estão as folhas .....
...das minhas melancolias
ainda agora na igreja
... bateu o sino meio-dia
e já meus olhos coalhados
..........choram Avé-Marias
quem me dera ao pé do mar....
quem me dera na maresia...
da terra sai o meu pão....
....do mar a minha alegria
entre os verdes voo e danço
....minha dança da andorinha
mas na minh,alma a gaivota
.................grita pelo mar alto
das ondas quero a frescura
sua espuma meu vestido ...
.....renda tecida no mar
bendita por Neptuno ...
também ele diz que lhe falto
pois me namora em segredo
manda recados pl,o rio ..
.......que o rio me canta a medo
tenho saudades de amar
.............aquela imensidão
da caricia terna e doce
......do mar no meu coração
orvalhadas vou cantar
.....na porta lá da capela
talvez a bruma me leve
.....a voar nas asas dela
talvez haja nevoeiro....
... talvez acorde o vento
talvez mergulhe num sonho
e só acorde na praia
orvalhadas estão as folhas das minhas melancolias
Talvez seja o mar o destino de todas nós as Marias........

quinta-feira, 14 de julho de 2016

OXALÁ

oxalá
oxalá amanhã seja dia
e o mar cheire a maresia
e o dia seja claro
e que nasça o Sol solto e quente
e na tarde ,,tardezinha,,,,oxalá as flores ecoem
e nos corações haja arroubos de alegria
e na terra cresça a espiga
e quando soar o meio dia.....
....... oxalá haja pão na mesa
e nas almas brancas .....luz e certeza......
.....oxalá dos olhos das crianças jorre pureza
e eu possa recebe-la .................
......bebendo assim água pura....
.............aquela que a pedra fura.................
oxalá verdes sejam os tons que vejo da minha janela
e que eles me abracem como hoje...
oxalá me encha de Paz e possa sorrir ,,Aleluia,,,,
oxalá eu veja palhetas de ouro lá onde só a restolho...
e longa e farta seja a minha fantasia...
e esteja ao meu lado quem me guia......
e oxalá venha depois a noitinha e o luar me alumie
e que venha uma avezinha poisar no meu ombro a rir
oxalá seja a dor pena suave e da vida se faça alarde...
oxalá brilhem estrelas no céu...e espuma das ondas na areia..
oxalá amanhã seja dia....
.......e o mar cheire a maresia.......
oxalá.....oxalá......

SÓS

sós
um a um vi-os tombar ...a eles
aos tordos do meu beiral
vinham sempre doentes
resto de poetas
resto de ascetas
vinham de longas barbas
carregados de Pessoa....
emboscados de Natália...
traziam Ary nos bolsos
Florbela em flagelos
Mario Quintana nos sonhos
corria-lhes Bouto nas veias
e Betonvenh nas orelhas
não vinham sós
traziam as noites de Lisboa.
estampadas nas olheiras
e livros montes de livros instalados há cabeceira
morreram todos e todas
deixaram pilhas de escritos... de quadros....
e de guitarras... tenho o prelúdio de tudo
de vidas e cabeçadas
tenho papeis rabiscados.. desenho inacabados
gritos mal desenhados....
muitos iguais aos meus. !. fotos do botequim...
e a solidão moral grita por todo lado
nesta casa que eu herdei com 2 séculos já passados
não a casa onde nasci ...mas esta casa alada
mesmo muito afastada aqui eu sempre vivi
aqui aprendi a amar...um amor sem condições...
e foi aqui que li as primeiras edições..
dos livros que já vendi para pagar aos papões
as pratas também já se foram...o ouro foi o primeiro
ficou a solidão toda pra mim...por inteiro
não quero a aguardente e nem o vinho da terra
quero alguém que me trave nesta louca e grande guerra
deles herdei poesia amor e talento rodos
deles herdei esta agonia de ser mais um dos tordos
e herdei este rio de amor que me trespassa em fogo
e este nojo visceral pela hipocrisia ....
pela mentira..... pelo falso arrojo...
.....pela beleza crispada pelo plágio...e pelo roubo..
noites há como a de hoje em que o peso é muito grande
e caio na melancolia como um destes meus tordos...alado e viajante...

IR

ir
aqui o céu tem mais estrelas
o céu é mais escuro
arde o calor no horizonte
as estrelas são olhos de crianças
que tecem escadas de luar
onde me penduro e baloiço
tenho medo de subir
então meto uma estrela no bolso
e levo-a pra dormir
sei que em sonho ela vai levar-me
a esse lugar no céu onde desejo ir

GESTO

gesto
quando demora o gesto
esmorece o beijo
baixa o céu
ou sobe o tecto
secam os lábios
cansa-se o desejo
cai nevoeiro
ardem os olhos
esquece -se o sexo
o tempo corre
o chão escorrega
o pássaro voa
pra,parte incerta
quando demora o gesto
esconde-se a menina
e o gesto morre
paralelas são as mãos na neblina

LEIO

leio
leio-te em mim
doce redonda e nua
leio-te nos escombros da doçura
vens naquela folha castanha que me bate há janela
poisas nos meus ombros mordes-me a orelha
estás na seda do meu corpo...
na minha pele há casulos de ti
nos meus olhos o espelho do teu olhar
vês a minha pele a secar no estendal ..
é com ela que te chamo
bandeira a voar tem a cor do vento
tem o brilho da prata
e em cada poro um instante um momento
um gemido de amor
um hálito de flor beijando o teu corpo
descendo no teu ventre
e voando na tua boca ....uma semente....
não ouves como respiro ofegante
como me sufoco na tua mão quente
chamo-te amor vem se me ouves ..se me sentes
abro-me para ti ......espero-te....
sou eu a roçar a tua pele morena..
vem amor....ouço já os teus passos......
estou agora de alma lavada entre as folhas verdes
...........a tua espera....quente ..doce ...serena....

ADEUS BRISA

ADEUS BRISA 
Adeus brisa
Adeus brisa
já que te vestes de aurora
Adeus brisa
por ti minha ,alma chora
Adeus deserto infinito
onde te apanhei
Quero de ti o que me dás
esse voar finito
essa rota sem caminho
esse piar sem ninho
esse lar do destino
Adeus brisa podes levar as pegadas
nas dobras do tempo
desbravarei as estradas
Leva-me os anéis
todos os anéis ..feitos de euforia
e os traços de magia
e as noites de lua cheia
e os mitos
e a velha candeia
Voa por mim
guarda-me o cheiro do jasmim
e a sombra da palmeira
e as uvas que pendem..
....em cachos da videira...
Guarda a minha sede ...
de ser gente e ser inteira....
Guarda -me o azul ....adeus brisa.....
....adeus ...vai ..corre ligeira....
e acima de mim guarda o amor...
.......e a luz que me ilumina sem pensamento e sem ideia...
Margarida Cimbolini

água benta

Água benta
De água benta é feito este meu lago
pois que nele não habita a escuridão
nele habito e ele habita em mim
Por entre as correntes revoltas
... corre um rio de imensa Paz.....
depois de lá ter estado não posso negá-lo
e depois de marcada com o sinete da verdade
estarei sempre salva
Revejo momentos de muita doçura
conheço o amor que corre naquelas paredes
e sei quão foi abençoada foi a minha casa
pelos pastores que dela fizeram o seu redil
e onde tantas ovelhas pernoitaram
e onde tantas almas se purgaram despojando-se...
Aí onde o ouro se tornou leite e mel
não posso perder-me se for menos ambiciosa
Ainda em Lua Nova olharei as estrelas daquele céu
e fruto do meu livre arbítrio renascerei
. a espada do destino assim me dita este caminho.
Poderei enfim dormir com a lua
e .....no Sol dourar esta pele de luz fazendo justiça á vida.....
Assim possam os nenúfares boiar ao cimo da água....
e a sagrada seiva das plantas tonificar os meus olhos
há-de ser apenas mais uma viagem de onde voltarei mais forte..
E a poesia nas veias vai ajudar-me a correr pelos bosques
de verdes versos onde a cantarei...
Que o porquê de tanta hesitação se torne claro.....
pois que a idade me tornou temerosa .........
.......e o equilíbrio turvado precisa ser restabelecido.....
De água benta é feito o meu lago....
.......pois que nele não habita a escuridão........

terça-feira, 5 de julho de 2016

EMBRIAGO-ME

embriago-me
embriago-me da dor desnuda
desta misera misantropia
onde me afundo cada dia mais
sonho com santos de roque
e alquimias vasculares
nos vácuo dos seus corpos abertos
atravesso com a mão paredes inexistentes
e trago molhos de dor e lágrimas muito antigas
cristalizadas já ,,,teimo em ressuscita-las
para melhor poder chorar
e com mais razão gozar a dor exacerbada
de me sentir de novo mãe .......
..mãe de seres que dentro de mim congelei
....tudo o que morre ressuscita .....
e é nestas metamorfoses que vivo
e me movo em casulos desesperados
imagino todos os litígios e querelas
que estavam podres e enterrados
e transformo-os em ferros em brasa
com que me torturo
teço presságios absurdos ,ideias ignobeis
em ritos quase satânicos me martirizo
temo não viver uma vida que já não quero
tombo em incoerentes duvidas existenciais
e sofro por pecados em que não acredito
a quem pergunta porque sofro respondo assim
mais do que isto só poderei dizer
quando a poesia me tocar de novo.....e que da lagarta suja
e disforme surja a borboleta colorida..

sexta-feira, 1 de julho de 2016

gota

gota
gosto daquele rabisco além
lá muito ao longe
fino como uma folha de papel
linha onde passo apenas o olhar
é o infinito ,,,,,
.... a linha do horizonte............
escolhida entre mil linhas...
infinitamente sábia e longínqua
chama-me... grita por mim.....
nunca a esqueço ......
é leve como uma pluma
..........salgada como o mundo..
salgada como o mar onde tudo começa
onde tudo acaba........
fina como a sombra dos meus lábios
onde não bailam os sorrisos
fina como as minhas veias...
onde em cada uma corre a vida......
fina como o anseio d'alma que me habita
como o desejo de ser que me acutila o peito
como a bainha da espada que me corta os sonhos
tão fina que ninguém lhe chegará nunca...
lá onde o nevoeiro se dissipa ......
.....talvez eu venha a ser gota e me torne neblina.......