terça-feira, 26 de maio de 2020

HUMOR DE SANGUE

Humor de sangue

sim recorda-me prateada
sem idade e sem tempo
ladainha interrompida
melopeia do vento
quase entorpecida
quase rumo ...quase alento
asas rasgadas
esta voz rouca
este olhar sedento
esta fome de amar
este andar pausado e lento
de quem prefere voar
de quem não percebe o tempo
de quem teme tudo
sem verdade desconhecida
nem mentira crescida
neste suor prateado sou eu
aquela que passeia na noite 
receando a chuva
receando tudo
vendo as máscaras das pessoas
palpando seus fogos- fátuos
em mágoas toda inteira
recebendo tudo sem peneira
e recuando para dentro
tão frágil sem minha ameia
que em humor de sangue semeia
nesgas de húmus pela terra inteira
em castelos de muito sofrimento

Margarida Cimbolini

DO SUL

Do sul

......... as mulheres  vinham a cantar
Tombavam
do céu liquidos azuis
E os algodoeiros vestiam - se 
de branco
Toda a natureza amava !
Na noite reinava a lua...
....e eu feito ....criança ....brincava
 espalhando lenços de cambraia
....... leves como pombas
nas asas do panalto..
ria ..vendo como voavam !
Ria de não sentir a barreira e o peso do corpo !
Tudo era eu estava em tudo ! e não queria nada...
Em baixo mexiam -se figuras de barro !
E nas dobras do tempo....
senti o cheiro acre da terra...
...dos homens e dos animais !
Amei as suas palavras ! os seus gestos...
E voei mais alto!
a debruar de azul e de paz a alma..
enquanto ouvia os cânticos que vinham do Sul...

Margarida Cimbolini

ESCREVER

Escrever

Escrever o destino dos pássaros
O murmurio dos rios
Escrever as canções do mar...
Voar entre montanhas e arco íris...
Voas nas árvores de folhas mansas !
Por entre estrelas dobrar o cabo da esperança..
Rever dragões fadas e duendes numa fraga...na memória dos meus planaltos..
Nos sítios onde poisei deixar sementes ..filhos que sem saberem me continuam..
Não revogar nada ..encontrar Deus numa esquina e cantar a alma e a utopia..
Escrever o verde da acácia  o adejar do cisne...escrever a beleza do pavão...
Na mão estendida do mendigo deixar a fome de poesia...e no poeta escrever a sede do mendigo !
Voar no mundo sem barreiras sem corpo sem peso sem tempo ignorar tempestades e ventos !
Escrever...escrever sempre mais e sempre mais alto...
No rastejar das cobras no ronco dos mostrengos na pureza das pálpebras tamisadas de longas pestanas...aí onde o sonho se torna livre....
Escrever o som do saxofone...o repicar dos pardais e das cidades grande escrever o silêncio feito vida !
Escrever o mundo todo numa palavra tão doce que ninguém havia de a saber pronunciar...
Escrever numa língua desconhecida cheia de sons claros como imagens dentro das pessoas ...
Escrever o cheiro da urze ...o perfume do ser que nasce e chora !
O perfume de entes amados e antigos..o perfume do pó que tinham na pele...
Escrever a pele lisa e enrrugada ...o pergaminho dos livros velhos gastos e mil vezes lidos...
Escrever a palavra que nunca foi escrita....o abalrroar dos barcos naufragados...
Escrever o medo a saudade e a cor da amora colhida e esmagada....
Escrever-me a mim corpo coração e alma a mim creatura agora mulher outrossim planície  ...escrever-me  no céu na terra nos mares nos oceanos e nas marés  como o grão de areia se escreve na pégada da historia...
Escrever na pégada da herança mais leve....do destino mais breve e mais longo...
Escrever nos pingos da chuva as veias cheias de luar...

Margarida Cimbolini

/arte Salvador Dali /

BRAÇOS ESTENDIDOS

Braços estendidos 

Baixo os braços devagar...
Cansada de os ter erguidos !
Largo a roda do leme...
O barco não fica à deriva....
Acautela o mar aquele que rema...
Conhece a brisa o meu remar...
Sabe o vento o meu sentir...
Baixo os braços devagar...
mas a rota é ainda ir !
Descanso no ombro do amar...
cansada de não sorrir...
Baixo os braços devagar...
cansada de os ter erguidos !
Os meus braços de abraçar....
não conseguem estar caídos...
Baixo os braços devagar...
Eles estão agora estendidos ...

Margarida Cimbolini

O TEMPO

O tempo

Os sonhos alteram -se
Os dias tornam-se mudos
Pesa a solidão e o silêncio 
A singularidade acentua-se
Adentra - se a fé 
quase imposta pelo tempo..
Meses de céu duro adoçado pelo alongar das tardes....
Foi uma estranha Primavera...
Floriu no medo roçando a insanidade...
Mudaram-se os  gestos...
na paralesia dos afectos.!
Nasceu a fome de beijos ....
e é maior a fome dos povos...
O mundo todo inteiro olhou o fundo...
viu a morte anunciada...
Pobre e indefeso mundo....
Que  descobre a letra que lê finalmente a palavra....
Nas ruas reina o vagabundo....
O peregrino olha de longe a estrada.....
Doente estava já o mundo....
Bateram sinos na alvorada !
E o tempo continua....quedo e sossegado..
Seguem as estações o seu rumo....
Inexorável tempo sem começo e sem fundo...
Guarda-se dele a memória...
Hoje e agora os dias fazem história...

Margarida Cimbolini

ENCONTRO

Encontros

As mãos tocam-se
Roçam apenas  num roçar breve...
Os lábios beijam num beijo doce... leve...
Gaivotas que voam..
rasando a maré 
adoçando a espuma...
Festival de brancura...a minha mão na tua !
Um carinho novo... tímido.... neste Outono da vida 
talvez por isso ...
é mel em cortiço  !

Um fogo ateado...
....quente afago...
neste roçar vago...à beira do mar !

E tanto amor pr'a dar.... 

Nasce mais um beijo receoso...
O tempo corre duro mas é sempre tempo de amar...
A pele encontra-se nua...os olhos acesos....
Nasce uma flor...
e cantamos a lua..!

Esperar uma outra Primavera  ..
nunca será tarde quando o coração arde...e o Sol brincando  nos ilumina e nos cresta ...

Chegam o cucos vêm com o Verão...
Ouço os meus poetas.... 
e dou - te poesia...

No mar a água está  mais pura olho no espelho...
e vejo  uma rosa...

Olho na vida e sinto alegria...!

Margarida Cimbolini

quinta-feira, 14 de maio de 2020

AGORA

Agora 

Agora sim !
Agora sim !
Sei que sou poeta !
E porquê  !
Porque grito pelo mundo ! Porque tremo dentro ! 
Tremo rezo e padeço  !
Dum tremor denso e profundo !
Tremo por dentro cada dia ! De um temer fundo !
Em cima da mesa está o mundo !
No meio estou eu e dói de tão real !
É verdade !amanhã é o momento !
Hei ! Há que acordar !
Ou dormir num dormir de animal !
Ou fujir cobarde e carnal ! Ou rir !
0 sarcasmo é sempre um atalho !
Talvez o mais dorido o mais fatal !
Quem ri  de si mesmo aligeira  o perigo e transforma o amor em abrigo entre lençóis na carícia do castigo entre o prazer não do amor mas do umbigo !
Quem me dera  ver esse umbigo !
Redenção!
Mas eu não tenho umbigo tenho coração eu tenho um postigo !
Onde a dor me bate á porta sem perdão  !
E por isso vos digo !
Perdões para as portas sem batentes pois nelas não bate o coração  !

Margarida Cimbolini

LOBA

Loba

eu sou filha de uma loba
e estou prenhe de um regato
vivo detrás  do tempo
a minha rosa é o cacto

Vem comigo pastorinho
agarra a minha mão 
vês  como é  bom guardar gado
e ter na vida um irmão 
e haver erva nos pastos
e ver.mos os dois a lua

eu desaguo meu regato

com a minha mão na tua...

e naquela árvore  antiga
gravados foram sentidos
anda comigo pastor
à  minha beira sentir...
...é  com nascer de novo

Leva um cravo na lapela
e um sonho uma visão 
hás.de ser tu caravela
e hei.de eu ser gavião 

Vem comigo meu pastor
há- de haver erva no prado
e nosso sentir é  irmão 
mas cuidado meu pastor
agarra bem minha mão. 

 Margarida Cimbolini

MAR DE MURO

Muros

Tão altos estes muros onde me vejo
que nem o Sol nem a Lua nem as sombras
mostram por trás deles estrada caminho ou rua
sítio onde me possa perder
Sem portas e sem janelas e lá fora tanto que fazer......
E fui eu quem os teceu..........
Cavalgando no acaso a carne solta por aí
Ali acordei .....além adormeci...
Espessos muros de pedra e cal e fui eu que os teci
Dia a dia ,,,meses ,,e já lá vão anos.......
Eis-me agora bem emparedada..mas não escolhi
Corro á boca do poema...corre sempre esta pena....
.......mas cresci.....
E hei-de voar tão alto em alma.. em corpo... em açucena..
que saltarei estes muros que não ouvi......
assim seja comigo a força plena..........
que me fez coco e me deu água e casca e tema
..... e a este deserto sobrevivi.......
Margarida Cimbolini

GOSTO

gosto

gosto das entranhas
... do poeta
das mãos  nuas
escavando a terra
das raízes suando
de amor.... 
gosto da semente
lançada 
quando ela é o verso
... da alma
gosto da poesia 
que posso comer

Margarida  Cimbolini

AMANTES SEM ROSTO

Amantes sem rosto

Abraço te
 meu amor
Amordaçada pelo medo pela ternura
Pelo desejo...
Desejo- te.
Como o rio deseja o mar
Como o Sol deseja a lua..
Também eu te quero..
Cada vez mais branca...
Mais despojada  !
Mais nua !
Não quero mais nada ...
quando desejo ser tua..
Quero prazer quero estar nua !
E na rua !
Sem mim ..decepada !
Morrer como a lua !
No centro do Sol !
Meu amor ! minha vida minha quentura..
A minha ternura corre e nasce cada dia mais e maior !
Mais densa mais pura !
Espero por ti feliz mas amordaçada  !
E com mordaça eu não sei nada !
Sou livre ! Cada vez mais livre !
Pois nada me contém...
Cada dia mais pequena...
guardo em mim o cheiro a alfazema ..
E um pouco cada dia arrecado a voz do meu país  !
A voz do do futuro !
A voz de ti !
Guardo
 a foz dos rios ..
A emoção do mar !
As vozes dos meus poetas !
É a minha forma de amar !
Mas preciso de ti !
Não vivo sem paixão.....
ou vivo amputada !
Vem...de cabeça calada...
Sem rosto sem perdão  sem nada !
Hoje ou nunca !
Amanhã ou depois !
Este tempo já não vale nada !
A incerteza está viva ...nunca acaba !
Amor de papoula..amor de fruta madura !
Amor agora para sempre ! 
A vida dura pouco ou  é raza !
Vem e cala a escalada..
Margarida Cimbolini

OLHAR O INFINITO

Olhar o infinito

Com um olhar magoado
Com um olhar assustado
Cada manhã eu fico no silêncio 
a vislubrar o infinito !
As pestanas tremem..
nas pálpebras fechadas..
É uma espera..onde não espero nada !
Um vazio na morte anunciada ..
Sigo um rasto de luz na solidão povoada..
Não fujo...não corro..
Caminho por dentro quieta calada..
Impotente no coração doce ..na boca amarga !
Está escuro o tempo...
na consciência iluminada..
Não controlo o vento..não controlo nada !
Olho o infinito..espero..
Guardo o silêncio  ..nas veias sinto o sangue !
Na pele...em cada poro transpiro..
a morte..
Uma morte anunciada..

Margarida Cimbolini

O LOBO

o lobo

era já noite ....noite fechada 
e o lobo gemia alvorada
louco ....louco de cio
no planalto uivava
o lobo e a madrugada
mesmo há beirinha do rio

nas dobras do tempo era já tempo
de nascer a alvorada
e aquele lobo que uivava
perdera a âncora e a estrada
e na alcateia assombrava
marinheiros do seu navio

sem consolo mexia o mato
erguia o longo olfacto
e de pelo reluzente
mais parecia ouro fulgente
que marinheiro sem pavio

e bem perto da alvorada
o lobo que o rio negava
sem âncora sem pavio sem nada
que á alma não chegava
a quem a terra tirara
a femêa ,o seio .....a jornada
o lobo tranzido de frio
mandou embora a jangada
......e fez-se ao fundo do rio......

Margarida Cimbolini

LEMBRAS-TE ?

Lembras -te? 

Lembras -te? 
Quando os nosso lábios se encontravam..
quando misturadas as nossas línguas
Parava o tempo! 
Queriamos mais e mais
um nunca acabar de línguas..
a que nós dávamos corpo
Tudo em nós vivia de novo! 
Surgia um vácuo
tão cheio que transbordavamos de amor....
Queriamos muito! 
Aí eu não sabia quem tu eras..
Singulares num plural feito Universo..
nada era nossa pertença! 
Raças..cor..rótulos..
Verdades ou mentiras...
Quem pensava nisso!? 
Nasceriam flores dos ciprestes..
e dos vais vem das aves..sairiam planaltos
E se caíssem panos azuis dos céus..
E das virgens nascessem poldros alados...
Qual de nós daria por isso? 
Um e o outro desapareciamos....

Isso não esqueces te nem eu esqueço.....

Talvez nunca mais nos encontremos...

Mas perdemos uma coisa maior do que nós! 

Margarida Cimbolini

ÁVIDA

Ávida 

Voraz mergulho na poesia
Nado nos entremeios do mar
Molhada de poesia 
Ignoro as barreiras de cimento
No meu vôo sou brisa ao sabor do vento
Poesia é vida !
Subo e desço neste louco movimento ..
Na fímbria do meu vestido
...gravei..teu nome .
Poesia é alimento !

Margarida Cimbolini

FAGULHAS NA MANHÃ

FAGULHAS DA MANHÃ

paridas nas noite
amanhecem
as fagulhas da manhã
noite que nunca dorme
cada dia amanhece
mais cansada
vida que parece
não ser vida amarrada
os sonhos acabaram de partir
o corpo estremece
transparente de denso
tensas ficam as pétalas
da flor colhida
amanhecem as fagulhas
na manhã mal erguida
soam como sombras
passam como passos
ilusão sombria
os sons são os farrapos
da manhã vazia

Margarida Cimbolini

EU DE MIM

eu de mim

não não sou
não sou essa que geme
na beira da estrada
nem a outra em solidão
nem a que corre na noite
procurando cama e razão
não sou a que reza
nem a que pede perdão
não sou planta carnívora
esperando alimento
 eu
preciso de pele...muita pele
e cada vez a tenho mais fina
preciso untá-la bem
para que não se rompa
preciso de mais camadas de mim
para festejar com pompa
preciso de pele
camuflagem orgânica como o diamante
para que me deixem ser eu
para revestir o feto que eu sou
preciso untar meu corpo
para que seja noz,,cacto,,
pacto de mim comigo
para poder viver
para que não me toquem
por leviandade ou por castigo
preciso de esconder o meu pudor de existir
para estar só comigo
preciso de me banhar na lama
preciso de um poema por hora
de poisar sem demora
de legar o sonho 
de um poema por hora 
para quando o vento bate
para quando o céu chora
para fugir da mente
para evitar a gente
que a minha pele ......
.......sozinha não cobre...... mas sente.....

Margarida Cimbolini

´´

NA NOITE

Na noite

Caía a noite
Uma noite de Verão
Doce e quente

.Voavam sonhos.

Vem sempre a bonança
depois da tormenta.

Havia ainda escolhos
Restos da tempestade.

Mas claro era o sorriso
Daquele fim de tarde .

Ouvia -se ao longe o mar! 

Ouvidos há que ouvem sempre o mar..
por longe qu,ele esteja l

Sempre a maré mareja
a quem o mar deseja
a quem o sabe amar...

História de marinheiro está que vou contar....
Um homem um barco
dois remos...
Uma vida a naufragar! 

Falo do Zé marinheiro
e do amor..
Do amor feito criança
que juntou Maria e a esperança..
de sempre sonhar...

Mas o mar é ciumento
Pode ser quente amoroso..
Ou altaneiro formoso
Vaidoso da sua espuma
cioso..exigente ...arrogante ,impaciente !

A maré a desejar! 

Dois destinos duas almas..
Que nasceram na praia
Viveram na areia
É à sombra de um barco
Aprenderam a amar

E assim correram os dias os anos..
O tempo não pára
Corteja. ampara,,,proteje.. Mas nem sempre o tempo rege! 

A vida é vaga serena mas volta, volteia no ar.. 

E um dia o Zé saiu e não voltou do mar

Na praia ficou  Maria
E toda a noite... sempre que a noite caía
na tempestade a passar! 

Beijava a saudade a Maria....

Más mesmo assim amava.... com toda a sua dor... amava a Maria... 
.....o mar! 

Margarida Cimbolini

HUMOR DE SANGUE

Humor de sangue

sim recorda-me prateada
sem idade e sem tempo
ladainha interrompida
melopeia do vento
quase entorpecida
quase rumo ...quase alento
asas rasgadas
esta voz rouca
este olhar sedento
esta fome de amar
este andar pausado e lento
de quem prefere voar
de quem não percebe o tempo
de quem teme tudo
sem verdade desconhecida
nem mentira crescida
neste suor prateado sou eu
aquela que passeia na noite 
receando a chuva
receando tudo
vendo as máscaras das pessoas
palpando seus fogos- fátuos
em mágoas toda inteira
recebendo tudo sem peneira
e recuando para dentro
tão frágil sem minha ameia
que em humor de sangue semeia
nesgas de húmus pela terra inteira
em castelos de muito sofrimento

Margarida Cimbolini

DO SUL....

Do sul

......... as mulheres  vinham a cantar
Tombavam
do céu liquidos azuis
E os algodoeiros vestiam - se 
de branco
Toda a natureza amava !
Na noite reinava a lua...
....e eu feito ....criança ....brincava
 espalhando lenços de cambraia
....... leves como pombas
nas asas do panalto..
ria ..vendo como voavam !
Ria de não sentir a barreira e o peso do corpo !
Tudo era eu estava em tudo ! e não queria nada...
Em baixo mexiam -se figuras de barro !
E nas dobras do tempo....
senti o cheiro acre da terra...
...dos homens e dos animais !
Amei as suas palavras ! os seus gestos...
E voei mais alto!
a debruar de azul e de paz a alma..
enquanto ouvia os cânticos que vinham do Sul...

Margarida Cimbolini