domingo, 28 de janeiro de 2018

ARY DOS SANTOS ESTRELA DA TARDE

ARY MORREU HÁ 32 ANOS!
ESTRELA DA TARDE
Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia 
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca tardando-lhe o beijo morria.
Quando à boca da noite surgiste na tarde qual rosa tardia
Quando nós nos olhámos, tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos, unidos, ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia.
Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça
E o meu corpo te guarde.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria
Ou se és a tristeza.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza!
Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram.
Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite se deram
E entre os braços da noite, de tanto se amarem, vivendo morreram.
Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça
E o meu corpo te guarde.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria
Ou se és a tristeza.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza!
Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso se é pranto
É por ti que adormeço e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto
Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!
Ary dos Santos, in 'As Palavras das Cantigas

É

É no sussurro do silêncio que melhor te ouço
e te sinto
no silêncio distingo melhor a voz da poesia
aí ouço os meus passos
os meus sonhos
o tremor da vida
e o temor da morte
sempre para chegar ao verso
sempre no encalço da beleza
no encalço da dor
vendo no fundo dos meus olhos sempre a mágoa
de estar só
quanto mais clara
mais confusa
quanto mais tempo
com mais silêncio
e fugindo
cada vez mais das multidões e das
palavras..
Margarida Cimbolini

PORQUÊ

Porquê
porque aparecem os pássaros de repente?
como sabem eles da Primavera
como sabem eles fazer os ninhos
e porque os fazem
no beiral desta janela
desta janela a que chamo minha
neste canto..nesta alma que escuto em vão!
Quero falar a sua língua
para que me digam onde vão
quero ensinar a andorinha
quero dizer-lhe solidão
nunca mais serei sozinha
se no bico da andorinha
conseguir plantar a ilusão
Margarida Cimbolini

TOADA



toada
o teu rosto
que me beijava
boca de mosto
onde eu nadava
grossa a pele
poros fendidos
caricia tão leve
desperta os sentidos
meus longos cabelos
que tu enredavas
saudades tantas
dessas mãos brancas
postigos da vida
dizem que não
sem te dar nada 
fui coração
fui fio de prumo
e tu meu rumo
rota muito amada
dentro de mim
crescia o calor
e era tua
na margem do rio
no chão na cama
o corpo sorria
na tua chama
partis-te um dia
como quem ama
agora saudade
esta alma ferida
no teu rosto sonha
e não te chora
olho o teu rosto
uma prece erguida
amo-te mais
amo-te tanto
mais que outrora
na vida partida um sorriso chora...
Margarida cimbolini

INCÊNDIO

O vento queima nestas montanhas onde me abriguei...
.Sinais antigos me queriam reter...
Rocha me pensei.
O vento queima ...
............................amanhã tratarei da cicatriz...
Peço mais tempo e reflectirei ainda mais.
Não tenho o direito de me expor assim à dúvida ignorando os sinais
Não posso esquecer a alma
se o carácter é caro..
A alma não tem preço...
Margarida Cimbolini.

ÍNTIMOS VENTOS



Íntimos ventos
Íntimos ventos
são brados lamentos
de pecados meus
e convoco os mastros
de todos os navios
que rápidos ou lentos
me levaram pelos mares
em ondas ou em altares
me deram alentos tais
para amar e pra sofrer
a febre de não te ver
no lirismo dos meus ais !
Enxergo navios ao longe
em íntimos vendavais 
e sózinha vou ficando
mulher que vive no cais
Margarida Cimbolini

TU

Tu
tu meu amor
minha aragem madura
meu espaço vazio de dor
minha respiração 
minha lonjura
minha pele tão morena
na minha brancura !
Carícia molhada de amor
é esse teu beijo
que me beija e perdura
No teu peito sinto o vento...
e chamas- me madressilva
eu olho para os teus olhos
e vejo toda uma vida
São teus lábios
os caminhos
onde me quero perder
e queres saber se sou tua...
de quem poderia ser !!!?
se cada hora me jura
mais uma hora viver..!

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

EU

Eu
Eu serei como a água que corre entre as pedras
nunca saberei o meu destino
Correrei para o mar
como a estrela corre no céu
e o amor corre nas caricias dos amantes
Será meu o rumo dos pássaros
migrarei como as estações no tempo
farei casulos nas Eras
Terei um filho em cada século
mas nunca um ser humano será meu
,,Anima sola,,, entre labaredas
para sempre serei vitima do pecado original
conjurando espíritos e demónios
.Ignorante gerarei ignorância.
Mulher no meu ir de hoje violarei pactos e conceitos
,,sujeita a tudo,, tudo limparei de mim
e aquele que me quiser mal
terá consigo todas as minhas dores e as suas
alcançando-se depois de me alcançar
pois sou a água que corre entre as pedras
e não sei qual o meu destino
mas passarei nas águas do mar
Margarida Cimbolini

VEM

Vem
Vem com os olhos cheios de estrelas
e traz tulipas roxas
e algas
para que mergulhe nos teus olhos
e encontre mar
para que sinta as tuas mãos
e sinta a terra
para que os meus braços tenham abraço
vem e traz tulipas
traz uma canção
para que a minha alma dance
e as cores do arco íris
para que nele descanse
traz luar e marés
e um sorriso
para que possa a rir
traz palavras muitas palavras
para que possa escrever
e tulipas e algas
para que tenha mar...
Margarida Cimbolini

AUSÊNCIA

Ausência
ausência de ti
*****
na tua mão macia
era também ausência
mas ausência doce
******
o sossego da pele
de pequenas veias azuis
de frio correndo no corpo
da dolencia do corpo
é hoje ausência
*********
tua ausência de alma
era ausência minha
(Voando entre parênteses )
bastava esta que tenho
a colmatar ninhos de melros
nos pinheiros da paixão
*********
sinto a presença ainda sem corpo
de ausências imberbes
*******
sereno enfim na dulcissima
planície deste langor
espero te
Margarida Cimbolini

RIOS

RIOS
então os rios cansados de correr nos leitos
resolveram saltar as margens
correndo como amantes desunidos
perdidos que estavam na nua cidade
amantes e rios correram paralelos
universos e vidas tinham a separá-los
apenas a eternidade os unia
e a foz
descem a colina rolam sobre seixos
suas almas desordenadas
gesticulam.
sobem na espada nua da corrente
retalham veias de água
em rosa dos ventos louca
fluem
corpos desafiando a corrente
descarnados e lúbricos
apenas a eternidade os unia
e a foz
Margarida Cimbolini
Foto de Margarida Cimbolini.

MAIA

Maia
Fecunda deusa dos homens
Pede na terra aos homens de boa vontade
Pede às tagides do Nilo
Às brancas ninfas de 
Eufrades !
Pedes às correntes que desaguam nos mares
A Moisés pai do jovem Deus nascido sem pecado...
Pede no altar de Jesoe...
.. cordeiro de Deus
Celebra a fecundidade...
Aquela que traz ao mundo guerreiros
Fecundos varões de verdes oiros
Capazes de diluir nações de povoar Universos
Há mulher de Zeus a Hermes ...Eros no encalço dos prazeres
Despeja sobre o nundo o teu amor fecundo
Aquela que dá à luz seja bendita..
E seus filhos crias da humanidade..
Crescem na borda do abismo !
Cegos para não tombarem..
Surdos para que não ouçam o som das guerras dos homens !
Mudos deuses do silêncio !
Sejam eles os filhos da redenção..
Um em todos todos em um !
Que celebrem o não ainda
nascido...
Filhos da mãe sem irmãos !
Celebrem o seu vagido !

CÉU ABERTO

Céu aberto
Há um buraco no céu
e dele tombam diamantes
São meus dias
são meus anos
são beijos de dois amantes
são contas do meu rosário
são mágoas do meu amor
são asas de andorinhas
são os vôos de um condor
Há um buraco no céu e dele tombam rosas brancas
são neves e rios e
mares
são contos de marés cheias
são ventos vindos do Sul
e são cantos de sereias
são seios de mulheres lindas
e o vinho de um lagar
são meus brincos de princesa
que caem com o luar
Há um buraco no céu
que encomendei à lua
tenho pressa de lá ir
pousar....
... a vida que me perdura.....
....vestir de azul...
esta minha alma tão nua...
Margarida Cimbolini

MAR DE PENAS

mar de penas
.larguei minhas penas no mar.
Que negras penas eu tinha
nas águas verdes do mar
ficou uma lágrima minha..
Larguei minhas penas no mar
eram penas cor de chuva
nelas desfolhei a terra
eram penas de viúva..
nelas deixei manto negro
e canções de bagos de uva.
Cobri penas de luar
e entre a branca espuma
ficou o sonho de amar
sonho tecido a voar
nas asas de uma pluma..
Larguei minhas penas no mar
e o mar tornou-as brancas
quando voltei pr,as buscar
tinha doces penas mansas...
Meu mar dourado e azul ...
.....que verdejou minhas penas
vestiu-me de algas salgadas...
..fiquei deitada ao seu lado
....com ele bailei suas danças...
e com penas de brocado........
.... enfeitei ondas crianças......
O mar salgou minhas penas
..... roubou-lhes medos e dores
saí do mar tão lavada..... tão sem receios
................limpa de tantos terrores
.. que o Sol me sulcou trilhos
......e me cobriu de flores.....
Larguei minhas penas no mar
.............e troquei-as por amores...

PEDRA ANGULAR

Pedra angular
os olhos focados nos seios
os seios descobertos em veludo
em sedas
abertos como lábios de carmim
as palavras mesureiras
as mãos salamaleques
em movimentos
lentos
ou rápidos sempre com um fim
o de poisar noutra mão
na anca na face
no outrossim
que não diz não
na mulher que nada diz
nem não nem sim
a pele amarela
flácida velha
o homem era assim
do ângulo paralelo
à mágoa
do sexo paralelo ao amor
da dor cercada por dor
da crítica e do azedume
ainda assim
aquele homem podia ter sido poeta...
....vivia no meio das palavras..
mas não era...era
apenas bem falante.
Margarida Cimbolini

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

LONGE

Longe
que longe de mim me sinto
em vão grito por mim
mas encontro apenas o eco
Na cabeça turbilhão de pensamento
onde não me reconheço
amálgama de lava
que me inunda
e me rompe a pele
Sítios onde pernoitam as minhas noites
Solidões que me assolam
em inexplicáveis angústias
onde ninguém pode penetrar
Peço a clareza das nascentes..
Chamo a mim todo o sal do mundo..
e nesta sede me resgato....
bebendo a seiva
da selva onde me
plantei..

LONGE

Longe
que longe de mim me sinto
em vão grito por mim
mas encontro apenas o eco
Na cabeça turbilhão de pensamento
onde não me reconheço
amálgama de lava
que me inunda
e me rompe a pele
Sítios onde pernoitam as minhas noites
Solidões que me assolam
em inexplicáveis angústias
onde ninguém pode penetrar
Peço a clareza das nascentes..
Chamo a mim todo o sal do mundo..
e nesta sede me resgato....
bebendo a seiva
da selva onde me
plantei..

ANDORES

Os andores
Ardo no meio deste silêncio
.....
..este silêncio onde escavo degraus de pedra.
e se ergue à minha volta como muros
Silencio de gelo a sorver a sede e o ar nele volteio
Sou paralela a muros altos na redoma das palavras escritas..
Silêncio onde caminho
por entre andores.
Procissão de santos e pecadores
onde me ouço pensar.
Silêncio com máscaras de sons
onde canto a verdade ..
Onde chamo a liberdade de ser !
Hasteio sempre a mesma bandeira
A bandeira da essencia..
A bandeira que me Arde dentro !
A vida que transporto no andor da sigularidade
e da diferença
A isso chamo liberdade

DESENCONTRO JORGE DE SENA

Desencontro

Só quem procura sabe como há dias 
de imensa paz deserta; pelas ruas 
a luz perpassa dividida em duas: 
a luz que pousa nas paredes frias, 
outra que oscila desenhando estrias 
nos corpos ascendentes como luas 
suspensas, vagas, deslizantes, nuas, 
alheias, recortadas e sombrias. 

E nada coexiste. Nenhum gesto 
a um gesto corresponde; olhar nenhum 
perfura a placidez, como de incesto, 

de procurar em vão; em vão desponta 
a solidão sem fim, sem nome algum - 
- que mesmo o que se encontra não se encontra. 

Jorge de Sena, in 'Post-Scriptum' 
// Consultar versos e eventuais rim

DA VIDA....NÃO FALES DELA JORJE DE SENA

Da Vida... não Fales Nela

Da vida... não fales nela, 
quando o ritmo pressentes. 
Não fales nela que a mentes. 

Se os teus olhos se demoram 
em coisas que nada são, 
se os pensamentos se enfloram 
em torno delas e não 
em torno de não saber 
da vida... Não fales nela. 

Quanto saibas de viver 
nesse olhar se te congela. 
E só a dança é que dança, 
quando o ritmo pressentes. 

Se, firme, o ritmo avança, 
é dócil a vida, e mansa... 
Não fales nela, que a mentes. 

Jorge de Sena, in 'Pedra Filosofal' 
// Consultar versos e eventuais