sábado, 9 de junho de 2018

DO SUL

Do sul
......... as mulheres vinham a cantar
Tombavam
do céu liquidos azuis
E os algodoeiros vestiam - se
de branco
Toda a natureza amava !
Na noite reinava a lua...
....e eu feito ....criança ....brincava
espalhando lenços de cambraia
....... leves como pombas
nas asas do panalto..
ria ..vendo como voavam !
Ria de não sentir a barreira e o peso do corpo !
Tudo era eu estava em tudo ! e não queria nada...
Em baixo mexiam -se figuras de barro !
E nas dobras do tempo....
senti o cheiro acre da terra...
...dos homens e dos animais !
Amei as suas palavras ! os seus gestos...
E voei mais alto!
a debruar de azul e de paz a alma..
enquanto ouvia os cânticos que vinham do Sul...

BEIJOS



beijos
beijos roubados
na boca da chuva
na aresta do planalto
beijos sorvidos da dor
prenuncio da ausência
na solidão anunciada
beijos nus...salgados
como manchas de agua
salpicam a rude rocha
descem vertente de um corpo
descem pelo ventre liso
loucos sedentos mastigam as bocas
povoados de anjos...voam
no cabaré do destino
beijos roubados... caricias imensas
despedidas de um amor
boémias caricias voláteis
línguas de fogo erram
no vale da púbis serenam
imaginados nas bocas
unem-se sedentos de saliva
choram da eterna despedida....
Margarida Cimbolini
Théophile Alexandre Steinlen - Le baiser (1895-1896)

AMORA DE CINZAS

amora de cinzas
vou incendiar as suas cinzas
já sinto a boca a salivar
desses recônditos recantos
..........nunca escondidos.........
sempre adivinhados
........nunca expressos.........
nunca abandonados
desse gosto virgem da amora madura....
desse encanto revelado
´´´´simples flor silvestre,,,,,
gemendo de amor.....gemendo...
,,,,,a germinar -me na vagina,,,,
aberta aos seus dedos de amor,,
no calor das palmas calosas
onde aninho os lábios
da mão que instala a minha boca
,,,sugando-o virgem desse sabor ..,
........da amora madura,,,,,
onde te reconheço.........
incendeio suas cinzas em mim.....
,,,,fogo que lavra rumo ao crepúsculo de nós....
e dentro de mim te retenho........
guardarei teus dedos na fímbria dos meus lábios
até que por completo desapareça seu sabor
e o seu cheiro não me entonteça........

FUNDO

Fundo
Dentro de mim batem asas todas as borboletas do infinito....
e as palavras brotam...surgem luminosas..humildes ..gentis..
Pedem que as escreva querem vida e calor...
Porque lhes resisto ?
Porque se negam os meus dedos a escrevê-las...
e os sentidos a senti~las ?
Porque não as abraça a alma e não as torna suas ?
Ver a dor das gentes tornou-as mentirosas !
Ver a fome que grassa entre elas e que a dor o sofrimento
e a agonia fazem entre elas o seu ninho gritam que as não creia.
A alma intacta gesticula e geme !
Mas as palavras não sabem defini-la.....
Então para que as quero ? para que me servem ?
Prestam pouco !
enganam os poetas e enchem as virgens de estranhas vergonhas....
Rasgo as de mim .....ouço os olhos das crianças que nunca brincaram...
e a angústia dos que não ouvem alma e tremo !
para quê escrevê-las se dizem mentiras ....
Rogo a mim própria com estas palavras que me atraiçoam o dom da escrita !
As palavras sufocam e não cabem em mim...

RUAS

Ruas..
Nas ruas moram olhos transparentes
sedentos de luz
..... onde brincam as crianças de ontem . ....
Nas ruas nascem miríades de seres..
casulos em vãos de escadas abrigam amores..
Ruas onde os cheiros inundam as calçadas
flutuando nas raparigas de lábios vermelhos
que percorrem as ruas...
Na sombra da lua sangram papoilas...
Ecoam fogos fátuos
dobram os sinos sem vento...
As ruas nascem cada dia
percorro as em sonhos
em bicos de pés !
em vôos de maresia !
Perco-me nas ruas...
pernoito nas linhas do horizonte..
onde o Sol não chega
Sou dia ! noite ! tarde e manhã clara...
Das ruas guardo todos os passos !
Degraus de mim ..ruas..
que tenho na memória !
Serei sempre também eu..
rua onde passam vagabundos !
Vaga lumes das ruas moram nos meus seios !
Ruas minhas de liames e enleios !
Sou rua sem fim ! danço..

INQUIETA

INQUIETA
na quietude de mim
inquieta me sinto
formigam as mãos
como galhos de amendoeira
Tristeza surda e traiçoeira
bem a conheço e ao seu pranto.
De peito aberto coando interjeições
agruras e memórias são traições
esqueço-me de mim....engulo estas paixões !
Vou de novo levantar estes véus que me inquietam
mas com que mãos....se me dizem que estas pecam !
Pecariam meus dedos em prisões ?
Será outra ...esta que por mim se inquieta ?
esta de olhos trémulos, louca, desusada e incerta
que se perde entre ideias e ações..
inquieta de ontem de á pouco e de agora...
alma inquieta que chora.......
Sai de mim !.... nenhuma inquieta aqui mora....
Margarida Cimbolini

O NOME DO MAR

O nome do mar
Cheira
a maré e a maresia
beija a areia e a fantasia
o mar cobre de espuma os meus olhos
e no Sol poente
o nome do Mar
é presente que se passeia no meu
O Mar soa ao som do eterno
e é simples e é terno
e está só !
não se partilha !
O nome do Mar é ilha
Se está vento é ventania !
O nome do Mar cresce cá dentro !
Mar é seu nome !
e o meu é Maria !

sexta-feira, 8 de junho de 2018

GRAÇAS

Graças
Brinco com o fogo
levanto as labaredas altas e vermelhas nas mãos
faço as crepitar
ouço o estalido da madeira
enquanto queimam
gemem e gritam como almas...
Sobem leves como penas..percorrem veios..tropeçam nos galhos
Caminham por entre o fumo...
esculpem formas muito belas...
e acabam por extinguir-se..lentamente..fervendo...liquidas sobem ao céu...
e dão graças !
Tenho nas mãos fogo vivo e quente..temo !
a minha mão foge ....foge... rejeita o fogo...renega o calor...teme !
Assim faço com a vida
depois de ateada e alta..deixo -a..
Fico surda ao seu chamado..
Mergulho na água salgada das minhas lagrimas...
E não creio em mim..
não olho para dentro..minto -me...
e mesmo assim...dou Graças !
e clamo por mais...
Margarida Cimbolini

DANÇARINA

Dançarina
Trago nas mãos ondas
....de ventos e de desejos
Encontro- me na labareda carnuda dos teus lábios...
Volteio nos arredores do teu corpo..
Chama ainda !
Chama a arder branca e louca...na luz dos teus olhos..
Nessa luz que me cega e me torna transparente..
Encho-me no teu reflexo !
Esvazio-me nos teus braços !
Corro ....!
Perseguem- me vendais e vulcões..
Enrouquecida pela voz do mar..
das minhas mãos faço rolas
e dos meus dedos nenufares...
Nada me parece tão doce como a tua pele
e de arminho torno os meus poros..
para acariciar-te..
Encendeio o mundo para que juntos..Sol e Lua...
dançemos até ao fim...
Margarida Cimbolini

Da noite



Da noite
Sabia que eras tu
Cada passo dizia o teu nome
e anoitecia
Era a mais escura de todas a noites
das noites em que te via .
Na vidraça batia a chuva
Em mim também chovia.
Vinhas sempre na noite
a beijar-me os olhos
e para mim era dia
Trazias os beijos da noite...
e da madrugada trazias aquele amor que fervia.
Foi aquela a mais longa das noites
..a Lua entrava prateava os nossos corpos
e eu ria !
Foi a última das noites 
e por fim como em cada noite
veio o dia...
Margarida Cimbolini

AS MÃOS

As mãos
seguem desventuradas
agudas esventradas
segundos minutos horas anos
seguem
seguram a última memória
agarram
sugam arranham
finas rugosas
rígidas ou móveis
seguram o lodo
no cais
perseguidos pelas veias azuis
cruzadas de Sóis
alinhavam ainda as linhas
do manto de névoa com que se escondem
as mãos morrem sempre
primeiro...
Margarida Cimbolini

Meu AMOR

Meu amor
Meu amor...Meu amor
é tarde
tão tarde que não vejo o rio
não ouço os cacilheiros
não reconheço o Rossio
É tarde meu amor tão tarde !
O tempo já não tem tempo
Já não durmo só sonho
e no sonho passa o vento
e mesmo ele não tem tempo !
Nem o mar fala comigo....
Nem a lua me consola...
nem eu sei onde ela mora...
Esconde-se o azul no céu...
Meu amor é muito tarde..
e o meu corpo arde
.................... e não avisto o navio..!
...inda ontem vi...na areia..
aquela tua cadeia....
a que eu chamava fio..
Meu amor vem a correr...
morre o tempo e morro eu...
...sendo tarde pra viver...
sem aquele beijo....tão teu...
Margarida Cimbolini