quinta-feira, 20 de junho de 2019

LIVRE

Livre
Soltas-te a minha quadriga na cidade !
Galopam...
Que será deles sem rota e sem freio ?
Ouves como relincham cansados !?
batem com os cascos no asfalto ......
Segue- os... semeiam nas ruas cerejas e morangos...
Levam o pomar nos alforges !
Correm como os meus pensamentos !
Amam e sofrem...como eu !
como a branca gaivota que matas-te porque não a querias branca !
Como eu ela vivia entre Deus e o Diabo..
Ondina mergulhando num lago e sonhando com o mar...
Onde irão parar esses cavalos ateados pelo vento !
Livres ! sem as rédeas dos meus afagos...
que será de mim em soltando assim o pensamento !?
À deriva sem a alma que os sustinha..
sem o coração de veado que enterras - te no bosque...
sem as marés deste íntimo mar
onde vivo..!?
Onde irão os meus pensamentos sem as gloriosas manhãs de espinhos com que os arrefeço ?!
Sem as tardes vestidas de azul com que os alimento !?
Sem as minhas loucas noites perfumadas pelo alecrim do meu corpo !?
Largas-te as minhas quadrigas na cidade...
sem lhes dizeres onde as cegonhas fazem os ninhos ?
Vão perder-se nas ruas....magoar-se nas pedras ...
Soltaste-as sem deixar recado ao vento..
....sem avisar a madrugada...sem a luz da lua...sem o meu carinho !
Ai de mim.. ! sem toda a minha doce ternura...!
Vão morrer !
Então
.... porque chamas a isso liberdade ...! ?
Margarida Cimbolini

O RIO

O rio
o rio escoa- se por entre os meus dedos devagar
cauteloso modera as correntes..
adentra -se em tudo o que no meu corpo é àgua !
transpira sede aos meus poros..
grita-me nos lábios..
Sugere sombras onde me aninho !
Verdes quero as suas margens..
as margens que me dão o seu castigo..
Das margens surge um ciúme erógeno e antigo !
É entre elas que ele corre..
...eu apenas sou um seu postigo !
Sou sua amante e ele é meu amigo !
Dispo a pele o sangue os nervos !
Esvaio-me de carne de ossos de umbigo ...
Quero ser a sua foz...
quero ser àgua..a àgua..
a água deste deserto que me suja e que eu persigo...
...a chuva lava o pó da minha ainda pegada ..do que me resta de siso !
Margarida Cimbolini

TU CAMÕES

TU Camões
em ti meu amor medito
de ti me pergunto mais
onde estará esse escrito
que fala da tua historia
não os escritos do mundo
mas os da tua memória
busco -te e não te encontro
trovas mil e mil imagens
entre Pedro e sobre Inês.
e tantas onde cantaste
em trovas de amor e prosa
mas é a ti ,,ser,,que eu quero
a ti mesmo sem glória
homem de vida e amor
libertino sem freio nem medida
meu poeta trovador
que tenho dentro de mim
de exacerbada dor
exaltados os sentidos
ao mais que pode o amor
ser mãos ser boca e ouvidos
toda a tua poesia
essa ânsia mal contida
foi a ela que senti
e tu lhe deste o nome
o nome primeiro que vi
procuro-te nas barcas nos céus
nas simples flores do monte
nas belas mulheres sem véus
que nuas levas á fonte
e banhas no teu carinho
vem encostar no meu ombro
essa fronte tão formosa
quero cantar-te todo o dia
e no teu dia poeta deixa-me ser tua rosa..
Margarida Cimbolini
10-6-2019-dia de Camões

IREI

Irei
Vou soltar na noite acesa
todo este lume
que me encandeia !
Vou na rota do condor..
Cada manhã condor de mim
amoreço em saudade...
Amoreço na saudade das almas brancas...
das minhas cotovias !
Dos meus cucos...tão reais como as minhas fantasias...
Mergulho em mim saudosa e amorosa...
Porque é no amor que acordo cada dia..
Olho à minha volta e amo..
Amo este silêncio macio e sussurrante ..que ouço com dor e alegria..
E mergulho nesta luz de nostalgia...
...sinto quem me ama a meu lado !
E se triste me sinto de não os ter !
...alegre me sinto de ser...
Sem passado o presente era vazio !
Sem eles eu não seria ....
...ou seria outra !
...
nem a lua seria lua cheia...
Nem o vento me traria cada dia..
...sempre o mesmo pensamento..
Esta doce e amarga nostalgia que comigo trago ....
....que ao tempo entrego cada dia !
e a que chamo saudade...

CHOVE

Chove e no mar as ondas embrulhadas na areia cantam pra mim segredos lindos cheios de estrelas...cheios das pequeninas estrelas que hoje me vieram saudar !
São as pequenas estrelas da minha vida cheia de paixões !
Tu foste a primeira das minhas paixões..a minha filha ! uma vida que embalei dentro de mim sempre ao sabor do mar ..sempre ao sabor das marés...estiveste sempre comigo desde que te senti...eras das estrelas a mais preciosa ! Talvez a primeira ! Nunca te esqueci !
Como pode uma mãe esquecer um filho ! Não pode levei -te sempre comigo..a minha Inês..a bonequinha doce que me chamava mamã! Que eu embalava nas noites insones..o meu primeiro poema foste tu ! Tornei - me mulher ao compasso do teu passo eras eu como esquecer - me de mim !
A vida revolta pelo vento pelo mar pela tormenta de ser humano pela singularidade de nós..cortou desfez as amarras dos liames e os barcos tomaram outras rotas algumas mais salgadas mais íngremes ...e perdeu - se de mim a minha primeira estrelinha a primeira que era só minha !
No céu as constelações cobriram - se de geada...as palavras taparam o Sol..rompeu- se o casulo da luz !
E uma sombra em crescendo tombou sobre nós ! e adensou - se !
Talvez ainda haja uma clareira ! Seria preciso uma foice grande a desbravar este matagal feito de tanta vida feito de tanta vida que se perdeu de tanto amor que não desabrochou e se escondeu...uma foice grande demais para nós...para mim cada vez mais pequena mais lúcida e mais frágil...que temo não saber como empunhar !
Confio no amor...confio na utopia mas não sou nada e não sei amarrar...os meus braços à força de abraçar o tempo perderam o viço das giestas e o orvalho das manhãs claras !
Somos filhas do mar e do mar tombam diamantes !
É com estes tesouros que o coração guarda e o sangue tinge de esperança que olho o amanhã...
9 de Maio de 2019
Numa manhã de nevoeiro..
/Texto que escrevi para a minha filha na manhã do meu aniversário/

SE

Se
Se sou poeta !
Ou poetisa ?
Se tenho esta ou aquela meta ...
Se sonho ...se bebo...se sou vidente !!
Eu não eu não sou nada...
até me pergunto se sou gente..!
Eu sou coisa que sente..
Sinto muito acordada a dormir a andar calada ou a sorrir..
eu não tenho tréguas estou sempre a sentir !
Sinto tanto que transbordo não aguento...
E sinto mais quando o outro não sente...
Sinto a vida sinto a morte sinto o amor.. sinto a praga e a sorte !
Sentir assim sempre e tanto é demais..! às vezes tenho medo de sentir a hora da minha morte ! mas sou tão pequena que há-de o tempo ter pena...
e tornar esta alma sempre mais una e mais forte !

terça-feira, 4 de junho de 2019

CONVERSA COM PESSOA OU MONOLOGO EM DUAS LINHAS

CONVERSA COM PESSOA OU MONOLOGO EM DUAS LINHAS
duas colunas te sustentam
no átrio deste templo
apesar de cego passàs-te entre elas
precisavas conhece-las
o seu sentido revela-te a vida pouco a pouco
agora que tens luz
porque baixas os olhos para o chão ?
que há no chão...? branco e negro cinzento
ou tudo não passa de um clarão ?
ou não é chão
será vida
a vida é sombra .... é luz é dia .....e noite... bem e mal
da vida só vês o topo
o elemento oco....
e a razão e o amor e a paixão ?
cada passo um alçapão para quem só enxerga o chão...

A ANCA

A anca
a anca roda
na praia desanca
está solta e franca...dança 
como dança !
laranja doce escorre...
molhada..palpita ! corre..grita..!
fêmea que geme
goza..é onça..danada !
orgasmo de romã !
cheira a mulher levedada ..
tem cheiro de anjo
sexo de fada
e roda a anca suada...
escorre na perna
na praia
fica areia molhada
a onça nua
mergulha
no mar e nada..