quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

GELO

Gelo
Geme o pássaro de frio
Num sussurro de alarido
Vem bater-me há janela
..na esperança do meu sorriso
Não sei sorrir ...digo eu !
e espalmo a mão no vidro..
numa carícia de amigo !
dando-lhe o calor meu..
Esvoaça alardeado....
..com asas de quem não quer !
Colo os lábios na vidraça....
e o bafo de calor passa..
No parapeito palpita a ave que
me visita...
.....e fico triste aflita ......
.....sem saber como fazer......
como aquecer passarinho
......se ave não posso ser.....
nem posso tornar-me ninho ...
Margarida Cimbolini

E PORQUE ME PEDIRAM UM POEMA DE NATAL

E porque me pediram poemas de Natal
pois que viva assim rindo de mim
eterna noiva do cansaço
viúva de um ramo de alecrim
separada de ninguém por um abraço
e no meu caminho caminhando
construindo o meu altar numa amoreira
e do alto desse vista sobranceira
que colha meu olhar o que mais queira
e gulosas as amoras me cubram de vermelho
e as papoulas me embriaguem
dando ao deus baco seu doce cheiro
e seja minha espada a poesia
e na ceara quero pão e fantasia
um sorriso irónico no lábio
no coração a gargalhada da criança
e no mundo inteiro um poiso raro
feito de silêncio e alegria
rejeitando a vaidade e a ganância
sendo no fundo pequenina
apesar da timidez feita arrogância
e os meus clamores sejam de paz
e tenha o meu desejo sempre esperança
desejo vir a ser noiva da luz
ter no pé sapato de cristal e nos meus versos poesia
,,,,,que baste para cantar o meu Natal....
Margarida Cimbolini

Marulhos

Em marulhos
em sussurros
tenros de espanto
me perco e me acho constantemente
porque serei eu esta..assim ?
e não outra...
uma qualquer..
que viva e não se esconda ....
atrás de mim..sempre eu..
Esta nem nascida
nem criada
antes foz de nascente mouca
que fala e não se ouve
que na noite acende
os loucos olhos deslumbrados
perseguindo o infinito
e pernoita nos sonhos
assombrados
de todos os finitos.....
....paralelos impossíveis
onde chamo por ti
com pavor
desejando que não venhas
e te quero por perto
como se foras eu !
Margarida Cimbolini

MAIS

mais
mais ...mais e mais
mais vida ..mais luz ..mais amor
e toda a vida sofrida
lança este clamor
uma mão mais quente
um beijo mais fundo
e o mundo todo o mundo
espraiado aos meus pés
que por um segundo
eu seja mar e marés..
Margarida Cimbolini (in vida )

TERNURA

Ternura
a ternura escorrega no meu corpo como o sonho
é doce e macia
enche-me as mãos de alegria
e nos poros a nostalgia salpica-me de amor
a ternura é liquida e quente
sabe a sal
tempera a vida
ternos são os dedos
do outro lado do vidro sobre os meus
é isso o Natal !
essa ternura antiga
tão simples
afagos e sonhos
que se perpetuam
na verdade dos dias
aí moram os
Natais
Margarida Cimbolini

NAO ÁS MADRUGADAS

Não faças nascer as madrugadas

digo não há tua sombra
não faças nascer as madrugadas
elas enchem-se de sombras
quando te perseguem
não que sejam claras fulgentes
são brilhantes pingentes
de candeeiro apagado
que a luz faz brilhar e quando cai neve ficam frias
são grutas geladas
que aqueço com gargalhadas
ou onde escuto o silêncio da música
onde a tua ausência toca
fazendo os pingentes tilintar
ás vezes no escuro acendo o candeeiro
para ver o céu............ enxergo constelações
e fico a adivinhar as suas formas
zanga-se o luar ciumento dos meus olhos
e fecho os olhos a adivinhar-te
tão escuro no claro da memória
delineado ao sabor dos desejos....
Guardo-te em molduras de aço....
.....................nas de prata ponho a lua......
.....as tuas ficam cá fora nas pedras da rua
na rua onde caminhava bem cedo na manhã desconhecida
cheia de madrugadas....vazia como ocarina cansada de ser tocada
e feliz com a claridade deixada no tom da tua pele ...
Não faças nascer as madrugadas todas as noites há uma mesmo sem ti..
Margarida Cimbolini

TU

Tu
meu silêncio
timbrado de negro
meu brado
pedra de ninguém
eu minha vida
meu canto
minha sombra
Sol que não via
verdade e noite escura
onde o luar
não aluava
transparências de maresia
ou mar alto
que me vestia
teus olhos boca minha
onde não mentia
planalto ou planicie
eu ceara madura
milho rei
que destronava
e o vento.....e o vento....
que passou já cansado e lento
e nos destronou ...neste lamento..

NATAL

Natal
dia de grão e de seiva
hora de um dia só
onde perduro ainda
num balanço numa lua
nua rua onde nasci
apascento ainda os olhos
em memórias que me vêm
são meus olhos
...meus verdugos
do tempo que ainda têm
e o tempo de horas mortas
roga por mim horas vivas
diz por mim o que não digo
diz Dezembro diz amor
diz brilhos de alvorada
diz cheiros de alecrim
diz pássaros em revoada
dias de grão e de seiva
onde o Natal foi flôr
noiva que dele me senti
rogo-lhe agora abrigo
das horas onde vivi
e no tempo tem sentido
por aquilo que senti

CINZAS E BRAZAS

Cinzas e Brasas
As cinzas daquela lareira
ficaram comigo para sempre
Não em cinzas mas em brasas
num turbilhão de fogo mordente
A acender- me em fagulhas
num turbilhão de espumas de brilhos
Em desejo fremente
Em luz devastadora
contente
Em beleza
Em cordas
Em espadas
de abismo em abismo
descendo ladeiras
encendiando matas
num contentamento
descontente
Em ânsias em soluços
voando alto e eternamente
roubei dos céus
a semente
até que nos braços
ganhei asas
e num vôo raso
de serpente
nunca mais em mim
houve pranto ou chagas
apenas a solidão
só uma ave
que não sabe onde pertence
e voa perdida em busca da foz
num rio de gente
onde se afoga
e ressuscita
uma e outra vez
constantemente
Margarida Cimbolini

SEREI

Eu
Eu serei como a água que corre entre as pedras
nunca saberei o meu destino
Correrei para o mar
como a estrela corre no céu
e o amor corre nas caricias dos amantes
Será meu o rumo dos pássaros
migrarei como as estações no tempo
farei casulos nas Eras
Terei um filho em cada século
mas nunca um ser humano será meu
,,Anima sola,,, entre labaredas
para sempre serei vitima do pecado original
conjurando espíritos e demónios
.Ignorante gerarei ignorância.
Mulher no meu ir de hoje violarei pactos e conceitos
,,sujeita a tudo,, tudo limparei de mim
e aquele que me quiser mal
terá consigo todas as minhas dores e as suas
alcançando-se depois de me alcançar
pois sou a água que corre entre as pedras
e não sei qual o meu destino
mas passarei nas águas do mar
Margarida Cimbolini
Sedas e sóis
Sedas e sóis
caíram dos céus ..
Da espuma do mar...
saíram brocados...
Dissiparam-se nevoeiros....
De palhas nasceram linhos
Abriram-se portas no mundo
Cantaram povos inteiros...
Ergueu-se a Paz florida
Nasceram rosas nos canteiros....
Pra receber um menino....
Era o menino primeiro...
Deram-lhe as fadas um nome...
Não um nome de criança...
O meu menino é de oiro.....
E o seu nome é Esperança
Margarida Cimbolini

Vento NORTE



Vento norte
O vento norte chegou
com o seu húmido cheiro !
Inspirei longamente 
Gosto de cheiros
Indefinível..cacau e chili
O cheiro dos Incas..
...dos loucos dos viajantes...
Cheiro sem memórias..
Gosto de cheiros.
Gosto do meu cheiro
Não do cheiro a perfume
Cheiro a mulher
Gosto de bons cheiros
Do cheiro a rosmaninho....
....alecrim e do cheiro a maresia
Gosto do cheiro do tempo
Do cheiro do sonho.....
...e da alegria...
Gosto do cheiro dos homens..
...nimbados de nostalgia..
....e gosto do cheiro do desejo..
...quando o coração ri....
....gosto do cheiro da magia ! 
Gosto do cheiro da paixão nem
que se seja por um dia...
E do cheiro dos animais...
mais o odor da erva bravia...
Quando a chuva molha a terra...
quando o Sol doirado a esquenta ....
......e o luar alumia...
Gosto do cheiro que há no ar 
quando a madeira arde....
....e quando a semente se cria ! 
Mas o melhor dos cheiros é quando o poeta renasce.....
.....e alguém diz poesia !
Margarida Cimbolini

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

VIDA

vida
será a vida verdade
ou apenas ilusão e mentira
eu sou desalento
eternidade
de uma eterna saudade
da vida que julguei
ser vida
real só o sonho
só a utopia
chamar vida à falsidade
é inocência...fantasia
entre mim e essa vida tenho a grade
desta minha grata poesia
desta minh'alma só
desta beleza que brilha em desalento
desta luz que dentro
em mim cresce e brilha
e me aquece e alumia
Margarida Cimbolini

NÃO

Não
não há medo no amor
nem ogivas nos olhos das corujas
não há freio para o sentir
nem sombras para o que é inteiro
piam as aves nos claustros
mas só o crente ouve as àve-marias
piso as pedras nuas
com os pés descalços
e fogem de mim fragmentos de sangue
sangue e penas voam na tempestade
no mar está o meu rumo
mas é dentro que está o amor
e aí onde sou livre
encontro liberdade
Margarida Cimbolini

As nuvens

As nuvens
as nuvens têm estranhas cores
às vezes lembram pássaros amarelos
e logo o branco ou o cinzento
gritam por mim !
e bailam na luz clara do amanhecer
as nuvens falam
nas luzes do dia
e nas raparigas doces
que usam brincos
de pérola
as nuvens brilham
no céu
mas só para quem
as olha com amor...

SENTIDOS

SENTIDOS
aprendi a solidão
devagar e com amor
foi talvez a ausência
de dedos nos meus dedos
de medos nos meus medos
o silêncio das palavras
na musica dos risos
não me trouxeram dor
antes cavaram em mim
tesouros no coração
pouco a pouco
dia a dia
ano a ano
calaram-se as guitarras
as vozes cantaram caladas
e os passos recuaram
nas pedras das longas estradas
o meu olhar alargou-se
agudizei os sentidos
e ouvi tocar as harpas
em vez de escutar ruídos
há noite cantam cigarras
em longos concertos alados
de manhã vem as fadas
com beijos de namorados
e são quimeras sagradas
os dias que passo comigo
pirilampos brilham muito
e povoam os meus sonhos
de amores e de sorrisos
guardo assim meus segredos
nos cofres do coração
e com beijos agradeço
ao amor esta benção
que a dia bendigo..
Margarida Cimbolini

sábado, 9 de dezembro de 2017

REINVENTO A ALMA

Reinvento a alma
tatuada
numa languidez desconhecida
feita de mar
iluminada de maresia
convoco tempestades
e vendavais
escuto lobos....
...antigos chacais
e escrevo toda inteira
alquimicamente completa
conquisto partes de mim esquecidas...
.....rentes rasas.
...partes já antigas
onde me encontro.....
e assisto no relance do tempo
à minha singularidade mais rica
sou sEmpre mais e mais terrívelmente eu
Margarida Cimbolini