quinta-feira, 30 de maio de 2019

FOGO

Fogo
Um fogo um lume
que me queimou as mãos !
Eram as tuas..
Antes brincaste nos
meus olhos...
Engalanado de azuis
desnudado pelo mar
roto de cinzas
ateias em mim labaredas
...depois ecoas em sedas...
amacias em veludos...
...escorres lava na minha boca..
ferves no meu corpo...
Ecoas no meu pensamento...
em lubricos sentires....
....em quenturas desusadas...
Abusas da fantasia...evolas sangue suor e lagrimas...
Cobres - me de lama..e lavas - me com beijos !
Depois levas - me pla mão como criança..
e queimas- me
as mãos ..
...com as tuas !

NEVES E ORVALHOA

Neves e orvalhos
Brancuras se adivinhavam por baixo das sebes escuras !
Mas... o verde era imenso gigantesco como um mar em repuxos de vinho..
Esse grande jardim...vivia extravagante como um enorme animal feliz..deixado ao acaso pela vida..livre soberanamente liberto de tudo....
O Sol a custo penetrava nessa exuberância de folhagem..
nessa maré fecunda de ramos
..de flores... de tufos.... de ervas...
Cortinas de flores tapavam as clareiras..
As acácias..as rosas os jamins tudo inundava o ar de perfume..
Que entontecia ..! embriagava...como o cheiro acre do amor
que se evolva dos corpos dos amantes saciados...
O jardim era uma espécie de circo imenso verde e fundo cuja vida latente..das estátuas nuas poisava no leito dos riachos.......
talvez resíduos dos deuses... talvez !emanações do homem ...
...quiçá encarnações de almas..
..habilmente escondidas pelo tempo...
Fugi..corria louca
pelos atalhos que desbravava...
..os silvados bordavam em mim..
gotículas de sangue...
que o jardim secava a rir...
Rolava na erva macia...e respirava alecrim
e madressilva !
Renascia leve ..volátil...doce....
nessa dimensão onde vivi tão breve...
...como uma branca borboleta !
Margarida Cimbolini

DO SUL

Do sul
......... as mulheres vinham a cantar
Tombavam
do céu líquidos azuis
E os algodoeiros vestiam - se
de branco
Toda a natureza amava !
Na noite reinava a lua...
....e eu feito ....criança ....brincava
espalhando lenços de cambraia
....... leves como pombas
nas asas do panalto..
ria ..vendo como voavam !
Ria de não sentir a barreira e o peso do corpo !
Tudo era eu estava em tudo ! e não queria nada...
Em baixo mexiam -se figuras de barro !
E nas dobras do tempo....
senti o cheiro acre da terra...
...dos homens e dos animais !
Amei as suas palavras ! os seus gestos...
E voei mais alto!
a debruar de azul e de paz a alma..
enquanto ouvia os cânticos que vinham do Sul...

ILHAS DE SANGUE

Ilhas de sangue
Abre o mar sulcos compridos
,,,,como longas veias
,,bordadas de espuma,,
Corre nas veias humano sangue..
canoa de cordão umbilical
vogando de gerações em gerações
carregado de genes
coalhado através das vidas
suado nos poros do tempo
Em cada uma gravando seus destinos
suas rotas,,,seus hinos..
Ilhas de sangue.
Onde se abatem temporais
Onde as existências se transmutam
Onde as religiões sossobram
Ilhas de memórias
salvas pelo amor,,,pela fé,,,pela dor,,,,
Ignotas Ilhas que morrem solitàrias...
ignorantes do ser..
Sulcos abertos no mar..
.Bordados de espuma.
Sulcos onde dançam os Deuses e riem..
Adamastores do mundo!
Longas as veias desconhecidas..
Onde navegam Almas
esquecidas pela morte.
Oceanos de amarguras que ficam nos sulcos compridos..
,,,,abertos no mar...com beirais tecidos....em
,,,,brancas espumas..
Margarida Cimbolini
.

AS HORAS

As horas
As horas gesticulam
agarram rimas e prosas
São às vezes horas mortas
Horas desgarradas incertas
Desabrocham como rosas
às vezes correm
suam rápidas venturosas
Alacres e vaidosas
altaneiras passam
viçosas
Outras desventram o tempo
criam teias e casulos
são horas e lamentos
arrastam tudo morosas
São flores do vento !
Ambíguas oblíquas rancorosas !
Instalam-se em mim as horas
roem fundo e dentro !
Horas indecorosas...
Nem as boas nem as más..nada lamento !
Na vida quero horas vivas !
Que gritem que cantem as minhas horas !
Que sejam pão e fermento !
Que sejam roda a mexer ...
Fogo alto a arder !
Frescas como ribeiras...
Loucas ..tecedeiras !
Eu quero as minhas horas sempre plenas sadias e cheias !

PALAVRAS CRUZADAS

Palavras cruzadas
Cruzo as mãos sobre o rosto
Vejo pelos intervalos dos dedos
e penso
Estar preso seria isto !
Veria as pessoas através de grades !
E o Sol seria apenas quadrados de poeira...
Poeira dourada !
aquela poeira que tomba no ar em faíscas cintilantes
e loucas...
Então saberia o que é a loucura e aí sim podia rir !
Rir a gargalhada dos loucos...
A única que é verdade !
Não riria à toa mostrando os dentes como fazem as gentes !
Tenho na ponta dos dedos a alegria...
e nas palmas das mãos as linhas onde a cruzo com a vida !
Por entre os meus dedos entre cruzados sobre o rosto ... vi a tarde a passar sobre mim..
Vi o voo das andorinhas...o frio e o calor o Sol e a chuva....
e vi um pequeno barco de papel..um origami de luz..que pouco a pouco foi bebendo a água do charco e naufragou !
Afundou-se no charco de lama.
Era o seu destino cedo ou tarde iria naufragar até na à gua mais pura !
É assim a natureza....feita de vida e de morte...
Agora fecho sempre os dedos quando os cruzo sobre o rosto ..
Mas mesmo assim continuo a ver ! e a cerrar os dentes !

VENHO

Venho
Venho dos teus lábios longos e vermelhos
como frutos em pomar abandonado
venho do silêncio da tua casa nua
dos trémulos gestos da tua alma
esquecida que é alma
das tuas mãos vazias mas exigentes
da tua cama fria
que arrefeceu o meu desejo
Sinto ainda os teus dedos a explorarem o meu corpo
a possuir a minha boca
a violar as memórias das giestas...
Venho de um mundo que não quero
Fujo do que não amo feliz aliviada !
Que seria de mim se não tivesse estas asas !!!
Estas asas soltas e leves
que a poesia me empresta...
Venho com o sonho incólume !
Nada me toca porque ao meu lado voam andorinhas !
rebentam risos nos meus poros !
Venho de um sitio onde não fui..
Porque não existe !...

MEMÓRIAS

Memórias
Há horas que secam os versos !
Outras que os fazem renascer como flores..
Noites onde tombam circunflexos..
Tombam da memória ...
com o cheiro da roupa corada ao Sol
Tombam peneirados pelo tempo
e toda a vida aparece assim...
lavada e branca e pura....
Vida de amores perfeitos...
e mesmo os desfeitos...
são história !
É às vezes só um beijo mais doce.
uma pluma ..um olhar...uma mão uma maresia com espuma !
É às vezes uma pegada na areia..
Grãos de trigo...pombas brancas a quem atiro uma mão cheia...
.Memórias que vivem em mim !
e me acalentam !
Memórias que o tempo limpa e alteia...
Amores de Eros não se lamentam !
Faria tudo outra vez ..tal e qual !
Se amei valeu a pena...!
Sou eu isso tudo e mais o tempo !
e mais o vento !
E mais este ribeiro manso que me corre dentro e saltita !
E mais esta alma branca e tão leve !
Que me enche e nunca me diz que desista !
Margarida Cimbolini

ESQUECI

Esqueci
Não me lembro de ter nascido
Nem se já morri
Almas adejam à minha volta..
Tigres guardam o meu castelo !
Cruzo-me com tudo o que vive...e na morte consequente escondo a eternidade...
Creio na utopia e no Universo..o resto simplesmente não sei !
Esqueci..

quarta-feira, 8 de maio de 2019

TEIAS DE PRATA

Teias de prata
São meus olhos enteados
das candeias olhos teus
duas candeias acesas
para caminhos de breu
Cinzentos olhos de nuvens
alagados de trovões
tanta mágoa nesses
olhos...
cor de àgua os olhos teus
quase alagados de dor
tanta lágrima contida
fome de pão e de amor
não vá afogar.me neles
baixo os olhos
colho prata
amendoeira em flor
Apago na branca neve dos meus olhos o calor
Enrredo.me ..teias de prata
Candeias acesas de fogo brilhando
em branco amor..

O JOGO

O JOGO
No canto do bar
as luses de néon
Iluminavam o rosto emanciado e triste
Devia ter sido muito bela aquela mulher
O oval perfeito
as maçãs do rosto salientes
Os lábios ...brancos de susto
evidenciavam o vermelho de outrora
Os olhos fundos inchados de rugas !
brilhavam ainda timidos e quentes ...
Fulvos os esparsos cabelos eram ainda belos..
Sob aquelas luzes brancas e cruas
a face pálida demais
dir -se- ia extinta desmaiada ..
Um todo de desânimo de acabado e sem luz nimbava o vulto ..tão debil !
Tão inevitamente elegante..
A mão segurava o queixo....
Num gesto cansado a mão afastava o cabelo..
Os olhos fugiam das luzes
A boca rejeitava os beijos
O corpo rejeitava o amor....
Mas mesmo assim o fogo saia - lhe dos poros !
A perna emagrecida e fogosa traçava encantadora e nua !
No canto do bar ainda que muito cansada talvez até velha ...! Estava uma linda mulher e tudo se passava ali em torno dela !
Os homens olhavam pelo canto do olho..
uns desencorajados pelo porte altivo...
Outros demasiado jovens temiam a abordagem dificil ...trabalhosa...
Mas ninguém ficava indiferente àquele frêmito..àquela guerra ..àquela angustiante ternura ...
Passaram -se muitas horas o bar ia fechar...
A mulher calada e um pouco tremula tinha de sair..
Lá fora era o deserto ..morria uma canção.!
Perdida estaria a alma ¿ bateria o coração ?
Pra onde iria !
Sózinha ali ..noite afora ...
Ninguem sabia..nem ela !
Ambígua ? Sem destino...
Onde a saída.... qual o caminho...
Não havia... não tinha !
Mal saísse..... a gargalhada do mundo a envolvia !
E seria só mais uma ..na multidão que seguia...
A mulher no bar quase vazio no seu canto encolhia.....
O canto caiu ..o bar desabou... a terra tremia ....
Era só uma mulher
mas na terra que se abria ..essa mulher ficou...
e por um acaso essa mulher....sofria !

SIM MEU AMOR

Sim
sim meu amor eu quero
eu quero a tua pele na minha
sequioso
a sorver-me cada poro a sorver-me a vagina
a gritar-me esse adoro
num gemer de amor
a cada palmo... a cada dor a cada esquina
eu quero-te no meu corpo a toda hora
fosse eu planície e tu colina
fosse eu mar e tu ribeiro manso
levedando o mosto estaria eu foz e vinha
quero o teu sexo no meu em desatino
fodendo em mim o destino
como eu fodo o desalento
de te ver lento e pequenino
Batalha sem vencedor...
..espada afiada sem esgrima
Amor decepado... nesta fogueira... neste calor
que tento extinguir com muita dor
mas que sempre ressurge a clamar amor
nesta árvore...neste alto pinheiro de onde escorre
este leite esta resina....
.
Destino sem rumo ...planalto sem céu que se foda também a minha rima !
/historias vivas )
(arte Paula Rego )A casa das historias

GOSTO

gosto
gosto das entranhas
... do poeta
das mãos nuas
escavando a terra
das raízes suando
de amor....
gosto da semente
lançada
quando ela é o verso
... da alma
gosto da poesia
que posso comer

A ARVORE DAS MARIAS

A ÁRVORE DAS MARIAS
Das Marias sequestradas
do ventre do amor
das Marias amadas
carentes,sombrias.....
Com dor
Das Marias colhidas em botão
Das Marias caídas no chão
Filhas de uma árvore já velha
Com as excrescências da velhice
remoçadas pelo Sol
vermelhas de calor
Das Marias puras,inocentes.,estrelas cadentes
Virgens de sémen
De negra púbis
desenhada a carvão
de longos cabelos zangados
A penderem
da árvore em flor
Árvore de Marias plenas
Frutos maduros prenhes de amor
A árvore das Marias encheu-se de cor
Deu há luz.
!Corro
Corro atrás de mim
como uma seta !
Parada quieta eu corro !
dentro de mim eu peço.
mil caminhos eu percorro...
AI de mim que me perco.....
como posso correr assim tão quieta .. ??'
Corro porque.. me afasto da meta...
e morro de não me ver avançar ...taõ parada ..
tão quieta...
E asas para que vos quero..poeta ou não poeta !
Poeta..eu quero lá saber se sou poeta !
Ser maior e mais alto ..isso não me interessa....
Eu quero-me de coração cheio !
Com esta maldita mente parada ..sem pensamentos !
Sem desejos...sem ensejo... vazia de intenções,,,uma única
voz na garganta ! a minha ...a respiração...
aquilo que faz de mim viva !
E que me morra se tenho de voltar..que a vida parada
não se move e cansa.....cansa e cansa até á exaustão
Ai de mim que não me encontro !
que perco o fio na meada........
Sem o amor divino não vivo...sem o dos homens fico cansada !
Eu quero deus meu ...eu quero-me apaixonada !

GOSTO

Gosto
Do claro escuro da noite
despedaçada
quando ela tomba em farrapos
tapando caminho...tapando a estrada
Gosto quando a névoa se esquece do breu
e mansa ! ,,, brilha numa luz doce ,,,amada
Gosto dos teus olhos meu ribeiro....
sempre correndo tão manso...tão manso..
que encapelado pode estar o mar inteiro
e tu corres dianteiro.. criança alada...
Moura eu fui e escrava e como tu corria primeiro
quando senhor me chamava..
Servir é lindo e bom ! tal como o Sol serve a alvorada !
Ai de mim ! que já não sirvo !
e dentro de mim essa luz linda !É pesada ! esse sabor !essa música
não tem sentido ..não é nada....
Mas tenho ainda a palavra ...!
A voz que desprezo... que não cuido....
e a poesia reclama e eu não lhe ligo ....
Eu que só ouço a ferro e a espada........
e alongada me espraio na praia sempre cansada !
Venham de mansinho poetas de além não me cansem
mas falem comigo...
Venham poetas se vos chamo ...é porque de vós
preciso ...


Poeta
Pudesse eu rasgar a madrugada
E ouvir da lua os madrigais
E ser aquele cavalo branco que faz sonhar as donzelas
E juncar o mundo de flores...
.Apaziguar tornados..
Pudesse eu ver em cada dia uma manhã
Colher essas alvoradas
Pôr o Sol na mão das crianças
Sem medo 
Não fossem as crianças queimar a terra
Sem medo
Não fosse o luar correr -me entre os dedos
salgando -me os olhos
com as lágrimas dos céus
E se sem medo
fosse Mulher inteira..
Então por um segundo 
negaria o medo
Quando eu puser o Sol nas mãos das crianças
aí serei Poeta..
Margarida Cimbolini
arte Auber Fioravante Júnior

DA PAIXÃO

Da paixão
da paixão caminhante
que queres que te diga
da paixão eu digo ..não...!
vejo o teu corpo nu colado ao meu
e abraços nos braços teus
e bocas roçando espaços
a penugem do tempo na rota dos corpos
voando seara madura...ondeando tão fina....
tão fina caminhante no corpo meu
rodeando correndo querendo essa penugem minha...!
a fome ..a sede da minha boca no beijo teu....
da paixão da linha da língua torturante ....
da língua que ia e vinha e penetrava e logo fugia...
e nela jorrava da língua que sugava e bebia....
fonte onde tu ....caminhante eras foz e eras rio.....
caminhante ...da paixão eu digo não !
da paixão ...na cama na mesa na rua no chão..
estava a tua mão.....o teu gesto a tua caricia...a tua mão !
cheia do meu seio....cheia do meu cheiro....
sempre em mim ...acicatando o desejo.....
a tua mão mordia.. bulia...brincava acordava e caminhante ..
a tua mão feria.....
da paixão do fogo dos teus olhos das flores que esmagavas
na minha pele... que comias e me davas já em mel....
da paixão onde me erguias os cabelos...
onde me viravas e torcias e magoavas em meadas desatadas
em novelos !
da paixão caminhante eu digo não !
porque levás-te tudo.... roubastes todos os beijos da minha boca....
todo o meu cheiro toda volúpia fiquei nua pra sempre !
dei-te o meu corpo quente..
fiquei tua.....fizeste de mim uma louca !!
caminhante... da paixão eu digo !.... não...!

sexta-feira, 3 de maio de 2019

CAMINHOS CORTADOS

Caminhos cortados
Caminhava direito a mim
macio...braços caídos
as mãos abandonadas
no silencio um grito
sem idade sem fado sem rumo
Quem diria que esses lábios finos
iriam encher minha boca
Onde nos cabelos grisalhos
...........na face enrugada
.......................na fina mobilidade..
na palavra larga...forte e farta
Onde cabia o agudo dos meus olhos
como seria seu nome na minha voz rouca
Como certeza tamanha ...tantos sinais
e uma força estranha que pedia mais....
Sentir tanta e tão forte manha...
tal má vontade um vento tão forte
..........arreigada tempestade .......
..nos seres que há minha volta.....
cortavam caminhos ...fechavam a porta
......teciam para mim uma outra rota..........
apelando realidade,,vaticinando derrota
.........vendo no belo fealdade...........
Coisa bizarra,,entranha de mim ,,sem razão
sentir do nada saudade,,,ouvir no âmago de mim
............este roçar de asa no chão...........
Uma estranha sensação de fugir ao meu caminho
..de dizer o que não disse de questionar o chiste..
de batalhar cortando o ar empunhando o que não existe
Não sei....algo em mim se não rendeu
e fiquei sofrendo de corpo e de alma
por um nada....no chão asa roçada....
e mesmo assim na saudade a dúvida subsiste.......

AI CAFUNÉ AI UÉ

ai cafuné ! ué !
riu-se da morte o larápio
que andava a rondar o fogo
e aquele homem zarolho
da pala mal ajustada
e apareceu-lhe um troçolho
na vista que lhe restava
ai cafuné !! uè !
espera o coração espinho
há beira da madrugada
vem o dia ,vem a noite..
e de espinho não vem nada...
ai cafuné ,ué !
ai cafuné !
Espera a morte o desalento..
acoitada .....escondida no fundo do vento
.............na aresta do tempo
fôra a morte aí achada
inda o tempo não nascera
inda a lã era ovelha
inda do céu cairia
uma ultima geada
e esperando está a morte
por uma dama deitada
a ela lhe prometera
que viria e não veio nada....
ai cafuné ! ué !
ide caminheiro sem medo !!!!!...
aligeirai o costado....
.........e ajeitado o farnel........
guardai convosco o bordel..
mas podeis ir descansado
que tenho a morte comigo.......
......no meio do linho lavado....
E nunca o dia foi noite
Nem bem veio do mal amado
Corto rente com a foice
todo esse mau
olhado !
Ai úe ! Cáfuné !

DA PAIXÃO

Da paixão
da paixão caminhante
que queres que te diga
da paixão eu digo ..não...!
vejo o teu corpo nu colado ao meu
e abraços nos braços teus
e bocas roçando espaços
a penugem do tempo na rota dos corpos
voando seara madura...ondeando tão fina....
tão fina caminhante no corpo meu
rodeando correndo querendo essa penugem minha...!
a fome ..a sede da minha boca no beijo teu....
da paixão da linha da língua torturante ....
da língua que ia e vinha e penetrava e logo fugia...
e nela jorrava da língua que sugava e bebia....
fonte onde tu ....caminhante eras foz e eras rio.....
caminhante ...da paixão eu digo não !
da paixão ...na cama na mesa na rua no chão..
estava a tua mão.....o teu gesto a tua caricia...a tua mão !
cheia do meu seio....cheia do meu cheiro....
sempre em mim ...acicatando o desejo.....
a tua mão mordia.. bulia...brincava acordava e caminhante ..
a tua mão feria.....
da paixão do fogo dos teus olhos das flores que esmagavas
na minha pele... que comias e me davas já em mel....
da paixão onde me erguias os cabelos...
onde me viravas e torcias e magoavas em meadas desatadas
em novelos !
da paixão caminhante eu digo não !
porque levás-te tudo.... roubastes todos os beijos da minha boca....
todo o meu cheiro toda volúpia fiquei nua pra sempre !
dei-te o meu corpo quente..
fiquei tua.....fizeste de mim uma louca !!
caminhante... da paixão eu digo !.... não...!

O PAPA LETRAS

Papa letras
letras comidas em retortas
roídas
nutrem as couves nas hortas
como lagartas
feito minhocas
engordam cemitérios sem portas
pois que nunca lidas
em liras nunca tocadas
acabam em letras mortas
insanes de memórias
até essas foram escritas
e cozidas em forno como tortas
e tecidas
por mãos curtas talvez
de coração
pois deram há luz
letras mortas
Margarida Cimbolini