quarta-feira, 2 de outubro de 2019

PASTOREIOS

Pastoreios
Começo a despedir-me
....ainda agora anoiteceu
mas não canto a noite...
...neste meu canto o sol que canto será noite...
Pudesse eu suspender, inda que em sonho..
este canto... este curso de todo o tempo imperecível !
...e seria imortal.....
.....assim não quero recordar nem conhecer-me....
Serei sempre demais se olhar quem sou...
ou de menos se o ignorar !
Começo a despedir-me....
...tanto como eu vivo... vive a hora...
essa em que vivo.....igual e morta.....
Quando passa comigo ...que passo com ela...
....mas de que serve saber....se nada posso....
Melhor será a vida ......
.....esta que dura sem se medir.....
Dia após dia a vida é a mesma......
sendo o que sou ...ou nada sendo.....
......inexorável ...decorre....
Só quem vive uma vida em que se conhece..
...envelhece seja qual for a espécie onde vive !
Começo a despedir-me deste eu que aqui deixo....mas
sigo inteira para outro lugar onde também sou eu !
Forte esta minha cisma...em que quero tudo
... e não quero nada !
Só nestes lugares onde amo sou eu ! e no entanto
em parte alguma o fruto é bastante !
Começo a despedir-me e levo-me a mim e a tudo
o que aqui me acrescentou ...e foi tanto !
Frutos que colho ou deixo....vosso destino
é o mesmo ..!
Nada sou que valha.....
....Mas que o que fui ..ou seja.. não seja em vão !
Aqui.... cedo ou mais tarde eu sei que vou voltar ....
e tudo há-de ser assim belo mágico mas igual !
/arte Almada Negreiros /