quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

NAS MINHAS MÃOS

Nas minhas mãos
nas minhas mãos tenho os teus gestos
sei os de cor
quentes e leves
tateando os bolsos
procurando o tabaco
escolhendo as horas
carregando o tempo
os teus gestos usados...
gestos acostumados
a ti
gestos cheios de palavras
ou prenhes de silêncio
gestos
..
de homem só
Na minha boca trago o teu beijo
beijo molhado
saído do nada
inesperado
no meu corpo
o teu desejo devasso
e desejado
Mas é nos meus ouvidos
que ressoa a tua voz... rouca
de homem cansado
ecoa
.. alta e aguçada..de língua ..de caso...
voz de quem vem do passado
e gosta de se ouvir
gulosa de seu eco
vaidoso
do seu ardor anunciado...
Amo ..amo o amor
Amo ......amo o amado.
Sinto a minha mão a brincar
no teu cabelo prateado.
E a tua em mim
cobiçosa...
do prazer que me dá
um prazer desejado..
molhado.. de cheiro acre..
..almiscarado !
Nas minhas mãos os teus gestos
Nas tuas o vazio o medo a raiva..
de nada teres e de nada teres dado...
Margarida Cimbolini

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

PERDIDAS

perdidas
perdi minha barca bela
entre as ondas..no mar alto
e minh,alma com ela
perdeu-se nesse ressalto
tantas almas se aqui lavam
neste mar de águas tão puras
chegam brancas e vão brancas
de azuis se vestem as sujas
a minha perdi-lhe a cor
pois minha alma são tantas
e juntas são só amor
no vidro caem as manchas
a água também lava a dor
grandes males são crianças
neste oceano incolor
perdi minha barca bela
pois estava carregada
despejei toda a mágoa dela
e fiquei com a barca leve
....e com minh,alma lavada
enxerguei então melhor
........o fundo verde do mar
e fiquei aqui pr,a sempre
... nas ondas brancas de espuma
aprendi aqui a amar todas as formas do ar
.........do nevoeiro e da bruma
respiro agora luar e voô como leve pluma....
Margarida Cimbolini

A SAUDADE BATEU

A saudade bateu
veio com pés de veludo
mansa mascarada
com o ar sério e sisudo
de quem não quer nada
Veio num fim de tarde
naquela luz que eternece
aquela luz que embriaga
saudade de tudo
saudade de nada
rejeitei e voltou
veio de madrugada
saudade de um gesto
de um olhar
de uma presença
tão ausente !
tão tênue tão vaga...
e mesmo assim presente
na fábula da minha mágoa !
Vagueio por um segundo
fujo dela e do mundo
não bebo àgua estagnada...
Queria ver-te muito ao longe..
difuso na sombra da noite..
e no teu gesto percorrer o tempo
e na tua voz...voar
acordada..
mais não precisava...
Apenas um vento
enfunando a vela..
apenas a mentira
do teu riso
o sarcasmo dessa solidão...
a estranheza de continuar vivo
sem mim
e sem o meu perdão !
Arte Almada Negreiros, desenho, Paris, 1920

ESTRANHO

Estranho
Já é dia
amanheceu depressa..
ainda à pouco os lilases perfumavam
a madrugada !
ainda à pouco no bater das pestanas da noite pousava um louva -a -deus !
Amanheceu a minha pele...
amanhece cada dia mais fina..
...dias e noites se sucedem no rápido marulhar de um estranho tempo ....
tudo se transmuda e dói !
As palavras ferem os lábios dos canaviais !
Arrefece a lava dos vulcões..
nos olhos dos homens...!
Até o vento amanheceu voraz
..num vozear sibilino ..num assobiu mudo !
Amanheci no corpo quente mas arrepiada !
Tanto me ferem os dias....

A MALA

A mala
espera
espera-me sempre
quieta calada
nunca cansada
Onde a alma
Onde o amor
que ela levava !
Na mala meti tantas vezes fatos
que nunca vesti !
e suspiros de açúcar !
e anaguas de rendas !
echarpes de penas que se colavam ao batom !
e a boca macia
e o corpo delgado
e o chapéu alado
e a rosa de peito
e liquefeito o desejo
de me dar
Ruas onde me plantei
e colhi....
Guaritas onde dormi
com homens que já não sei
Altares de lençóis
que incendiei
A mala ficava segura e calada !
Esperava !
Nela estava tudo !
a estrada...
o alcatrão negro
As margens dos rios a espuma das praias
Era a alma de neve...
o sangue que ferve
a porta e a áldraba
A mala ficava e ficou
no porão do amor
no tempo em que te amei
....tudo eu amava !
Onde ? já não sei....
Margarida Cimbolini

DESPERTAR

Despertar
Cortejar a clareza
ser o seu amigo mais verdadeiro
..
da clareza
da simplicidade de estar vivo
Acordar desse mar de respostas
onde não tenho perguntas
não negar a paz !
A paz ...
a tranquilidade e a alegria
estão dentro de mim....
não no meu bolso !
Então porque buscar sempre no exterior!?
Medo de a encontrar !
De frente a frente a encontrar.
Bom dia Sra Paz !
e depois..
o que fazer da guerra latente e fria..
onde sou mente
onde sou dor
Onde fuzilo coração e fantasia !
Magia terrivelmente mortal !
Fusão do finito e infinito que se torna na ponte..
onde pode o mortal experimentar o imortal.
Cada dia extraindo da respiração toda beleza que ela traz ...
.. no momento chamado agora..
aí eu existo !
O amanhã tem grades o ontem é prisão.
O momento agora é onde mora a Paz ..
E agora é quando eu aprendo a extrair essa plenitude..
Estarei fraca no futuro estando fraca no agora !
Possa eu continuar nessa ponte..não cair ! não sair antes do fim !
Que a minha sede feita de silêncio e de determinação !
seja confiança essa confiança que me diz que sim...
E então possa eu caminhar no agora sem olhar para trás !

IREI

irei
mas irei sozinha
tal como cheguei aqui
comigo vai alma minha
e mais aquelas que eu vi
e faço da noite dia
não tenho medo das trevas
tantos que andam de dia
escondidos debaixo das ervas
vou no caminho na luz
tropeço na nostalgia
.não peço a quem saiba lá ir
se com vela me alumia.
pois a viagem é ida
e o fim é o caminho
é o meu trilho é sagrado
apenas a vela se ardia
e o caminho apagado
irei
pois não vejo escolha
e nascendo eu já escolhi
agora tirai-me a carga
pois qualquer dia morri...
Margarida Cimbol

VENS

vens
vens no calor incendiado das marés lunares
no paralelo das emoções
vens num dia de frio
a bruma parda
encobre a manhã
sinto a tua sombra
muito antes do aparecer
ou terá ela criado raízes tão fundas
na memória
que tu e a tua sombra se confundem
e em mim se instalaram para sempre
trazes resteas de amor nos olhos
e desânimo nos braços caídos
como os ramos que cansados pendem das árvores
esperam e chamam a chuva
tal como tu me chamas
mesmo sem saber...
bem ouço a tua angústia por essas noites
onde insone te passeias
e me invades os sonhos
e me inquietas o corpo
em desejos de fogo e de mar
vens e tardas
guarda o tempo
já a vida ...essa corre
não a podemos reter
vens..
Margarida Cimbolini

ADEUS

Adeus
não te direi adeus
não te direi nada
que diz a lua quando amanhece !
vai só!
cheia mas triste
a brilhar de cansada...
Já as estrelas se escondem na sua luz...altivas ..
E o Sol quando se põe ..tão manso !
tão delicado !
vai só..
não diz até já...
deixa o dia gelado....
Dirá o vinho adeus ao mosto !?
Despede-se a vida da morte !?
Ou o sorriso da alegria ?
ou o azar da sorte !
ou a candeia do que alumia..
quando se extingue sua chama forte ..!
O adeus desafia a natureza..
macula a extrema
beleza...
da luz no fim da tarde....
O adeus magoa e arde..

MARIA

Vinte vezes vai há fonte
vinte vezes vai Maria..
e com ela vai o monte
vai a urze e a magia
vinte vezes vai há fonte
são vinte vezes por dia !
e Maria vai há fonte
entre o Sol que a alumia
traz um cântaro de água fresca
e traz o cheiro de alfazema
e nos lábios traz canção
e nos olhos fantasia
Vinte vezes vai há fonte
e a água fresca da fonte
sem ela não jorraria......
vai Maria e vem pesada
já em pequena ela ia....
Linda moça habituada ...
a beber água da fonte....
..................a beber a poesia !
Vai Maria vai a vida..........
... e vão seus passos soando...
em toada e melodia...
Vai com candura singela...
...Maria moça de aldeia...
e vão tantas como ela....
há fonte de água pura......
Vai Maria de seu nome....
......seu apelido ternura.....

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

DOENÇA DE MENINA

doença de menina

era tão bom
como eu gostava de estar 
doente assim
era eu menina e ficar doente era uma festa
ficava na cama com canja de galinha
e a mãe toda pra mim..
comia na cama por todos amimada
a casa em alvoroço
,,,,,,,,,,,,,,,,a fruta sem caroço
um nunca acabar de beijos e tantas visitas !
até podia não ver ninguém......
era como eu queria,,,, uma maravilha .
e lia,,,,,,lia e lia.....
todo o livro era pouco para eu ler..

chegava o médico lavava as mãos
com ele vinha a criada,,,cúmplice espreitava..
também ela gozava....saía.,,,e ria...
ia há farmácia,,,,via o namorado,,,,folgava....

era o doutor quem sabia....
tinha um pouco de febre ou tremia...
e por dentro uma sensação boa aconchegada
um prémio de mimo ....uma fantasia
era tão bom estar doente........
ficava tudo tão doce....tão fácil.....tão quente
vinham os primos de longe,,,,,as tias com arroz doce
estava na nuvens envolta em algodão
e por fora apenas espirrava............
dormia quando queria,,,,,,,lia ,,longamente sem horário
e voava em onirícos sonhos..
que pra mim descrevia na escrita febril......
de quem não podia um segundo perder
daquele magnifico prazer...

agora estou ás vezes doente,,,,,,,,,, de saudade,,,
penso .....naquele tempo ,,onde sarampo era felicidade...

Mar

garida Cimbolini

MOENDINHA

Moendinha
mansos os olhos da poesia
onde eu ia
quando menina
bem pequenina
falava uma toada cantada
inventava
fadas gnomos e anões
e punha nomes ás bonecas
naquele banco encostado á piscina
subia á árvore e trazia bolotas
e cozia em lume brando toda a minha fantasia
ou no outro banco encostado á capela
construia castelos de cascalhas e punha água na pia
onde vinham os pombos beber
e comer as migalhas do meu lanche
as belas gemadas....quando a avó chamava eu ia
a avó Luisa aqueles longos olhos de terra onde me perdia
uma vida a correr nos pinhais,bebendo dos rios comendo das arvores
essa era a minha Pátria o meu país
Um País que me traiu donde fugi
Como aquela grande mesa da cozinha me pareceu depois pequena
Mesa de cheiros a filhoses no Natal ,cheia de sonhos ,dos meus sonhos
Tantos os sonhos que trouxe daquela casa feita de algodão
Onde todas as nuvens tinham perdão
Os tios... os primos.... os pais... as tias..as avós tanta gente....
Onde era só eu que importava de braços em braços escorregava
Casa feita de amor onde cada dia o amor se via
Se palpava se comia se sentia
Passou o tempo..... muito tempo andei.......fazendo tudo o que ali sonhei
E voltei ...a casa ainda la estava branca e linda
e na cave as cascas de árvore que pintava o que escrevia e lia e vivia
tudo como eu deixara permanecia
Mas estava quase vazia.....ficara uma tia .....a minha tia..
Curvada de cabelos brancos tantos encantos ela tecia
Da lareira saia o cheiro do amor e a alma ria....ria,,,
Morreu também a tia.....a casa ficou triste chorava e chovia
Fiquei eu e uma enorme casa vazia...sonhei ainda ama-la honra-la restaura.-la........amava-a mas era só eu........
Como se vende uma vida.....como se sara uma ferida,,,laços de fita não atam
Vender as raízes...esconder as cicatrizes...
não pensar,,,,,,,,,,,,,antes morrer........e o luto continua.....
há tanto tempo que o luto se esgueira por um segundo entra de novo....
cada vez mais profundo.......
Olho ás vezes e penso que já nada mais me falta ver nas voltas do mundo...
Margarida Cimbolini

TULIPAS AMARGAS

Tulipas amargas
Amargas são as tulipas
que nos caem do alto das madrugadas...
Quando o silêncio enobrece as sombras...
e dá a tudo o seu misterioso sussurro...
Quando os olhos se viram para dentro...
e todos os sentidos se iluminam...
a noite torna-se clara..
as tulipas ficam amargas..
...querem àgua !
Onde a irei buscar
se não conheço o
caminho das fontes !?
..se no mundo encontro vales e montes..
...se a cada passo
desfalecem pontes...
e troco o Sol por luar !!!
Tombam do alto da madrugada..
tulipas amargas! ..quando alguém se põe a pensar..
....os olhos calam
mas não fogem..
alguém terá de as matar.
Porque as flores também morrem.
Margarida Cimbolini

QUANDO

Quando
quando estamos fartos de gente
as coisas falam
e falam com poesia
Na noite fala um perfume de violeta
E as rosas falam do dia
Fala a àgua suavemente
no seu caminho para o mar
e as pedras de pisadas falam de fantasia
Cada coisa fala de si .....
com o suave falar
da sua realidade
e não há revolta
nem falsa submissão..
Tudo tem razão de ser
cada qual sua missão
e como é lindo de ver
nas pedras essa lição !
Nas pessoas grita a mente
Mas o Sol grita de quente..
e a fome grita pão !
Se estamos fartos de gente....
grita o nosso coração....
Margarida Cimbolini

VENDADOS

vendados
ceifadas foram as espigas
quando prontas a colher
vendados estão os meus olhos
vendados ás alegrias
para onde estão voltados
estão cheios de avé-marias
ceifadas foram as espigas
quando prontas a colher
abertos sejam meus olhos
antes de o corpo morrer
abertos que os tenho dentro
por meu mal estou a sofrer
vendados estão os meus olhos
só porque não quero ver
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O POEMA



O poema
um som louco e doloroso que se apodera de nós e flui
como um rio
Um rio de vidro transparente
que se estilhaça 
que fere como espada
e beija como boca !
uma boca esfomeada e louca
cujo único objectivo é a fome
Matar a fome da alma..
Mergulhar num azul mais que azul !
e estilhaçar em som...
no ritmo cadenciado das
ideias..
mas aprisionado
liquidefeito na musica..
Musical como uma cantiga !
cortante mordente e agudo como espada..
Espada que se enterra na carne...que corrói a mente e inebria a alma..
É assim o poema !
Margarida Cimbolini