segunda-feira, 28 de agosto de 2017

FUI



Fui
e não levei rosas
fui no sulco dos eucaliptos
fui apesar do nevoeiro
e não levei rosas
nem preces
fui hoje no meio do verão
saltei nas abóboras meninas
e não levei o mar
mas levei um amor tão grande !
apesar de ti...levei tudo o que tinha
apesar de nós.............
* intermitentes abelhas mestras*
fui na maciez da noite.... chamei o luar
ele enviou-me gotas de orvalho e madre silvas
não levei rosas ....mas tremia na orvalhada
cheguei agora.....
*carregada de Marias venho a cantá-las por dentro.....
e trouxe um amor tão grande !
apesar de nós.............
*há-de chegar para os dois*
e levarei as rosas....
...............assim o sol queira levar-me.......

A MATRIZ

a justiça
sendo eu a matriz
tem o pensamento mágico
onde eu sou criança
a injustiça profunda era a morte
a minha primeira morte
foi um antepassado um ícone
fez-me muito medo
foi aqui nesta casa onde escrevo
muitas das minhas mortes foram aqui
a primeira era eu muito criança
o corpo deitado na capela
e muitas lágrimas
lembro-me de ter perguntado
para onde vai o avó ?
a resposta satisfez-me
mas todas as noites esperava vê-lo ...
neste corredor tão grande ....naquele tempo
hoje sempre que acendo a luz do corredor
lembro-me dísso
vi o corpo vivo e depois morto
na minha pele guardei para sempre a vida
isso é justiça...porque é verdade...
a injustiça continua a ser morte
mas mais do que a morte
é injusta a vida
para quem não tem infância ..nem vida
vida sem erotismo.... sem passado....sem saber nada !
a maior injustiça é a ignorância....
as crianças precisam do passado........
daquele passado onde a língua come...lambe e pensa...

AMOR

o que mais gosto em ti
são as tuas mãos
e em cada uma o que mais gosto
são os dedos
e gosto dos dedos um por um
nos dedos o que mais gosto
é o gesto
e no gesto eu amo a tua carícia

O CAIS

O cais
gente
gente que chega
gente que sai
olhos cor de viagem
presos na pressa do cais
as mãos caídas
os braços moles
ou seguras ou erguidas
ou estendidas lá no cais
pedem pão
pedem perdão
mulheres sem par .
....cor de ferrugem
homens demais
encostados fumam
.... ou abraçados ..
....cor de nuvem
crianças aflitas
sobresaltadas
meninas com fitas
rapazes de boné
pela mão dos pais
... uma mão zangada
porque é quarta -feira
...cedo de manhã.....
acabou a noitada....
e a mãe está atrasada
o barco apita
um homem grita
sobe a parada
faz-se o barco ao rio
que de mar não tem nada
bufa o navio
... no quartel é alvorada
voam gaivotas no nevoeiro
no cais a vida crepita..
e o gaiato dos jornais anuncia
....num berreiro...
,,quarenta graus no mundo inteiro,,
o peixe remexe ainda vivo nas bacias
é assim cada dia,,todos os dias...
........lá no cais....
Margarida Cimbolini

GUARDO

Guardo
as minhas rugas
corro as minhas cicatrizes
,,,,,,,filhas do tempo
...............moram comigo
conheço uma por uma
neste doce e amargo crepúsculo
afago com minhas mãos
moldo em barro fresco
os meus lábios de rapariga
solto os meus olhos de criança
abraço aquele traço mais vincado
onde condensei o teu olhar
aquele franzir de sobrancelhas
onde estão meus pensamentos
corro dentrode mim ......
.....como quando em cílios de seda
,,,,batia revoadas de cores
esvoaçando nas madrugadas
noite fora cabelos soltos no vento
coração inteiro e tua canção solfejada
nos poros da minha face ...
gotejando amor....Conheço os rios do meu corpo
a curva da minha perna ao ritmo de mistérios
danço com o tempo.....
filha do mar e da chuva
guardo todas as minhas rugas
anseio todos os anseios
tenho amantes e amores tatuados nos meus seios
e brilhos de cores nunca pintadas coloram ainda as minhas faces
intactos os sonhos no sorriso leve e contido......
..........sou mais do que ontem e sempre.... Mulher...
Margarida Cimbolini.

COMO TE AMO

Como te amo!
vivi no sopro da tua alma
e de ti nasci .......
**em comunhão perfeita*
em amor............
conheci-te quando....
... tombaste dos meus olhos
e foste tu o primeiro sabor
Mar como te amo !
como me dás eternidade
neste meu eterno amor...
como te sinto... em mim saudade..
desenho tuas ondas pequeninas
num papel com tinta da china
e salto sobre elas falando contigo
dizendo-te desta vida minha......
quero-te tanto .......
....que embacias os meus olhos
e tremem em mim tuas espumas
sem ti me morro e desanimo
lembrarás tu as nossas brumas ..?...
tu em mim eu em ti.....singular...
de risos de cantigas........
.... de trovas e dores antigas...
eu e tu somos vidas e vidas.....
e se hei-de ser morte seja..
...... nas tuas ondas amigas......
Vem mas tu ...só tu ...
......não o mar das gentes.....
não o mar ..água pé de clementes
Mar de Portugal e de Maria chorei por ti
.....hoje todo o dia......

FUJO

fujo
fujo da morte
mas não lhe sei o nome
não a conheço
bebo-a todos os dias
logo ao acordar
depois esqueço
pôr o pé no soalho
magoá-lo no espelho
que espalho no chão
estilhaçando-o
é morrer
e morro...horas....e horas
até me apetecer viver
não gosto que me acordem de manhã
mas não quero dormir de dia
tenho medo de morrer
morrerei á noite.
por agora cavo o túmulo no vazio
todos os dias antes de querer viver
morrerei se não puder amar
não sobrevivo a mim
cansada olho a vida de longe
os meus amores magoam muito
são muito cruéis
então morrerei na noite e sózinha
tal como nasci
Margarida Cimbolini

ACORDO TEMPORARIO

Acordo temporário
olho um rosto no espelho
olhos fundos e agudos
lábios finos paralelos
algumas rugas verticais
um ar trocista mas sério
um rosto de deserto
aliso os cabelos dispersos
com mão não alisada
e noto uma sombra hasteada
os ossos cobertos demais
um rosto largo fechado
procuro na esfera armilar
o eixo do rosto cavo
um rosto igual aos outros
que me fita meio espantado
é este o meu rosto
um rosto que quero e não quero
um rosto que não conheço
é este o rosto que tenho
demoro no rosto de mim
e ajuízo o cansaço
deste rosto que é o meu
este rosto branco e bravo
que terei até ao fim
neste acordo demorado
e num gesto que disfarço
levanto a mão com carinho
e faço-lhe um afago

SIM

Sim
é na noite que te deito
a meu lado
é nela que te faço meu 
e te empresto asas
e dou-te a mão para que
me sintas
é na noite que és meu
quando o meu amor
te ordena caricias
e floresces da cor com que
te dispo
na cama que te faço ornada de violetas
aí posso amar-te
e deixo-te ser tu tanto.. que te prendo
...como se me quisesses
e te imagino
como se pudesses possuir-me
è na noite que posso dar-te tudo...
..tudo o que tu queres.
e sei receber-te como se te me desses
é na noite que posso amar-te
como se me amasses
mas nessa noite tu nunca estás ao meu lado
porque dormes
devias dormir ao entardecer

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A PELE DO SOM

a pele do som
luzes de neon
as montras da vida
caminham em sobressalto
tombam e tombam e crescem
monstros de cabeças disformes
derrotados á nascença pelos homens
violados nas suas ausências
são o que foram e mais o que somos
e mais o que teriam sido
se não fossem.....amor derreado...decepado
urze que não surgiu...
na montanha de néon.....o cabaret....
onde a urze morreu
amantes decepados pelo tempo
e o som
o som enorme....na voz....
tremura que nasce dentro e me percorre
em arrepios onde cresce o amor...
sempre o amor ......matraca desenfreada..
e a pele a pele do som extinta ...
começada ....inacabada por não ter fim
......por ser eterna....com que desenfreada fúria a amo..
Margarida Cimbolini (Leonard Cohen,s Elegi for Janis Joplin )

NOUTRO TEMPO

N"outro tempo abracei a montanha com as duas mãos unindo.as
ouvi a sua voz
segredava.me fantásticas historias de amor
escutei avidamente
como podia uma montanha amar assim
um amor feito de rios
e de serpentes
um amor vasto como o cume de mim
via á minha dimensão
na montanha
também eu era vasta
nesse tempo o tempo era enorme
ouvi a montanha
como se ecoasse
dentro de mim
sentia prazer
como por ela possuída..
e a paixão tornava.me vegetal e era o meu sangue a sua seiva
ambas respiravamos
mas muito rápido
escutei a respiração de toda a vida ali contida
era um forte hausto de amor
eu desaparecia
era um caule

ESCUTO

escuto
sim..... ainda te escuto
escuto como quem reza
escrevo como quem conta....
tenho os olhos nas estrelas
e o coração nas mãos
hoje o céu estava pesado
escuro denso e quente
havia fogo aqui mesmo ao lado
tocavam sirenes........
eu ....era um eu .....pequenino
tão terna ....tão doce ....tão eu
.........como aquela ....
que esteve a primeira vez
.....aninhada no teu peito.....
eu...meu amor ...eu já não sou eu !
eu salto cercas a pés juntos...
dou passadas de gigante.........
ouço mentiras ...meias verdades...
tomo banho nua em enseadas....
erro depois sozinha pelas praias....
vestida de algas chamam-me maré
e bebo a espuma do mar
e nado á volta das ilhas assustada
e mergulho em mares gigantes
....onde nunca terei pé......
eu chamo por ti mas já não sei o teu nome
e enrolo-me nas ondas ...........
..........com os meus cabelos vestidos de mim
com olhos abertos de espanto...........
.........como claridade e vomito trevas e mentiras...
e jogo jogos de loucos mas não da nossa loucura !
uma loucura mole pegajosa e escura.......
e é nesta dor que me alegro...........
nesta dor que sou ainda lua......
vem meu amor...na asa da cotovia........
eu não sei como viver....nem sei o que ser
nem sou mais minha e nem tua.....eu meu amor
sou da erva e do rio e do mar e das gentes...
eu sou um arrepio ..... uma praga....
.........na boca libidinosa de olhos maus.......
sou uma prece na boca de falsos crentes......
....vem e prende-me a ti ......mas com fortes e curtas
correntes...........
Margarida Cimbolini

A POESIA E O POEMA

a poesia
O poema
cor....pão... lábios de dor...
.........acusa o som.........
traça......com o som....o traço..
o som
a musica que a poesia toca
toca dramática e frenética
viva .....
Pénis que penetra.....
....no corpo e o arqueia .....
o som nasce poema....
.....nenhuma.......... nenhuma....mulher é feia
Poesia é fêmea... vagina quieta......
........á espera do som do oboé...
Na garganta ...na traqueia jorra o liquido...
.....som....orgasmo de poema...
inunda a voz.......
a morte....o amor.....o tema.....
distancia pequena............
a raiva da arte no regato......
Ecossistema ....retrato som.... substrato .....
Distancia pequena ....eras vidas e mundos...
de sons..... de poemas ... de homens e de ratos.....

AS ARVORES

As árvores
as árvores
misturam-se no pinhal
como corpos esquecidos de si
tocam-se as copas
entrelaçam-se os ramos altos
e sentem-se os seus verdes olhos
poisados em nós
como farpas duras mas ternas
enquanto nos murmuram
feitiços antigos
enquanto trocamos velhas caricias
saltitam as memórias
o pinhal gritou no silencio profundo
e falei-lhe de mim
senti o seu abraço enorme
frondoso e forte
e ele abriu-se suavemente
conheceu-me
e reconheci-o ...........
....dentro de mim tomei-o....
e amámos-nos como antigamente
hoje o nosso amor venceu as labaredas....
Margarida Cimbolini

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

ECO

Margarida Cimbolini partilhou a sua foto.
8 h
Margarida Cimbolini
Eco
busco o eco
não o que eu quero
mas aquele em que peco
*aquele que perdi
não o eco da minha voz
não o da minha arrogância
não o eco do passado
*não esse que soa na montanha agora
não o que o choupo guardou e chora
não o eco do riso cintilante
não o eco do bailado
que no palco fica e demora
não a voz do poeta abafado
*quero o eco do pecado
e pecado é não amar
é viver assim pairando sem poisar
é desistir de mim
*busco o eco do amor
calo o grito e o eco não soa
rejeito o eco da dor
busco o eco do arco íris
o eco da gaivota a voar
* o eco da vida a nascer
quero o eco dessa música
................. que nasce no jasmim
que arde e me perfuma
que me torna gente...
.................e faz de mim pluma
*busco um só eco
só a esse eu escuto e reconheço aquele que escutei no segundo em que nasci
aquele que me acompanha desde o berço
o eco do Deus que nunca vi...

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

INDO

Indo
indo eu na demanda de mim
vi da janela ......a lua ))...e continuando
.........calma ! no céu caminhando))
..vi....uma das constelações .
Que belas eram as estrelas
organizando no céu
..........um rasto do seu amor..
e fiquei feliz por elas.....
........ficando por mim feliz........
pois na demanda de mim
encontrei os fragmentos
da minha fome de querer...........
.....tantas as formas do querer......
e eu encontrara uma....escrita no céu para mim !
.........curvo-me agradecida...........
a quem quer que nos criou.........
e que assim amando nos amou...
feliz e extasiada de ser assim tão amada.......
na utópica constelação da vida que me foi dada
curvo-me a roçar o chão..........
...........a energia constelada........
a fímbria do meu vestido ondula em dança nada......
curvo-me e numa prece muda sou eu....
............................a muito obrigada.....

BARBACÃ

barbacã
em cercanias do meu castelo
eram folhas a tombar
musica do vento no som do acaso
enquanto me aninhava nesses novelos
de lã de seda e de chagas
fruta a amadurecer devagar
musica de semente que germina
em campos de abóbora menina
ouvi a tua voz....muito breve...salpicada....
salpicada da vida ...da pressa ....de gentes..
cheia de ti......vazia de tudo....cheia mas vazada..!
voz avisada....desamorosa.....voz cansada
voz desarmada .....sinuosa.........mas desejada !
na tardezinha...no por do sol .....lânguida ....
bordava em mim bordados de matiz
sombras de rosas ...... a chuva quente......
entregava-me ao odor do dia findo ...ainda presente !
vinha de longe a tua voz....................de mim ....
.....só a lembrança fugitiva....quase embaraçada...
...............quase pertinente......quase tudo....quase nada...
sem querer...sem saber ...... colheste uma flor !
........beijaste uma estrela...azulaste uma nuvem.....
alaste uma ave...num regougo de voz apressada.....
fizeste-me sentir (não amada) mas lembrada.....
e na mata o dia calmamente terminava.......

LÚCIDA

lúcida
gosto de me sentir lúcida
lúcida do som
vibrátil dos meus passos
no soalho
quando ando
toda a casa vibra e estremece
num compasso
numa dança
de madeiras velhas
de juntas imprecisas
de fendas
de rasgos nas paredes
de bichos
pequenos insectos vastos e vagos
não sei os seus nomes
mas sinto-os
no interstício ..nas frinchas do chão
são os habitantes do Inverno
aqueles que escondidos
são mesmo assim vida
lúcida mas menos do que eles
afasto-os ...
escorraço da casa os seus pequenos sons
lúcida amo esta clareza
com que os sinto
gosto de me sentir lúcida
e de caminhar descalça sobre a madeira seca do soalho
Margarida Cimbolini

A PELE DO SOM

a pele do som
luzes de neon
as montras da vida
caminham em sobressalto
tombam e tombam e crescem
monstros de cabeças disformes
derrotados á nascença pelos homens
violados nas suas ausências
são o que foram e mais o que somos
e mais o que teriam sido
se não fossem.....amor derreado...decepado
urze que não surgiu...
na montanha de néon.....o cabaret....
onde a urze morreu
amantes decepados pelo tempo
e o som
o som enorme....na voz....
tremura que nasce dentro e me percorre
em arrepios onde cresce o amor...
sempre o amor ......matraca desenfreada..
e a pele a pele do som extinta ...
começada ....inacabada por não ter fim
......por ser eterna....com que desenfreada fúria a amo..
Margarida Cimbolini (Leonard Cohen,s Elegi for Janis Joplin )