sexta-feira, 18 de outubro de 2019

SER POETA
DUETOS DORDIANOS
Poeta de tempos antigos, das folhas velhas e gastas, com um branco amarelado percorrido por uma tinta que falha tantas vezes como a minha memória… Parece que sou poeta. Dos muito antigos. Daqueles que carregam folhas rasgadas pelas histórias tristes arrastadas por mágoas que o amarelo das folhas recolhe metodicamente. Parece que sou poeta. Daqueles com os bolsos cheios de canetas para atirar como dardos de tinta. Provavelmente, será essa a razão para as letras aparecerem sempre tão tortas. Como a minha memória…
Poeta dos tempos de antigamente, cavaleiro e guerreiro, conquistador e samurai, sem me render ao corpo, ao tempo, à saudade…
As escadas levavam a mais uma casa antiga e todo o amarelo das folhas e o preto ou azul da tinta descreviam o seu interior. Desta vez a casa antiga era uma nova paixão. E o piso estava escorregadio, como de costume. O poeta do antigamente avançou devagar e o tempo acabou por lhe dar apenas mais uma vida para escrever…o poeta ...escarneço do poeta ! Escarneço de mim quando me penso poeta....eu não sei se sou poeta.....
As letras entram.me na boca... sobem pelas pernas enredam-me o andar escorregam nas maõs formam poças de água que parecem pequenos lagos onde os pontos as virgulas as interrogações são peixes que gritam e escarnecem de mim....poeta !! ...poeta!! ...poeta..!.. gritam elas constantemente em escárnio....têm vozes agudas....os pontos finais esses são graves POETA sua POETA …..SUA POETA !!!!!!!
ISSO RIAM DE MIM …..deixem me.... larguem..... então zangadas a sério formam palavras.
Formam cordas de palavras cordas grossa e compridas amarram-me os pés tapam-me a boca ….ensurdecem-me as malditas …
Ficas com mãos e olhos e agora escreve....escreve não ouves....... escreve.... ESCREVA SUA POETA....quase em pânico eu escrevo …..mas será que as letras e as palavras sabem ler...pergunto-me !
Olho em volta o meu olhar repousa nas fotos nos livros ...nas peças antigas e belas nas madeiras dos moveis....o meu olhar alonga –se espraia-se além da janelas ...pelos campos pendura-se nas árvores o meu olhar lambuza-se de verde ...sigo agora o voo de uma libélula
..começo a encher-me de amor esqueço as palavras ..as letras as virgula e os pontos finais esqueço o medo as memórias o passado....sinto-me estranhamente em PAZ.....e sem querer escrevo a mais nobre a mais bela de todas as palavras aquela que me dá vida e me torna humana e soletro ...p..o..e..t....a.... curvo a cabeça e sobre o papel adormeço extenuada mas a sorrir.