MULHER POEMA
Yokou-sun não conseguia tirar os olhos dos seus pés que respiravam liberdade! Estavam ainda muito deformados e doíam-lhe bastante, mas o alívio que sentia a caminhar era enorme!
Olhava quase com espanto... não lhe pareciam os seus pés ligados e comprimidos desde criança, mas algo com vida própria desconhecido para ela.
Por segundos esqueceu a sua infância tão rica de memórias para mergulhar de novo no livro que tinha à sua frente e que compreendia com dificuldade, mas que a enternecia até às lágrimas de tal modo se sentia transportada para o seu jardim rodeada de pequenos pessegueiros... quando o lia !
Pegou na pequena caneta de prata que trouxera consigo da China e carinhosamente transcreveu uma pequena passagem da obra depois dobrou o manuscrito cuidadosamente e guardou-o no seio....
És mulher poema arregaçada com mãos tremidas
Pela inspiração que te rasga do peito até à alma!
Somas paixões e desilusões e fazer amor com o corpo
De ti e das letras, daquelas que contam vidas e mortes…
Ai, eu quero-te, mulher poema, inspiração dos deuses
Perdição de corpos masculinos que te desejam sem limites!
Na sua natural reserva parecia-lhe quase sacrilégio aquela ousadia de emoções, aquele lirismo nu maravilhava a sua exigente sensibilidade e excitava tremendamente os seus sentidos!
Todo o seu corpo estremeceu de novo e sentiu um forte desejo de conhecer o jovem Americano que escrevia assim olhou longamente a foto na capa do livro e viu de novo a biografia do autor depois tirou uma pequena flor do cabelo e marcou com ela a página do livro que fechou e arrumou com doçura! Em seguida lavou a cara e as mãos e preparou- se para levar o chá matinal à mãe do seu esposo que a esperava impaciente. Pelo caminho recordou mais uma passagem e voou…
És mulher poema apaixonada, mesmo que apenas livre enquanto sonhas.
E esta noite vou esperar por ti logo no início desse sonho,
No momento em que as pálpebras ainda estiverem a descer
E a Lua te segredar que eu sou o teu guardião para toda a eternidade!
Quero-te só para mim, mulher poema, inspiração de todos os deuses
E tormento para os outros corpos que jamais te voltarão a possuir!
Yokou-sun ficou em silêncio depois do esposo ter saído para mais uma reunião de negócios. Estava ansiosa pelo segredar da Lua! Fechou os olhos várias vezes na esperança dela chegar mais cedo. O sono chegou finalmente. Não conseguiu perceber quanto tempo tinha passado ou se já era de noite. Sentiu uns dedos a deslizarem pela sua face. Depois a percorrer os seus cabelos que agora estavam estranhamente soltos. Finalmente, ouviu uma voz rouca que lhe sussurrou:
- Finalmente juntos! Esta noite vou escrever no teu corpo toda a saudade espalhada e perdida por tantas outras vidas e por tantos outros corpos..
sexta-feira, 18 de outubro de 2019
SER POETA
DUETOS DORDIANOS
Poeta de tempos antigos, das folhas velhas e gastas, com um branco amarelado percorrido por uma tinta que falha tantas vezes como a minha memória… Parece que sou poeta. Dos muito antigos. Daqueles que carregam folhas rasgadas pelas histórias tristes arrastadas por mágoas que o amarelo das folhas recolhe metodicamente. Parece que sou poeta. Daqueles com os bolsos cheios de canetas para atirar como dardos de tinta. Provavelmente, será essa a razão para as letras aparecerem sempre tão tortas. Como a minha memória…
Poeta dos tempos de antigamente, cavaleiro e guerreiro, conquistador e samurai, sem me render ao corpo, ao tempo, à saudade…
As escadas levavam a mais uma casa antiga e todo o amarelo das folhas e o preto ou azul da tinta descreviam o seu interior. Desta vez a casa antiga era uma nova paixão. E o piso estava escorregadio, como de costume. O poeta do antigamente avançou devagar e o tempo acabou por lhe dar apenas mais uma vida para escrever…o poeta ...escarneço do poeta ! Escarneço de mim quando me penso poeta....eu não sei se sou poeta.....
As letras entram.me na boca... sobem pelas pernas enredam-me o andar escorregam nas maõs formam poças de água que parecem pequenos lagos onde os pontos as virgulas as interrogações são peixes que gritam e escarnecem de mim....poeta !! ...poeta!! ...poeta..!.. gritam elas constantemente em escárnio....têm vozes agudas....os pontos finais esses são graves POETA sua POETA …..SUA POETA !!!!!!!
ISSO RIAM DE MIM …..deixem me.... larguem..... então zangadas a sério formam palavras.
Formam cordas de palavras cordas grossa e compridas amarram-me os pés tapam-me a boca ….ensurdecem-me as malditas …
Ficas com mãos e olhos e agora escreve....escreve não ouves....... escreve.... ESCREVA SUA POETA....quase em pânico eu escrevo …..mas será que as letras e as palavras sabem ler...pergunto-me !
Olho em volta o meu olhar repousa nas fotos nos livros ...nas peças antigas e belas nas madeiras dos moveis....o meu olhar alonga –se espraia-se além da janelas ...pelos campos pendura-se nas árvores o meu olhar lambuza-se de verde ...sigo agora o voo de uma libélula
..começo a encher-me de amor esqueço as palavras ..as letras as virgula e os pontos finais esqueço o medo as memórias o passado....sinto-me estranhamente em PAZ.....e sem querer escrevo a mais nobre a mais bela de todas as palavras aquela que me dá vida e me torna humana e soletro ...p..o..e..t....a.... curvo a cabeça e sobre o papel adormeço extenuada mas a sorrir.
quinta-feira, 17 de outubro de 2019
QUANDO
Quando
Quando ergues as pálpebras é como se lentamente me despisses
e voltasse a ser jovem
e me sentisse bela
É como se me tirasses a pele e a alizasses
e tonasses os meus poros luzes
e as minhas rugas brilhos
como se me bebesses e a minha seiva
subindo doce e
langorosa
nos tornasse um !
Renasci..Fenix dourada ! adamascada de mim..
Se ergueres as pálpebras hoje..
serei a música dos nossos beijos !
Serei amarra sem barco...
e vou tomar o teu
olhar
...vou transformar o teu olhar em desejo..
Seremos um !
Serei empiricamente eu !
Ergue os olhos meu amor !
quero poder cerrar os meus..
DENTRO
Dentro
Dentro de mim
há mil mundos
mil caminhos
Subidas e descidas
Abismos que não ouso aflorar
Jardins.. Edens e Infernos..
Escadas onde tropeço e outras que me transportam depressa..
Asas cujo voo me corta a respiração !
Planaltos de vistas largas e abertas.. e becos
onde me perco !
A alma dentro de mim gesticula ou desaparece..
A clareza é às vezes demasiada e dói..
outras tacteio na escuridão e escrava me torno do ego ou do coração...
Dentro de mim há um rio que corre e me rasga...
um rio que transborda fas gavetas das memórias..um mar feito de incertezas..
Dentro de mim há um recanto de imensa Paz..
..
quando ele me expulsa....quando esse recanto se esconde..
fico perdida e tremula..
e sinto - me mal !
RECEIO
Receio
receio as folhas mortas
que piso
são castanhas
algumas ..as vermelhas
lembram veias abertas ao dia
e quem sabe se sendo folha
eu morria
assim no chão estalando
nos pés d,alguém
no prenuncio do Outono.
e como seria ?
como seria ?
sábado, 5 de outubro de 2019
IREI
irei
irei num dia que não conheço
irei como vim
sem saber porquê
e sem saber para onde
não tenho certezas
mas temo a morte
sonhei muito...
vivi muito
amei desmesuradamente
amei sempre
persegui o conhecimento
fui fraca e louca
mas fui sempre eu
imperfeita e solitária
feliz na infância
altiva na juventude
inviolável no presente
frágil fui sempre
e cruel comigo
fui mar campo e céu e abrigo
e beleza e fealdade
fui quase tudo..o que fosse ser..
irei como vim
sem saber porquê
e sem saber para onde
não tenho certezas
mas temo a morte
sonhei muito...
vivi muito
amei desmesuradamente
amei sempre
persegui o conhecimento
fui fraca e louca
mas fui sempre eu
imperfeita e solitária
feliz na infância
altiva na juventude
inviolável no presente
frágil fui sempre
e cruel comigo
fui mar campo e céu e abrigo
e beleza e fealdade
fui quase tudo..o que fosse ser..
Mas.......agora e até ao fim
serei como me apetecer.
serei como me apetecer.
MOLDE
Molde
No barro deste poema te moldo..
terra nua na minha pele....
Poros abertos ao lume e ao luar...
escancaro os olhos do copro...a receber-te...
De Sol cubro o olhar dos mochos !
E hão-de os corvos ser gaivotas...no desaguar deste rio feito de noite ..branco de luar...
.
terra nua na minha pele....
Poros abertos ao lume e ao luar...
escancaro os olhos do copro...a receber-te...
De Sol cubro o olhar dos mochos !
E hão-de os corvos ser gaivotas...no desaguar deste rio feito de noite ..branco de luar...
.
..rio coalhado de estrelas..
onde brinco feita ondina...
Barro da minha pele tinge de fogo esta àgua que salgo..
com lágrimas e adoço com beijos !
Serei lua esta noite ! .
....mas vou amanhecer terra aberta..
Espero apenas a semente ..!
onde brinco feita ondina...
Barro da minha pele tinge de fogo esta àgua que salgo..
com lágrimas e adoço com beijos !
Serei lua esta noite ! .
....mas vou amanhecer terra aberta..
Espero apenas a semente ..!
Margarida Cimbolini
quinta-feira, 3 de outubro de 2019
SÃO TUAS MAOS
São as tuas mãos
que no meu corpo desvendam segredos ..
e abrem sulcos..
e expulsam medos..
São teus dedos nos meus dedos..
desatam nós..abrem caminhos..
destroem muros ...
E frutos maduros e odores ...transbordam em mim...
em sonhos perversos e puros que vêm de ti...
e abrem sulcos..
e expulsam medos..
São teus dedos nos meus dedos..
desatam nós..abrem caminhos..
destroem muros ...
E frutos maduros e odores ...transbordam em mim...
em sonhos perversos e puros que vêm de ti...
São meus os desejos que te dão ensejos...
E são estes beijos cobrindo meus seios...
húmidos de amor ...que me doem ...numa mansa dor...
que sabe bem..que me traz temor...
Uma angústia breve...carícias de
candeia...
onde esta chama cresce e enleia..
E é calada...entregue... e fatigada..
que digo ainda...
E são estes beijos cobrindo meus seios...
húmidos de amor ...que me doem ...numa mansa dor...
que sabe bem..que me traz temor...
Uma angústia breve...carícias de
candeia...
onde esta chama cresce e enleia..
E é calada...entregue... e fatigada..
que digo ainda...
Vem meu amor..!
Margarida Cimbolini
SAUDAR
Saudar
Saúdo as almas nuas
Essas que me vêem com os olhos prateados da lua cheia
E são sempre a meu lado sempre presença ..
Memórias vivas e feras estalam !
Sob os meus pés estalam de amor !
Nas minhas mãos respiram fantasia !
No meu coração brilham de dor...
Uma dor boa e quente ...
Respiro memórias de flor...
E sinto que riem os meus olhos de menina...
Loucos estes postigos do tempo ...
Onde sou folha seca...
ou aragem do vento...
Presa na ternura da infancia...
Semente da mulher que sou !
Ecoa em mim tudo..num som brando ...
Exigente !
Um som que me obriga a amar !
Que me torna humana..
É o som do tempo que faz de mim..
...gente !
Margarida Cimbolini
Essas que me vêem com os olhos prateados da lua cheia
E são sempre a meu lado sempre presença ..
Memórias vivas e feras estalam !
Sob os meus pés estalam de amor !
Nas minhas mãos respiram fantasia !
No meu coração brilham de dor...
Uma dor boa e quente ...
Respiro memórias de flor...
E sinto que riem os meus olhos de menina...
Loucos estes postigos do tempo ...
Onde sou folha seca...
ou aragem do vento...
Presa na ternura da infancia...
Semente da mulher que sou !
Ecoa em mim tudo..num som brando ...
Exigente !
Um som que me obriga a amar !
Que me torna humana..
É o som do tempo que faz de mim..
...gente !
Margarida Cimbolini
VEJAS BEM
Vejas bem
Gostei de ti
Como a borboleta gosta da luz
E o rio corre pro mar
Também eu me deixei amar !
Alma nua lábios.. de desejo..
As mãos vazias !
Louca doce e quente...
Dei- te os lábios a beijar...
Só isso..tão pouco e tanto !
Só o recado do vento..
A verdade nos olhos..
Na folha da noite à beira da lua..
fui eu como eu sou...
Sou do Amor nem minha nem tua !
Uma amante de Eros sempre !... aqui ....
numa estrela ou na rua ...
e nunca te esqueci !
Eu sou assim verdade demais !
Exagerada !
Sinto demais tudo ..nada pra mim pode ser tudo !
E deste sentir sou escrava...
Hoje soprou uma brisa a meu lado...suave almiscarada...
Lembrei - me meu amor....de nada ...!
E aqui te deixo esta minha breve e doce toada...
Se sentires o beijo muito leve ou se avistares no céu a
primeira das estrelas na alvorada...
Sou eu meu amor...
Não é nada...
Como a borboleta gosta da luz
E o rio corre pro mar
Também eu me deixei amar !
Alma nua lábios.. de desejo..
As mãos vazias !
Louca doce e quente...
Dei- te os lábios a beijar...
Só isso..tão pouco e tanto !
Só o recado do vento..
A verdade nos olhos..
Na folha da noite à beira da lua..
fui eu como eu sou...
Sou do Amor nem minha nem tua !
Uma amante de Eros sempre !... aqui ....
numa estrela ou na rua ...
e nunca te esqueci !
Eu sou assim verdade demais !
Exagerada !
Sinto demais tudo ..nada pra mim pode ser tudo !
E deste sentir sou escrava...
Hoje soprou uma brisa a meu lado...suave almiscarada...
Lembrei - me meu amor....de nada ...!
E aqui te deixo esta minha breve e doce toada...
Se sentires o beijo muito leve ou se avistares no céu a
primeira das estrelas na alvorada...
Sou eu meu amor...
Não é nada...
RECADO
o que mais gosto em ti
são as tuas mãos
e em cada uma o que mais gosto
são os dedos
e gosto dos dedos um por um
nos dedos o que mais gosto
é o gesto
e no gesto eu amo a tua carícia
são as tuas mãos
e em cada uma o que mais gosto
são os dedos
e gosto dos dedos um por um
nos dedos o que mais gosto
é o gesto
e no gesto eu amo a tua carícia
AMEIXOEIRA
ameixoeira
diz-me dessas palavras
com que embrulhas os rebuçados
diz-me essas palavras com que vendes bolas de sabão
dessas palavras gémeas e fecundas
que fazem tombar as romãs
e onde se albergam duendes
e onde os azuis se misturam
e as aranhas tecem suas teias
diz-me das palavras de cimento ....
..dessas com que constróis castelos e ameias
Eu sou a ameixoeira carregada de ameixas amarelas..
diz-me dessas palavras onde nascem janelas
Tenho longos ramos sumarentos de sois brilhantes e quentes
diz-me dessas palavras redondas e ágeis
que saltam os muros do conhecimento
que comem as pevides das abóboras meninas
Aqui no meu tronco há ninhos de melros..
diz-me essas palavras que falam do mar....
Diz-me...diz-me...ensina-me a falar...
.............depois a escrever......
Ensina-me essas palavras.....quero ser poeta !
com que embrulhas os rebuçados
diz-me essas palavras com que vendes bolas de sabão
dessas palavras gémeas e fecundas
que fazem tombar as romãs
e onde se albergam duendes
e onde os azuis se misturam
e as aranhas tecem suas teias
diz-me das palavras de cimento ....
..dessas com que constróis castelos e ameias
Eu sou a ameixoeira carregada de ameixas amarelas..
diz-me dessas palavras onde nascem janelas
Tenho longos ramos sumarentos de sois brilhantes e quentes
diz-me dessas palavras redondas e ágeis
que saltam os muros do conhecimento
que comem as pevides das abóboras meninas
Aqui no meu tronco há ninhos de melros..
diz-me essas palavras que falam do mar....
Diz-me...diz-me...ensina-me a falar...
.............depois a escrever......
Ensina-me essas palavras.....quero ser poeta !
Margarida Cimbolini
POVOS ...AS VIAGENS DE LOLA
POVOS
senhora dos ventos
verde de alfazema
anéis de gema
saciada
ventre pronto a sorrir
aguarda a deusa encantada
ainda a sua ninhada
está por vir..
verde de alfazema
anéis de gema
saciada
ventre pronto a sorrir
aguarda a deusa encantada
ainda a sua ninhada
está por vir..
sentidos despertos
manda embora o vento norte
torna-se o vento forte
Lola sente o chamado
é o rei o seu amado
que com marés renascidas
a chama eirá para seu lado
manda embora o vento norte
torna-se o vento forte
Lola sente o chamado
é o rei o seu amado
que com marés renascidas
a chama eirá para seu lado
Lola dança
mandando no seu gingado
com Eros no seu recado
seio solto ,,,cabelos em sopro,,
as ancas voam bailado
mandando no seu gingado
com Eros no seu recado
seio solto ,,,cabelos em sopro,,
as ancas voam bailado
as mãos erguidas contornam no ar
o mar neptuno chama-a irado
mas Lola vai viajar,,,,,resto do mundo
,,é seu lar
o tempo está do seu lado
o mar neptuno chama-a irado
mas Lola vai viajar,,,,,resto do mundo
,,é seu lar
o tempo está do seu lado
plissando seus desejos
desta vez os pés na terra
descalça ,,,,pés bem seguros
caminha Lola ,,,, nos olhos
parece estar deslizando ,,,,
desta vez os pés na terra
descalça ,,,,pés bem seguros
caminha Lola ,,,, nos olhos
parece estar deslizando ,,,,
adensa-se o nevoeiro
caem das luas sons novos
que ao cair criam povos
criam estes arrais
vem lobos com suas crias
vem homens e animais
vem rios e seus caudais
da terra sai ouro e prata
caem das luas sons novos
que ao cair criam povos
criam estes arrais
vem lobos com suas crias
vem homens e animais
vem rios e seus caudais
da terra sai ouro e prata
encosta abaixo vai Lola
tendo já feito legado
passou um tempo sem hora
deixou Lola o povoado...
tendo já feito legado
passou um tempo sem hora
deixou Lola o povoado...
margarida cimbolini
in Viagens de Lola,, /// tomo
quarta-feira, 2 de outubro de 2019
PASTOREIOS III
Pastoreios IIII
Gosto das minhas mãos !
Tanto que elas me fazem falta...
Com elas escrevo lavo ,limpo , corto e amanho..
sonhos e cerzires de tantos anos ...
Bordados que correm como cavalo sem freio
Sonhos onde me enleio...
em carícias em ralhos em entremeios !
E os meus olhos ! com eles é que eu leio...
Com meus olhos vejo o mundo..vejo o tempo...vejo o mar verde.. e tudo aquilo em que creio !
Amo os meus olhos !
E a boca com que beijo...e os pés que me levam no caminho...
e esta pele com que respiro..esta pele dura e doce..que me proteje onde me aninho...!
Gosto de ter corpo....
de andar ...de viver ! de amar !
E da alma que dizer...! que a amo que creio nela...
que faz de mim um ser ...
A alma...!!! sem ela gostaria de morrer !
Tanto que elas me fazem falta...
Com elas escrevo lavo ,limpo , corto e amanho..
sonhos e cerzires de tantos anos ...
Bordados que correm como cavalo sem freio
Sonhos onde me enleio...
em carícias em ralhos em entremeios !
E os meus olhos ! com eles é que eu leio...
Com meus olhos vejo o mundo..vejo o tempo...vejo o mar verde.. e tudo aquilo em que creio !
Amo os meus olhos !
E a boca com que beijo...e os pés que me levam no caminho...
e esta pele com que respiro..esta pele dura e doce..que me proteje onde me aninho...!
Gosto de ter corpo....
de andar ...de viver ! de amar !
E da alma que dizer...! que a amo que creio nela...
que faz de mim um ser ...
A alma...!!! sem ela gostaria de morrer !
Margarida Cimbolini
TRAGO
Trago
Trago a brisa do fim da tarde
aquela brisa que me brincou nos cabelos...
Trago os beijos que o Sol me deixou na pele
e o sal das ondas meninas..
Trago os lábios tintos das amoras
e os segredos das ondinas..
Trago braçadas de madressilvas..
e de Agosto trago o mosto fermentado..
Trago vinho !
Trago sangue !
Trago terra !
E trinados de pardais e sonhos de cotovias..
e pirilampos a brincar - me nas mãos ! Nas mãos adormecidas trago raios de lua !
Trago Setembro e venho nua.
Trago vermelho o coração...
E nos olhos de esperança trago o fim do Verão !
Na tarde madura em casulos de seda trago a massa de pão pronta e lêveda...
Venho no fio da vida ...
E de voz serena e erguida peço sempre e mais e mais renovação !
Por cada folha caída por cada flor crestada por cada hora perdida
peço semente crescida e troco vida gerada...
Vai o tempo correndo..
e tudo continua !
nada termina amanhã será outra vez ..alvorada !
aquela brisa que me brincou nos cabelos...
Trago os beijos que o Sol me deixou na pele
e o sal das ondas meninas..
Trago os lábios tintos das amoras
e os segredos das ondinas..
Trago braçadas de madressilvas..
e de Agosto trago o mosto fermentado..
Trago vinho !
Trago sangue !
Trago terra !
E trinados de pardais e sonhos de cotovias..
e pirilampos a brincar - me nas mãos ! Nas mãos adormecidas trago raios de lua !
Trago Setembro e venho nua.
Trago vermelho o coração...
E nos olhos de esperança trago o fim do Verão !
Na tarde madura em casulos de seda trago a massa de pão pronta e lêveda...
Venho no fio da vida ...
E de voz serena e erguida peço sempre e mais e mais renovação !
Por cada folha caída por cada flor crestada por cada hora perdida
peço semente crescida e troco vida gerada...
Vai o tempo correndo..
e tudo continua !
nada termina amanhã será outra vez ..alvorada !
Margarida Cimbolini
VORAZ
Voraz
Voraz é a fome de quem ama
voraz é a fome de beijos
é a sede de ardor na boca
Voraz é o gesto dos braços estendidos vazios das mãos abertas
dos dedos rotos de carinhos
Vorazes as veias dos corpos nus e sós.
enquanto decepados estão os desejos dos amantes..
Desertos sem oásis os dias passados ocos sem eco ... enquanto nas árvores nos ninhos os pássaros piam de amor !
Voraz é a fome e a sede das pernas cruzadas..mas quentes...
Galantes os pensamentos....correm na pele..
e molham a madeira do soalho que chia devagarinho como consolada..
voraz é a fome de beijos
é a sede de ardor na boca
Voraz é o gesto dos braços estendidos vazios das mãos abertas
dos dedos rotos de carinhos
Vorazes as veias dos corpos nus e sós.
enquanto decepados estão os desejos dos amantes..
Desertos sem oásis os dias passados ocos sem eco ... enquanto nas árvores nos ninhos os pássaros piam de amor !
Voraz é a fome e a sede das pernas cruzadas..mas quentes...
Galantes os pensamentos....correm na pele..
e molham a madeira do soalho que chia devagarinho como consolada..
Margarida Cimbolini
ASSIM
assim
soubesse eu do tempo
e das sombras de azul
do céu que nos cobria
e das sombras de azul
do céu que nos cobria
e teria escondido os olhos
e cortado as cavalgadas
da minha fantasia
e rasgado todos os véus
e cortado as cavalgadas
da minha fantasia
e rasgado todos os véus
em silêncio
e fechado o sonho
e sossegado a carne
teria sido perfume apenas
e som de gota
não.... revolta de mar
não grito de alma
não loucura ..sem dimensão
e som de gota
não.... revolta de mar
não grito de alma
não loucura ..sem dimensão
sim
invadi teu corpo com fome
mordisquei o teu alvo
sem travar os dentes
rocei as tuas memórias
invadi teu corpo com fome
mordisquei o teu alvo
sem travar os dentes
rocei as tuas memórias
mas nunca saberei
..........ser apenas doce
nunca serei apenas um passo
nunca serei o que não sou !
....nem na metáfora.....
....nem no gemido
..........ser apenas doce
nunca serei apenas um passo
nunca serei o que não sou !
....nem na metáfora.....
....nem no gemido
será sempre a noite a minha voz
e rouca e louca e brava e descabida..
........eu sou assim ...... e meu amor
apesar da lágrima caída
será sempre assim esta minha vida....
e rouca e louca e brava e descabida..
........eu sou assim ...... e meu amor
apesar da lágrima caída
será sempre assim esta minha vida....
PASTOREIOS
Pastoreios
Começo a despedir-me
....ainda agora anoiteceu
mas não canto a noite...
...neste meu canto o sol que canto será noite...
Pudesse eu suspender, inda que em sonho..
este canto... este curso de todo o tempo imperecível !
...e seria imortal.....
.....assim não quero recordar nem conhecer-me....
Serei sempre demais se olhar quem sou...
ou de menos se o ignorar !
Começo a despedir-me....
...tanto como eu vivo... vive a hora...
essa em que vivo.....igual e morta.....
Quando passa comigo ...que passo com ela...
....mas de que serve saber....se nada posso....
Melhor será a vida ......
.....esta que dura sem se medir.....
Dia após dia a vida é a mesma......
sendo o que sou ...ou nada sendo.....
......inexorável ...decorre....
Só quem vive uma vida em que se conhece..
...envelhece seja qual for a espécie onde vive !
Começo a despedir-me deste eu que aqui deixo....mas
sigo inteira para outro lugar onde também sou eu !
Forte esta minha cisma...em que quero tudo
... e não quero nada !
Só nestes lugares onde amo sou eu ! e no entanto
em parte alguma o fruto é bastante !
Começo a despedir-me e levo-me a mim e a tudo
o que aqui me acrescentou ...e foi tanto !
Frutos que colho ou deixo....vosso destino
é o mesmo ..!
Nada sou que valha.....
....Mas que o que fui ..ou seja.. não seja em vão !
....ainda agora anoiteceu
mas não canto a noite...
...neste meu canto o sol que canto será noite...
Pudesse eu suspender, inda que em sonho..
este canto... este curso de todo o tempo imperecível !
...e seria imortal.....
.....assim não quero recordar nem conhecer-me....
Serei sempre demais se olhar quem sou...
ou de menos se o ignorar !
Começo a despedir-me....
...tanto como eu vivo... vive a hora...
essa em que vivo.....igual e morta.....
Quando passa comigo ...que passo com ela...
....mas de que serve saber....se nada posso....
Melhor será a vida ......
.....esta que dura sem se medir.....
Dia após dia a vida é a mesma......
sendo o que sou ...ou nada sendo.....
......inexorável ...decorre....
Só quem vive uma vida em que se conhece..
...envelhece seja qual for a espécie onde vive !
Começo a despedir-me deste eu que aqui deixo....mas
sigo inteira para outro lugar onde também sou eu !
Forte esta minha cisma...em que quero tudo
... e não quero nada !
Só nestes lugares onde amo sou eu ! e no entanto
em parte alguma o fruto é bastante !
Começo a despedir-me e levo-me a mim e a tudo
o que aqui me acrescentou ...e foi tanto !
Frutos que colho ou deixo....vosso destino
é o mesmo ..!
Nada sou que valha.....
....Mas que o que fui ..ou seja.. não seja em vão !
Aqui.... cedo ou mais tarde eu sei que vou voltar ....
e tudo há-de ser assim belo mágico mas igual !
e tudo há-de ser assim belo mágico mas igual !
/arte Almada Negreiros /
ALÉM
Além
Naquele tempo os olhos alcançavam o horizonte...
Um horizonte sem barreiras...
Naquele tempo os beijos saltavam das árvores..
eram coisas vivas !
E eu gostava de ser irmã das margaridas ...
As margaridas cresciam nos campos semeadas pelo vento..
e nos canaviais assobiava um doce lamento...
Naquele tempo o tempo tinha tempo !
e choviam bênçãos...
Era o mar muito verde ...e a beleza escutava os brilhos ...
Era o céu e a terra era o Sol e a Lua..
A festa da natureza era simples clara e nua !
Naquele tempo era o amor..
os dias corriam satisfeitos..
as noites quentes brandas cobriam a terra de alvura !
A manhã crescia no orvalho..a tarde era um alento...que esperava a noite e a àgua límpida e pura ..!
Naquele tempo dormia sobre o teu corpo..
e se voasses voava contigo..maresia afora..
Naquele tempo era macia a rocha que agora é dura..
Aquele tempo está além...está perto é o agora é o momento...
É o tempo onde o amor ainda vive e perdura..
Um horizonte sem barreiras...
Naquele tempo os beijos saltavam das árvores..
eram coisas vivas !
E eu gostava de ser irmã das margaridas ...
As margaridas cresciam nos campos semeadas pelo vento..
e nos canaviais assobiava um doce lamento...
Naquele tempo o tempo tinha tempo !
e choviam bênçãos...
Era o mar muito verde ...e a beleza escutava os brilhos ...
Era o céu e a terra era o Sol e a Lua..
A festa da natureza era simples clara e nua !
Naquele tempo era o amor..
os dias corriam satisfeitos..
as noites quentes brandas cobriam a terra de alvura !
A manhã crescia no orvalho..a tarde era um alento...que esperava a noite e a àgua límpida e pura ..!
Naquele tempo dormia sobre o teu corpo..
e se voasses voava contigo..maresia afora..
Naquele tempo era macia a rocha que agora é dura..
Aquele tempo está além...está perto é o agora é o momento...
É o tempo onde o amor ainda vive e perdura..
Margarida Cimbolini
PASTOREIOS AZUIS
Pastoreios Azuis
Gostava de guardar a saudade num potezinho...
para abrir de vez em quando
e sentir o teu cheiro
Queria poder meter os dedos no meio
e cheirar quando o dia ficasse cinzento e feio !
Queria muito ver de novo o teu olhar
O teu olhar era verde..
cor de rio..cor de mar..
Às vezes ficava azul..muito azul !
E castanho quando me beijavas...
na sombra serena do meu olhar..
Queria a tua mão na minha..
menino e menina !
A brincar...
Gostava de ter a tua saudade nas mãos ..para te cheirar..
para abrir de vez em quando
e sentir o teu cheiro
Queria poder meter os dedos no meio
e cheirar quando o dia ficasse cinzento e feio !
Queria muito ver de novo o teu olhar
O teu olhar era verde..
cor de rio..cor de mar..
Às vezes ficava azul..muito azul !
E castanho quando me beijavas...
na sombra serena do meu olhar..
Queria a tua mão na minha..
menino e menina !
A brincar...
Gostava de ter a tua saudade nas mãos ..para te cheirar..
Margarida Cimbolinj
QUANDO FUI VERSO
Quando fui verso
decantava a palavra...
decantava a palavra...
ia ao íntimo da letra
alimentava os olhos de amor
e muitas vezes sonhava - me poesia..
Quando fui ave poisava na nuvem mais azul
e chovia em trovoadas...
Quando fui verso temia a morte..
fugia de ter eu..
Mas o verso é egoista !
A poesia é exigente !
As aves querem -se em bandos..
e as nuvens tornaram -se breves..
Agora escolhi ser gente !
Mas continuo a temer a morte..
alimentava os olhos de amor
e muitas vezes sonhava - me poesia..
Quando fui ave poisava na nuvem mais azul
e chovia em trovoadas...
Quando fui verso temia a morte..
fugia de ter eu..
Mas o verso é egoista !
A poesia é exigente !
As aves querem -se em bandos..
e as nuvens tornaram -se breves..
Agora escolhi ser gente !
Mas continuo a temer a morte..
Margarida Cimbolini
SORVO
Sorvo
sorvo o ar em grandes haustos
como se fosse eu o dia
e o Sol e a Lua fossem meus
e brilhassem só para minha alegria
engulo os mares
saboreio o tempo
e pelo tempo sou erguida..
Fincando os pés na terra nua...
..
pequena e doce formiga
vivo e sonho
tecendo teias e redes
onde me enrolo
e pareço vestida...
Mas nua me sinto em face da mais débil espiga !
Em baixo a terra negra e brava respira...
Em cima o céu louco chove lava...
No meio estou eu apenas nada..
com esta forma velha e cerzida...
Sinto e respiro o enorme milagre da vida ..
como se fosse eu o dia
e o Sol e a Lua fossem meus
e brilhassem só para minha alegria
engulo os mares
saboreio o tempo
e pelo tempo sou erguida..
Fincando os pés na terra nua...
..
pequena e doce formiga
vivo e sonho
tecendo teias e redes
onde me enrolo
e pareço vestida...
Mas nua me sinto em face da mais débil espiga !
Em baixo a terra negra e brava respira...
Em cima o céu louco chove lava...
No meio estou eu apenas nada..
com esta forma velha e cerzida...
Sinto e respiro o enorme milagre da vida ..
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