quarta-feira, 16 de março de 2016

DESPOJOS

despojos
colherei para mim rosas no asfalto
vou apanhar todo o seu perfume
e vou guardá-lo no peito
hei-de correr á chuva
e amar redonda e nua
num charco de luar
hei-de subir cada vez mais alto
e dentro ressoar
ressoar nos tambores da minha loucura
pois é a terra a minha altura
e do ar não se cai
trarei a urze da montanha
e anèmonas do mar
e a bagagem serei eu
nesta viagem singular
serei eu o lastro
o resto inútil de que me hei-de despojar
o eu que amo é este que escreve
é o não ser
é o amar e rir e sonhar é o que invento
são as minhas lonjuras
o olhar que nada vê permeável retina do tempo
que ergue montanhas em alvoroço
que espreme a vida até ao caroço
o resto é o lixo de ser humana e de ter voz
é o grito ..é este orgulho a arrogância da alvorada....
o clarim de uma solidão exagerada
é a doce condescendência com que me contemplo
hoje acordei já era noite e cada vez me ri mais do tempo....