quinta-feira, 30 de junho de 2016

ANJOS

anjos
nesse quase lugar onde vivi
veio um anjo a julgar os deuses
pois aí habitavam deuses
o mal e o bem não se misturam
mas coabitam
o anjo mais belo era muito belo
claro e luminoso como só um anjo é
o outro belo também escuro mas brilhante
de pequenos olhos negros acutilantes
e sem asas esguio quase escorregadio
os dois em silêncio falavam
suas bocas ofegavam
cheirava a madres-silvas e a canela
o ar limpo e rarefeito era sorvido por todos
em grandes haustos ....fora antes água
e tudo se movia como debaixo de água
de água fora o mundo antes de o ser
de agua fui nascer
tombada no chão uma cruz
... exibia um som manso e calado
persistia...
fiquei inquieta quem me julgaria a mim
......naquele lugar de deuses..........
nesse lugar onde quase vivi ..ponte estreita
..que não atravessei....
escutei um sussurro qualquer um som baixo ,melodia...
melodia onde me queria e fui nota... solfejo....dó sustenido
e contrafeito......fui...num ir rápido e sereno.......
quando.... vou mais longe que eu ...cheira sempre a madressilva,
e a canela e eu fico á espera do sussurro....

PERDÃO

perdão
todos os beijos me parecem loucos
porque um beijo se perdeu
e os carinhos são todos poucos
carinho algum não quero eu
e as rosas não passam de maresia
daquele mar que me fugiu
tenho ainda os espinhos
... da que esse mar me deu....
voam sobre mim os cucos
e não lhes pergunto onde vão
já segui o seu caminho
Mais caminho agora não.
franqueio a meta da estrada
.......nem pobre ...nem rica .....
............... nem feliz nem desgraçada..
vazia de beijos prenhe de amor e de desejos
mas sozinha ....sem devoção alardeada
não posso.... nem sei chegar a nada.....
e não vou a parte alguma....
...... onde o mar não faça espuma...
.......onde o eco das flores não seja meu.....
onde a sombra das árvores não me sombrear a estrada..
e não ouvir o rumorejar das folhas ao vento
onde eu for não seja nunca o céu cinzento
seja o vento feito água e a noite minha aliada
.............e a espiga seja o meu pão........
e deixa que ouça a tua chamada,,,pois que me escapa agora
mas sei que tenho dentro a tua espada e vivo em mim
.....estará sempre o teu ferrão....

domingo, 26 de junho de 2016

APETECES-ME

apeteces-me
como figo maduro
como pêssego rôto
a escorrer na comissura dos lábios
como mel a derreter-se na boca
quase lúbrica
com laivos de líbido
o teu gosto saboreio
o teu gosto
esse gostinho acre por vezes sarcástico
como montanha que escalo a correr e onde me perco
como declive onde escorrego
livre ,,,nua,,,desbragada
mas tão segura....
oh como me apeteces !
como me envolves,,!
como nos ama-mos e nos da-mos..
e nos misturas-mos
e somos só uma...
como gozo ao te sentir entrar em mim
como me me deleito em te deixar escorrer sózinha
saída dos meus dedos
como me apeteces poesia ....!
como te amo ! como te mastigo e como me......alimentas
e como nos fazemos difíceis uma há outra
e nos encontra-mos num abraço
e nos esconde-mos nas palavras
neste jogo mais que amoroso
onde..... depois..... buliçosas.... goza-mos !
como te amo......
e lírica tonta de amor te canto,,te teço ....e me enterneço
tenho-te na boca agora .....sinto o teu sabor..
enlansgueço ....ameigo-me..entranço-te em mim
és ás vezes farpa outras .....rosa ....flor ,feitiço ..filha.. mãe.. irmã
oásis ...ilha...terra de mim..mar intimo e sagrado
rio ..castelo ...ameia,,,,amor.....
poesia paixão onde navego...afoga-me nesse teu fogo de água...
nessa tua luz....guarda-me ....a ti ..a ti e não a rogo assino .....sou tua...
Margarida Cimbolini

PIANO

Piano
caprichoso é o piano
talvez corpo de mulher
esperando o despertar
do silêncio imaculado...
Esperando o desabrochar
guardando ternos segredos
esperando a luz do luar
ou a caricia de uns dedos
Cada um é ave negra
de plumagens delicadas
tão finos os seus tinidos
tão tremidos seus trinados
que surdos sejam os ouvidos..
.Sentidos em teclas tocados.
Pianos brancos são tréguas
entre vida e morte breve....
..
Nos negros fulguem os dedos
...nas teclas da cor de neve..
Dedos cegos, loucos.... cansados.
perdendo a vida a tocar
são poemas ...flocos de amor
que surgem em sons trabalhados..
nos dedos do tocador
Curtas as vidas que tocam...
pois morrem no teclado......
Cada tecla um poro da alma
no som da respiração
lírica coroação pelo músico almejado
Solfejos ficam no ar........
Solfejos ainda tenho ...
.nos beijos de ti guardados...
.....nas dobras do meu amor......
..... entre sedas e brocados...
Nas teclas ficou a dor ......
......daqueles que não foram dados...
.....e andam pr,aí deixados........
esperando por ti meu amor.......

quinta-feira, 23 de junho de 2016

MEU AMOR

Meu amor
de ti falo em tal brandura
que de ti nunca serei consequente
falo de ti 
como fala a água pura
quando o riacho fala de si á nascente
meu amor quem me dera... quem nos dera
ser eu água e tu Sol poente
nunca mais haverá água tão pura
e como tu um sol lindo e fulgente
caminho nas madrugadas e caminho nos teus passos
mas não há em ninguém tua brandura
ninguém me fala a língua dos riachos
de nenhuma língua percebo
em ninguém ouço a tua voz
e deixando-me assim sozinha e tua
pergunto a Deus que será de nós....
Eu bem que cavalgo no mar alto
bem que em fogo transformo as minhas cinzas
minto bem... só os ucos sabem
e a nenhum deles contei
mas senhores de mim em absoluto me trouxeram
a esta morada onde te encontrei
meu amor deixa que seja ribalta
meu amor não me sigas não me despertes
breve falarei aos ciprestes
deixa que escoe esta ira de me sentir só e fria
ainda quente de ti e do amor que me deste
deixa que siga o caminho ainda que com pele de arminho
daquela de que o lobo se veste
mas se porfias e queres que ainda seja eu
.......... despe-me deixa-me nua
tira-me a pele de cordeiro com que ainda me vestes......

OS OLHOS

os olhos
abri meus olhos á lua
na esperança de a poder ver
segui de um cometa o rasto
e estrelas me pus a colher
e todas enxergam lume
fogueira de sois a arder
alcantilada fogueira que subiu
mais que o meu querer
sorvi então dos teus olhos
o brilho de os poder ter
encontrei tanto queixume
de quem não podia ver
que queimei mais de mil cruzes
naquela fogueira a arder
o fumo subiu ao céu
e fez as nuvens crescer
e caiu chuva sagrada
para aos olhos dar de beber
tornei-me do olhar fada
morte ou amor tem de ser
e deu-me o céu uma espada
pois se a morte viesse
estaria de amor armada
e seria renascer....

INSTANTE

instante
Nas teclas do meu piano
eu toco árias antigas
antigas de mais de mil anos
seriam precisas mais vidas
muitas mais para as tocar
outras tantas para ouvi-las...
Teclas brancas brancos dedos
nos corações que se dão
todas as notas delas......
..... fazem mais que uma canção
fazem séculos de partidas
.......idas e vindas de amor...
........eras e eras de instantes....
e amor ..amor a rodos ..
...........sempre a rodopiar
Nas teclas do meu piano..
,,,,,nos fusos do meu tear........
tanto linho que teci....
...tanto aquele que rasguei.....
mas todo o amor que tinha......
.....nunca o regateei......
e os instantes passaram....
Onde começam os anos ....
Onde pára o tempo errante..
Quantos anos são precisos
.....pr,a construir um instante.......

SERVIR

servir
serve à abelha a flor
quando lhe suga a seiva
para fazer dela amor
e o luar serve a lua
e as estrelas o Sol.
e o linho no altar
serve de roupa ao senhor
e serve o ateu a dúvida
aquela que gera a verdade
e serve o leite o menino
apesar da tenra idade
serve-lhe de alimento
sem a sombra da vaidade
tudo serve neste mundo
cadeia de humanidade
apenas o homem soberbo
se serve da natureza,do tempo
e até da pureza...
levado pela certeza de comprar eternidade ....

BRABA

BRABA
quero-te mulher
assim brabA
maria...alma...concha,ou madalena
assim... nua... brava.....quente...
diaba de mim...minha açucena
são teus seios,,,tua cintura tua mão
teu braço corrido no corpo
tua pulseira ....e aneis..
e sexo destapado na concha da tua púbis
barriga corrida meu sonho humano
minha aldeia e minha vila
minha missa meu sermão
tua liga....perfume e paixão
e voz macia e calada
rouca desbocada....mulher vinho...vinha ...cacho..
meu figo...fruta doce e madura
música...ritmo.....tambor......pássaro...gavião....
mulher.... teu corpo.... na tela.... pela mão do pintor...
és assim deixada ...estendida o mais belo animal da criação...
Margarida Cimbolini
(leitura de imagem )arte Jeremy Mann

CIDADE DE PAPEL

cidade de papel
ás vezes gosto da vida que faço
não é a minha vida
gosto da liberdade de estar só
mas não é a minha vida
abro as janelas e não vejo o Tejo
e também não vejo o mar
durmo se tenho sono
acordo e sinto-me culpada,não vi o dia
mas se tivesse visto seria igual
e quando via o mar também era igual
o Tejo no seu reboliço de tainhas cansava-me
gosto do rio e do mar gosto muito das marés
e gosto deste olhar de fora que deito há vida
vista de fora é uma vida boa
mas não é a minha vida a vida não é minha
já é Verão de novo os dias são maiores
vestem-se os ventos de grinaldas e agitam
agitam estas cidades de papel.......
cidades de papel onde todos escrevem alguma coisa...
onde todos navegam em barcos de papel
e alguns gritam ,,aleluia,, sem saber bem porquê
outros atravessam o Tejo todos os dias..........
.............e nem dão por isso..
nas outras cidades onde vivi também era igual
ao fim de um tempo as cidades são todas iguais..
Eu estou onde quero ,gosto da minha cidade...
Não gosto das nuvens carregadas de presságios
.....que ás vezes me sobrevoam..
Viajo muito na minha cabeça ,,viajo nas palavras.. e
os meus dedos viajantes chegam para me cansar....
Já não sei fazer barcos de papel......iam afogar.se....
morrer no corrimão desta espiral..desta escada ...
desta vida de que ás vezes gosto....
Mas não é a minha vida.......

quinta-feira, 16 de junho de 2016

QUERIA

Queria
Ver através de mim
Como vejo o Sol Poente
Ver através de uma alma transparente
Que espero eu mais da vida
A viva melancolia de ser terra arado e semente
De ser tudo e não ser nada..de ter a dor sempre presente
Prefiro acabar aqui...enquanto sou ainda gente..
Não terei mais vida..só a morte me pertence.
Verei de novo a luz,,,estarei só é.ausente!!!!
E podere não sorrir para sempre.
Morro aos pés do meu egoísmo..
Morro afogada em mente!
E que ninguém me julge!
Que ninguém me lamente!
Aceitem a minha morte!
E que ninguém pergunte o porquê
O porquê é estar viva -!
Ter os pés na,terra...e ser consciente ...
A deus vida não suporto
O teu presente!

PAZ

Paz
Deixo correr o olhar
e sem correr atrás dele
persigo de dentro
...........o caminho que percorre .
Curvado de insónias ,,,,,a falta de sono..
inspira.-lhe oniricos sonhos...,
divagando num prenuncio de cascatas...
Persigo-o com a boca embriagada de vermelho
os cabelos brilhantes da maresia....
e nas mãos levo flores brancas que chamam a Paz.
.......é a paz que persigo....
Quero Paz e o olhar salta-me do peito...
trespassa-me os olhos e leva-me a alma....
......numa busca desesperada que não controlo..
Alguém a viu ? onde está ...qual a sua cor ...terá cheiro ?
Não controlo estes olhos que interrogam toda a gente....
...e que ninguém ouve nem sente.......
Só eu sei a resposta e não a quero ...não a aceito......
Procuro-a sim... levemente como a borboleta procura poisar no Sol ......Poente...
e o rio procura desaguar longe da nascente....
Procuro-a desgraçada o olhar errante e curvada....
como se não existisse e fosse coisa imaginada.......
Pobre ....louca ...enganada...desce dessa arrogância e fussa com o focinho na calçada......uma ..duas .....mil vezes...
Até não teres focinho ....nem estrada,,até seres menos que migalha...
Encontras a Paz....quando não desejares mais nada...

SINTO

sinto
sinto o ódio dos corruptos
o meloso abraço
o mentiroso objectivo
o grito sufocado da inveja
o amargo de boca dos pobres
daqueles onde o mesquinho espírito reina
e incomodo como a chuva infiltrada no telhado
incomoda toda a casa...... num só pingo
incomodo o absoluto,, o ditador,,o rato...
o rato na sacristia do padre e o seu retrato
e na vagina incomodo o esfregaço
ouço as palma e os bravos e os sorrisos de falso pasmo
a vontade de rir no fundo dos olhos
nesses olhos pardos de nevoeiro
que roçam a perfeição das consciências habilmente tranquilas
ouço o bater surdo das mandíbulas a mastigar ócios
a alimentar paixões a criar amizades e amores
A fomentar indigestoês e tremores .....
a todos esses eu sinto e deles me ressinto e vomito
......só me pergunto como podem aplaudir este meu dito..

CHAMEM AS PALAVRAS

chamem as palavras
saem as palavras já rotas
tremem os dedos aos escreve-las
perdi-lhes o significado
são uvas que não querem lagar
uvas sem gosto nem cheiro
bocas de leão sem caule
são flores desfolhadas e ocas
sementes perdidas que não querem a terra
Preciso desesperadamente das palavras
quero-as pujantes e vivas
lutando entre si para serem poema
vozes que me sussurram rimas
querubins adejando á minha volta
saltando-me das mãos brilhantes como romãs
Quero-as-......
cheias...guturais ....sem virgulas.. desdenhando dos pontos finais
reticentes como a vida ....chamem as palavras...
sem elas não tecerei os meus bordados
sem elas morro aos poucos entre peças de linho nuas
Entre chamas frias brancas de vazio
brancas como esta pele que me cobre com carinho
como esta alma que me pede poesia que me pede amor
Espero as palavras... espero as pequenas vogais ....as consoantes .......vaidosas...os gordos verbos....todas as palavras são minhas !!!!
Espero-as repesa de as maltratar tanto ....peço-lhes perdão....

PASSOS

passos
passou o frio Inverno
onde gelada até aos ossos
inundei minha boca de neve
meus olhos de longas lágrimas
a lavarem os rasgados joelhos pelo Outono.
mascaradas as cicatrizes do Verão
de rastos entrei na Primavera
mil vezes caída e levantada
chamei anjos e demónios exausta
desaurida sarei as feridas mais expostas
guardando na alma o terror de tombar de novo
e de novo provei da boca do tempo
... a sede de mais e mais água ..de mais luz força e provento
descalça feri-me nos vidros espalhados
e carreguei o peso do corpo pesado de desamor
levantei tudo o que tinha no rasto do caminho
continuei e apesar de tudo isto......
as minhas mão ainda não estão vazias
...

DESCONHECIDO

Desconhecido
desconhecida sou eu de mim
pois de mim pouco conheço
e dos outros não conheço nada
desconhecido como o cheiro da rosa
antes de a cheirar
conhecia apenas o sangue feito pelo seu espinho
o meu sangue ,seiva que me corre nas veias
seiva que transbordou quando o tempo quis
e no casulo do meu corpo viveu
e sempre transbordou nas metamorfoses do ser
o sangue foi o primeiro dos mistérios que conheci em mim
tudo era desconhecido apesar de anunciado
sinais constantes na terra nas flores e nos astros
sinais na migração das aves riscando os céus
sinais da comunhão entre mim e o Universo
no gesticular constante da alma conheci as suas humildes exigências
poderosas questões escritas na ansiedade da minha voz
que me chegavam e cujos gritos me saíam dos poros
e que só eu continuo a ouvir no abafo da pele
desconhecido foi aquele que me criou
até aquela primeira vez em que através de mim conheci a criação
desconhecida a minha rota e o meu rumo apesar de anunciada
De presságios morrerão os versos e o tempo caçoará sempre de ............................................................................mim...
Serei sempre eu ...cobaia de mim e de mim eterna desconhecida.....

MANJERICO

o manjerico
um homem deu-me um manjerico
um homem muito simples
deu-me um pequeno manjerico
há anos que não tinha um manjerico
,,Lisboa em festa,, dizia o manjerico
então a minha cidade está em festa e eu não !,,,,
pensei eu....pus a mão sobre o manjerico....
cheirava bem...cheirava a manjerico !
instalei o meu pequeno manjerico há sombra...
perto da janela.....de vez em quando olho-o...
gosto deste manjerico....é apenas isso...
um pequeno manjerico ...delicado e cheiroso....
mas é demasiado....é muito para mim....
faz-me chorar o manjerico........
tão verde ,,tão fresco e luminoso...
quando olho e demoro o olhar.....
.....sinto um enorme prazer........
gostaria de ser manjerico e de não pensar..
mas queria ter o prazer de o sentir.....
assim sinto muito por mim e pelo manjerico...

quarta-feira, 8 de junho de 2016

horas

horas
entre mim e as horas apenas o ruído
o tic-tac do silencio a passar nas bocas da colmeia
entre nós e as horas apenas o tempo
o tempo inexorável da vida a passar
as abelhas procurando a colmeia
o mel escorrendo nas bocas de sangue dos homens
a carne terrível e perecível
sempre a mudar de nome de idade de sexo
a carne sombra de beleza que nos cobre
sombra do destino de dor a que nos condena
entre o singular e o plural sempre o tempo
a dor dos ossos que gemem das articulações presas
entre mim e as horas o corpo..templo infectado ,abcesso a rebentar
a inocência...a mocidade..a velhice senil ..grito dado ao nascer
entre a vida e a morte sempre as horas irredutíveis que passam
entre mim e as horas a poesia....o verso ..a metáfora ..as palavras
entre mim e as horas a vida polvilhada de brilhos
os dedos polvilhados de uma luz emprestada...entre mim e
as horas o tempo as palavras a construção de cada frase
entre o poeta e as horas tudo....quando as horas pararem....
quando as horas pararem o poeta morrerá

terça-feira, 7 de junho de 2016

CORPOS

corpos
do teu corpo anuncio as madrugadas
as noites cheias de sol
anuncio o sabor da tua boca
e as manhãs
anuncio as manhãs de aleluia
onde a tua mão me procurava
onde nos reuníamos de novo
numa sempre nova alvorada
aí onde explorava-mos o corpo
era sempre um novo amor
tangias então a guitarra
enquanto te sussurrava historias de fadas
beijava-te com as palavras
e o teu corpo crescia longo e moreno
sombreando os bordados do meu
contornando-me e enchendo-me de mais desejo
abrias-me as pernas devagar
mordendo os meus mamilos
tecíamos vida e morte
abríamos postigos onde pernoitavam anjos
dobras onde nos dava-mos
vozes que me saiam das mãos a cantar-te
a vagina sempre molhada de beijos
tornava o meu corpo cada vez mais nu
até que não tinha corpo
desaparecia nos teus braços
tudo brilhava a nossa volta
era-mos terrivelmente deuses

quinta-feira, 2 de junho de 2016

CONVERSA COM PESSOA OU MONOLOGO

CONVERSA COM PESSOA OU MONOLOGO EM DUAS LINHAS
duas colunas te sustentam
no átrio deste templo
apesar de cego passàs-te entre elas
precisavas conhece-las
o seu sentido revela-te a vida pouco a pouco
agora que tens luz
porque baixas os olhos para o chão ?
que há no chão...? branco e negro cinzento
ou tudo não passa de um clarão ?
ou não é chão
será vida
a vida é sombra .... é luz é dia .....e noite... bem e mal
da vida só vês o topo
o elemento oco....
e a razão e o amor e a paixão ?
cada passo um alçapão para quem só enxerga o chão...

ADEUS BRISA

Adeus brisa
Adeus brisa
já que te vestes de aurora
Adeus brisa
por ti minha alma chora
Adeus deserto infinito
onde te apanhei
Quero de ti o que me dás
esse voar finito
essa rota sem caminho
esse piar sem ninho
esse lar do destino
Adeus brisa podes levar as pegadas
nas dobras do tempo
desbravarei as estradas
Leva-me os anéis
todos os anéis ..feitos de euforia
e os traços de magia
e as noites de lua cheia
e os mitose a velha candeia

Voa por mim
guarda-me o cheiro do jasmim
e a sombra da palmeira
e as uvas que pendem..
....em cachos da videira...
Guarda a minha sede ...
de ser gente e ser inteira....
Guarda -me o azul ....adeus brisa.....
....adeus ...vai ..corre ligeira....
e acima de mim guarda o amor...
.......e esta luz que me ilumina
o resto deixa...deixa o lamento...deixa o Sol leva a peneira...

MONGE

monge
nada habita o hábito do monge
vive no claustro
debruça-se constantemente
numa das grandes janelas em ogiva
que parecem querer chegar ao céu
mesmo debaixo do seu parapeito há um ninho
um ninho que observa a toda a hora...
ama o ninho ....acredita nele..
talvez até mais do que na sua fé....
o habito não faz o monge
mas serve para cobrir a sua enorme curiosidade
o hábito dá -lhe uma humilde importância que aprecia
o monge silencia a palavra....nada diz
naquele mosteiro há muitos monges ..
mas este é o mais feliz
este observa o milagre da vida a toda a hora
vive do ninho...vive para o ninho
passo a passo espreita e alimenta a sua devoção há virgem
e nela se extasia assistindo ao desabrochar da vida
o monge segue o trilho pausado e manso ........
.......dos seus irmãos em Cristo....
mas sempre que se debruça da sua janela em ogiva...
o monge espera a celebração do Natal....

ENTRE A VIDA E A MORTE

entre a vida e a morte
o amor de que nada sei
é assim como a estrela de alva
um pouco como o Sol poente
assim como planta que cresce solta no monte
ou como o azul muito azul que ás vezes é verde
da cor do céu e das águas do mar profundo
e também das pequenas ondas nascidas á beira da maré
..procuro esse amor de que nada sei.
sempre procurei..nasci a berrar e envolta em sangue
nasci desse milagre de amor
e neste tempo e nesta idade preciso dele mais do que nunca
vislumbro já a brancura da morte...não sempre.....
mas ás vezes parece-me tão natural como a vida
.... a vida já conheço ....é assim como um entrar constante
uma constante ida procurando dentro....
.......esse amor de que nada sei.....
da morte desconheço tudo e temo...como se teme
tudo aquilo que se não conhece..........
quero muito amar....amar tudo fundir-me.....
quando se ama fica-se mais perto desse amor
.....................................................................de que nada sei
e mais longe da brancura da morte.......
quero ir ver o mar....o oceano ...essa massa tão forte e tão mansa
vou mais uma vez perguntar-lhe...se viu esse amor de que nada sei.....