quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

EU

Eu
Eu serei como a água que corre entre as pedras
nunca saberei o meu destino
Correrei para o mar
como a estrela corre no céu
e o amor corre nas caricias dos amantes
Será meu o rumo dos pássaros
migrarei como as estações no tempo
farei casulos nas Eras
Terei um filho em cada século
mas nunca um ser humano será meu
,,Anima sola,,, entre labaredas
para sempre serei vitima do pecado original
conjurando espíritos e demónios
.Ignorante gerarei ignorância.
Mulher no meu ir de hoje violarei pactos e conceitos
,,sujeita a tudo,, tudo limparei de mim
e aquele que me quiser mal
terá consigo todas as minhas dores e as suas
alcançando-se depois de me alcançar
pois sou a água que corre entre as pedras
e não sei qual o meu destino
mas passarei nas águas do mar

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

O SONHO

O sonho
O deserto faz -me sonhar com enormes dunas incandescentes!
Com fogos fàtuos!
Com tempestades de areia! 
Tempestades de fogo!
Faíscas brilhantes nadas nos grãos do deserto !
Poros abertos de gentes escuras secas de água
com rugas fundas expressivas...
como as secas rugas do
pão..
como as rugas secas e nuas da areia
crestadas pelo Sol
O Sol implacável do deserto.
onde o sonho é apenas miragem..
Onde cabem as letras do meu nome
Cato ..
flor do deserto!
Flor que guarda a água!
Deserto faz -me sonhar com espinhos e com calor
E com amantes revoltos na areia.
Gemendo de amor

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

AS SOMBRAS

As sombras
as sombras ensandecem
as sombras jogam
descalças melificas e altivas
o seu poder é ilimitado
geram silêncios de prazer
incontornáveis
são infinitamente puras
roubam-me os sentidos
sinto-as nos pulsos
nos lábios
na língua
Em actos medievais
os pedidos são ordens
são sombras
não se reflectem
escorrem na agua
moldam-se
tornam húmidos os poros
destroem os medos
e amedrontam
atraem como um abismo
o circulo fecha-se em anéis de fogo
Deixei de ter sombra
sou sombra

Margarida Cimbolini

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

O BREU

O breu
era simultaneamente o punhal e o golpe
contido na pele estava seu acre perfume
Os seus passos diziam o meu nome
Vinha do escuro ele era o escuro 
A minha alma pingava claridade
uma claridade tão imparável como as marés
Só o amor cura às fraturas da alma..
E era amor essa claridade sem barreiras
no chão cresciam gotas de mel
a inundaram de calor o caminho de neve
Sem medo e sem frio mergulhei no amor.

PÃO

Pão
a poesia sinto-a em sépia
separo com cuidado a sua cor
lavo -a na boca
lambendo -a como
cadela que lambe a sua cria
quisera guarda -la no útero
arrepia -me sentir -me
frágil demais
e mesmo assim exagerada
pastoreio cada palavra
invento sinónimos
rasgo as fábulas
calco as serpentes
sibilinas e pérfidas
que me roubam o som
...que amo
ninguém nem a mentira
pode chamá.lá verdade
sem a ter trincado
e trincar este trinco
sem chave
tarefa de titãs
não se aprende
e nunca se sabé...

ENTRE SER

entre ser
entre ser coisa de nada
pé torto
corpo coberto de pele
corpo nu de toda a coisa
olhos piscos ignorantes
apanhando pirilampos
correr no caminho do outro
e bater a mão suada
todo o tempo em testa amarga
remoendo maldições
palma aqui palma ali
merda de coisa plana
sem fonte sem monte sem rama
vivendo a aplaudir
sem deitar o seixo ao rio
sem ser corda e sem ser fio
colando os cacos dos terços
colando os cacos dos versos
entre ser um pedaço
de ser a boiar á tona
entre ser coisa de nada
fazer parte da manada
antes d,isso quero ser eu
ser esta alma sofrendo
ser este corpo doendo
ser esta rota esta estrada
este caminho ermo e escuro onde sendo
................................................não sou nada..

SEMEIA ROSAS

semeia rosas
semeia rosas...não espinhos
menina de faces despidas
pois se rosas tu cultivas
se as tens no coração
o amor é teu padrinho
retira de ti tal negrura
tua mãe é a ternura
teu destino ser paixão
com penas fazes o ninho
teces rendas e brocados
e branca de neve pura
. é essa tua brandura.
semeia rosas não espinhos
nessa cama onde te deitas
.
não a tornes negra nem dura
quem espinhos semeia
.menina de faces despidas.
cedo ou tarde neles se deita
deixa teu rosto na alvura
que dentro de ti se espreita
.menina de faces nuas.
veste-.as hoje de luar
de faces nuas ao Sol
nem ele as consegue crestar
.não são teus esses espinhos.
tu tens rosas de toucar
semeia no teu caminho
.....o amor a caminhar.....
a cor que te luz nos olhos
esse coração de carinho
a música que ouves dentro
e que te deixa sonhar...
meninas de faces nuas,,,
,,,,os espinhos que os semeie
........quem neles se for magoar.....

A SUL

A sul
A Sul das minhas mãos encontro ocidentes
Universos de metáforas
Olhares mansos,,,tão serenos..
Nem a avidez dos desejos....nem a crueldade do poeta
Nem o sussurro do mar..conseguem penetrar
,,,esta linha recta
E encontra -se o olhar
Nas retinas fulgem as lutas as ânsias os sonhos
Cantam as noites em madrugadas
Cavam-se eternas olheiras
São mitos e sereias
São ondinas musos e escravas
As tagides de outras eras
Os mundos
As vidas
As longas esperas
São os eus mascarados de emoções
Somos nós os filhos de Camões
São as essências retiradas das pedras
,,,,que encontro a Sul das minhas mãos...
É enterro nesta terra que ,,,tinto de vermelho
Toda minha fragilidade que estendo ao Sol..
,,,como mísero escaravelho...

MARIA BRUMA (em jeito de canção)

Maria Bruma (em jeito de canção )
ai Maria Bruma
que escondes além ?
escondes-te na penumbra
escondeste de quem ?
a Bruma és tu
a Bruma te tem
oh Bruma Maria..
não escondas também
....a tua alegria
uma moura princesa
te espera na bruma
ai Maria Bruma
não há moura nenhuma!
a Maria Bruma vestiu-se de verde
e nasceu o dia
Vi um pintarroxo na tua janela
ai Bruma Maria,,,
não te debruces nela !
a Maria Bruma vestiu-se de azul
e nasceu a noite
e a moura princesa acendeu a vela
e nasceu a noite e o negro com ela
oh Maria Bruma.
que vês tu além?
vejo o Sol doirado e a ti também
a Maria Bruma vestiu-se de ouro
e o Sol d,ourou-o
Há sombra da terra a Maria Bruma
achou um tesouro
e espadas voaram e parou a guerra !
oh Maria Bruma..tu já és velhinha...
disse-lhe um besouro...e soltou-se a neblina..
foi embora a bruma...
a Maria Bruma levou nevoeiro
E os homens disseram é um aguaceiro.
....

QUISERA

quisera
quisera um olhar poisado no meu
tão manso e nobre
que mansa e nobre fosse eu
quisera uma mão na minha
dedos de água e de mel
tão suaves e tão doces
que me tirassem o fel
e uma alma branca e linda
altiva e liberta
que me contivesse nela
e a meu lado paralela
me conduzisse como o mar conduz a caravela

VEM

vem
eleva-me tão...tão docemente
como se d,uma pena se tratasse
e faz de mim pingo fulgente
de um amor ou de uma arte
vem... tu que a mim te prometes
em sonhos presságios de amor
solta teus olhos a Oeste
de longe sentirás este ardor
nem princesa nem sereia
nem rainha nem coros ou esplendor
ouvirás uma alma plebeia
e um chamamento ou uma dor
sou eu que te chamo baixinho
e trago no corpo calor
serei para ti rosmaninho
e hás-de sentir meu odor
estarei no luar de Dezembro
de arco e flecha na mão
espero madrugada dentro
para ouvir teu coração
Margarida Cimbolini

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

LAMENTO

lamento
por muito que ouça o vento
que escute o lamento do mar
maior é este lamento
que faço este coração guardar
vida porque me queres viva
se estou farta de viver
já estou a caminho da ida
mas a vida não quer saber !
a solidão entontece
e no meio de tanta gente
coitado de quem padece
da tortura desta mente
estou cansada de buscar
estou cansada de não ter
e eu que não quero amar
sem amor não sei viver
acho perdidos os dias
não enxergo o amanhã
numa destas manhãs frias
serei bago de romã
semente das noites que amo
sou ave na galho a poisar
há-de partir-se este ramo
estou cansada de buscar...

ENTRE SER

entre ser
entre ser coisa de nada
pé torto
corpo coberto de pele
corpo nu de toda a coisa
olhos piscos ignorantes
apanhando pirilampos
correr no caminho do outro
e bater a mão suada
todo o tempo em testa amarga
remoendo maldições
palma aqui palma ali
merda de coisa plana
sem fonte sem monte sem rama
vivendo a aplaudir
sem deitar o seixo ao rio
sem ser corda e sem ser fio
colando os cacos dos terços
colando os cacos dos versos
entre ser um pedaço
de ser a boiar á tona
entre ser coisa de nada
fazer parte da manada
antes d,isso quero ser eu
ser esta alma sofrendo
ser este corpo doendo
ser esta rota esta estrada
este caminho ermo e escuro onde sendo
................................................não sou nada..

PORQUÊ

porquê
sou mulher pelos pés ,pelas mãos,pelo meu coração de carne
pelo estômago cujos nós me aproximam da putrefacção da vida
escrevo com palavras,mas não se trata de palavras
. trata-se da duração do espírito.
quando me abano sinto essa crosta das palavras a cair
.mas não se imagine que a alma não está aí implicada.
ao lado do espírito há a vida...há o ser humano onde..
.....o espírito ..volteia....
as violentações com as palavras não são físicas
são flechas agudas e violentas como espadas
palavras ditas pela língua...
ou estará a língua privada de alma ?
e o espírito de língua..
não ......ou traçaria essa ruptura ......
....na planície dos sentidos um vasto sulco de desespero.
há que abandonar esse lampejo errante que se sente...
e que se torna um abismo...um abismo que nos separa do mundo
e esse sentimento de inutilidade tão grande que é o nó da morte..
será escusado dizerem-me que essa armadilha reside em mim
,,eu participo na vida,,represento a fatalidade que me elege e não...
não é possível que toda a vida do mundo me tome como ela
já que por sua própria natureza ela ...critica ,mordaz,,,,destrutiva
ameaça o princípio da vida.....
Assim o caminho é meu...deixem que viva a minha vida...

PESSOAS

Pessoas
Pessoas que em mim tocam
e que ficam
fazem parte de mim
tatuadas no meu coração
tantas vezes por elas
morri
egocêntricas memórias
que me beijam e me flagelam
por minhas mãos teço silícios
marcas indeléveis dentro de mim
romarias de eus
que tem morada aqui
nesta frágil existência
onde...cansada me anulo
fecho portas e janelas
mas como impedir a entrada
a quem vive dentro delas!

RESPOSTA

resposta
respondo a esse Sol
que tenta desnudar-me
pondo nos meus poros
a claridade do dia
recolho em mim
.essa outra luz .
que dentro me alumia
rogo a graça desse íntimo
.perfeito fulgor.
onde mergulho de olhos fechados
de onde saio cheia de amor
quero essa música sem som
esse sabor nunca olvidado
esse vai-vem tão suave
que torna o meu voo
ainda mais alto que o da ave
e ser assim tão pequenina
humilde serva da claridade
consiga eu ser palha fina
a passar na luz da eternidade

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

A BARCA

a barca
barca fulgente
bárbara barca
lagoa no mar ancorada
onde tudo cabe 
mal e bem marmoreados
turbilhões da humanidade
insanas fontes de cuja foz
brotam ninfas de almas nuas
clarões de fantásticas paixões
.infernos vis.
ou céus nunca antes inventados
tela de tambores ,preces, orações
pincéis vindos da eternidade
pintam com arte e com garra
a mais bela das telas desgraçada
por deuses dos infernos inspirada
barca de Dante
barca de infante afogada em emoções
temo por mim quando te vejo
quando em mim reconheço
o teu desejo
quando em mim te sinto mal desperta
e todo o meu corpo estremece
e meu coração se aperta
pois em mim sinto a tua infame beleza
e em mim revejo toda ,,,a do mundo,,,
toda a fealdade e incerteza
Margarida Cimbolini
A barca de Dante, de Eugène Delacroix, óleo sobre tela, 189 x 242 cm, 1822, Museu do Louvre

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

VAREANDO

vareando
deixo que o olhar se afunde
na tranquilidade das águas
é um olhar pesado e verde
.porque estará o mar tão tranquilo.
gosto quando a sua alma gesticula e geme
tirando pedaços ás rochas
roubando vidas que a ele se entregam
em reminiscências tão antigas
que as temo
conheço as aguas profundas tremendamente verdes
desse mar que agora se espraia no azul da calmaria
amo os seus profundos e viscosos verdes
feitos de grutas tão sem mistério como pequenos ninhos
onde estará a alma ,em que gruta ou âmago desconhecido
se anicha a alma desse oceano caprichoso e insolente
capaz de agitar a terra desfazendo-a em estilhaços
.sei que o faz por amor..
.porque outra razão o faria.
ou será a ardente lava que esconde debaixo do seu arenoso leito
que me faz medo.
miro mais uma vez a quietude desse mar mentiroso e cruel
encontro nele o espelho que procuro
quando em lacunas de lucidez anseio por mim
fervendo de emoções ,,tombando em desejos que não controlo
em chamas que não ateio
peregrina me torno desses caminhos
será nesses labirintos de corais e esferas
será aí nos covões de Neptuno
onde não penetra a luz do dia que encontrarei a minha luz...

BURRA

se calhar sou burra
se calhar é a morte que fica
e a vida que passa
se calhar viver é complicado
e morrer é muito simples
se calhar a alma é eterna
e a dúvida também
se calhar eu sei mas não sei
por isso sofro
se calhar eu brinco com as palavras
porque elas brincam comigo
e tenho a ilusão de que Deus omnipotente
está a ver o que eu faço e leva-me ao colo
se calhar sou que carrego ao colo um Deus pesado
Burra atravesso o rio com a minha carga de sal
e na outra margem fico sentada porque me doem as costas
Quando o sal se dissolve agradeço o milagre
se calhar vivo num deserto cheio de oásis
e estou sempre á procura de um camelo que me leve ao colo
.se calhar sou burra.

DANÇA

dança
dança comigo Maria,,
Joana tu perdida na vida
tu achada no beco
tu deitada na cama
suando no chão
tu pintando a pincel
esse ponto cruz
ou ponteando as meias
ou comendo feijão
ou Bemvinda de nome e sem coração
dança comigo Manel ,Artur ,joão
traz a canela tempera com açafrão
dança comigo pé no pé ,pé de irmão
queres liberdade ,,,dança comigo
e verás que não....
dança comigo minha voz de mel
meu cheiro de alecrim
meu doce corcel
minha mão de trigo
.de foice afiada.,
vem dançar comigo aí pela estrada.....