quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

O CANTO DA ROLA

o canto da rola
a rola canta
num canto bom
num canto muito cantinho
a rola canta no ninho
é branca e loura a rola
e rola num bailado nu
de penas esvoaçantes
é linda e roliça .perturbante.
o borracho ouve extasiado
responde num piu-piu cantante
as penas alvoroçadas
pula num orgasmo pulante
de quem está apaixonado
em baixo a terra vermelha escalda
o Sol brilha ardente
mas no ninho da rola há uma frescura quente
um macio ouro de penugem feita bruma
na penumbra de um sobreiro secular
bolotas tombam tic-tic no chão a latejar
tudo convida ao amor
e a rola no seu canto bom e dolente decide amar...

GRITO

grito
é o meu grito de silêncio profundo
o meu grito sufocado
todas as manhãs a deusa da luz vem
faz nascer o Sol.
todas as noites volta a engoli-lo
regurgitando a Lua.
e dentro de mim nasce o meu grito
aquele que grito por fora
assim são as minhas células
assim são os meus átomos
assim é o mundo
o mundo que eu vejo
uma vez aberta a porta é preciso sair por ela
tamborilar sobre os ossos
até há Luz.
por isso grito
deixei toda a esperança na entrada
tudo está do avesso
e a entrada tapada
quero sair e o meu grito ecoa....grito..

O LEGADO

o legado
tu ...você
era o meu verso
a lua nos seus olhos
brilhava nos meus
eram tuas as minhas madrugadas
.......amor quando partistes ..
deixas-te tantas luas devastadas
quantos Sois alumiavas ?
peixe do mar e dos céus
plural de amor
prenhe de tanta ternura
senhor da tanta amargura
quanta dor,,,,quanta procura
das estrelas roubavas os véus
inventava-te
eras príncipe ,gigante ou corcel
bíblia ou romance de cordel
sonhava-te
descias íngremes caminhos
ou nos bosques flor do mal
ou rosmaninho
do outro lado do mar
oceano no meio
e eu...nós a naufragar
eu menina tu menino..
.
um postigo na vida .
imenso carinho
uma estrada sem ida
amantes no sonho e no ninho
poeta não morre ...lega!
guardo o teu legado
........aqui com teu cheiro a rosmaninho...

GAIVOTAS

gaivotas
gaivotas voam no meu peito
mas de tal jeito
que as sinto sós
voam em bandos
mas uma a uma ao céu ruma
no abrigo de cada pluma
.dentro de mim há gaivotas.
e cada uma murmura.
quando sai pede há lua
que encha a minh,alma nua
que a encha de sobressaltos
que torne esta sede mais pura
que me banhe no mar alto
que ninguém me chame sua.
que apresse a minha procura
pois que bebo água salgada
e esta sede não mato.

VIVO

vivo
vivo da tua pena
do amor que tu me dás
e não sei que nome dar-te
essência que brotas da vida
e que me fazes viver
dizer que te sinto é pouco
que pr,a ti vivo é mentira
não sei o que é pecado
mas vou lambendo esta ferida
e ferindo o corpo em vão
a ti escondo-te o nome
e guardo-te a palavra
mas bem no fundo de mim
só posso pedir-te perdão

IREI

irei
mas irei sozinha
tal como cheguei aqui
comigo vai alma minha
e mais aquelas que eu vi
e faço da noite dia
não tenho medo das trevas
tantos que andam de dia
escondidos debaixo das ervas
vou no caminho na luz
tropeço na nostalgia
.não peço a quem saiba lá ir
se com vela me alumia.
pois a viagem é ida
e o fim é o caminho
é o meu trilho é sagrado
apenas a vela se ardia
e o caminho apagado
irei
pois não vejo escolha
e nascendo eu já escolhi
agora tirai-me a carga
pois qualquer dia morri...
Margarida Cimbolini

IR

Ir
Saí por aí
A ver a vida passar
Mas o que vi
Ainda me fez mais pensar
Fazia frio
Um frio de Inverno
Um frio sem Sol
Um frio tão frio
Que parecia eterno
Rompi amarras
Andei há deriva
E vi pessoas com garras
com grandes bicos cobiçosos
com pequenos olhos ávidos
Invejosos
Pessoas. todas iguais
Seguindo sempre em frente
Um ou outro caminhava sorrindo
sonâmbulo impenitente
talvez o mais humano
por inconsciente
Homens sem cor
Mulheres com vozes de tenor
E com enormes dentes
Senti -me enfartada
E eu gosto das gentes
Mas de gentes livres
não presas numa liberdade apregoada.
Cada vez vou menos por aí a ver a minha cidade tão linda tão antiga e delicada
Sinto -a a chorar magoada
Também eu mudei
Talvez fosse sempre assim...
e corresse também atrás
do meu nada..
Esperando um milagre..um rei...um amor..Uma fada...
Agora só me espero a mim
Estarei como a cidade! ?
Dormindo nas asas do passado esplendor..
Irei sim..irei quando farta de mim
e numa praça num Jardim
Irei colher jasmin a perfumar a cidade inconformada....
Margarida Cimbolini

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

PERDIDAS

perdidas
perdi minha barca bela
entre as ondas..no mar alto
e minh,alma com ela
perdeu-se nesse ressalto
tantas almas se aqui lavam
neste mar de águas tão puras
chegam brancas e vão brancas
de azuis se vestem as sujas
a minha perdi-lhe a cor
pois minha alma são tantas
e juntas são só amor
no vidro caem as manchas
a água também lava a dor
grandes males ficam crianças
neste oceano incolor
perdi minha barca bela
pois estava carregada
despejei toda a mágoa dela
e fiquei com a barca leve
....e com minh,alma lavada
enxerguei então melhor
........o fundo verde do mar
e fiquei aqui pr,a sempre
... nas ondas brancas de espuma
aprendi aqui a amar todas as formas do ar
.........do nevoeiro e da bruma
respiro agora luar e voô como leve pluma....

domingo, 7 de fevereiro de 2016

ERGO-TE

ergo-te dentro
e já não sei o teu nome
perco nomes e memórias
guardo cheiros tatuados na pele
devias dizer-me o teu nome
para que pudesse sonhar-te
ainda que fosse nome sem rosto
também não recordo os rostos
só os gestos e os sentires
tudo o resto se esfuma
e nas minhas noites insones
já te não invento
devias saber que te chamo
na inconformada solidão
e não sei já o teu nome...
apenas te confundo na noite
que guardei em mim.

TALVEZ OS ENTERRE

talvez os enterre
dentro tenho um Deus que mata poemas
e muitos diabos atrás de mim
roubam-me as silabas
sinto-os nas comissuras dos lábios
e a tocar teclas de piano entre os meus olhos
a custo escrevo.... sempre com medo
ele rouba-me os poemas
espreita-me atrás das teclas
nos lóbulos das orelhas
nas entrelinhas das palavras
engordo diabos com silabas
e as rãs saem dos lagos
para me dizerem que não escreva
dentro tenho um Deus que mata poemas
não sei onde os guarda...talvez os enterre !
escreverei na pele........

A ALMA

a alma
entro e saio dos pensamentos
entro mais depressa do que saio
especialmente se for um pensamento doloroso
gosto de me sentir mártir
há uma parte de mim que vive d,isso
rebola-se na cama e nos sofás quase sensual
outra essa que eu sou sem ser realmente alguma coisa
revolta-se e inquieta-se nesse marasmo
essa é escrava das horas do dia e da noite
também não a quero..
há muito que não lhe obedeço
mas também me usa para sofrer
depois tenho outras dentro de mim
a alma ...essa raramente a penetro..
é muito difícil sair...
posso sobrevoá-la..faço-o com medo..
assusta-me sentir-me tão frágil
e preferia não ter esta escolha constante
já não aguento as escolhas
o corpo atrapalha -me é nele que escorrego
e não quero pensar nisso
estou portanto há mercê de tudo e de todos
frágil como um caniço ...dura como uma rocha
estúpida e grosseira que nem calhau
e ainda me perguntam porque sorrio tão pouco...

TOADA

toada
o teu rosto
que me beijava
boca de mosto
onde eu nadava
grossa a pele
poros fendidos
caricia tão leve
desperta os sentidos
meus longos cabelos
que tu enredavas
saudades tantas
dessas mãos brancas
postigos da vida
dizem que não
sem te dar nada
fui coração
fui fio de prumo
e tu meu rumo
rota muito amada
dentro de mim
crescia o calor
e era tua
na margem do rio
no chão na cama
o corpo sorria
na tua chama
partis-te um dia
como quem ama
agora saudade
esta alma ferida
no teu rosto sonha
e não te chora
olho o teu rosto
uma prece erguida
amo-te mais
amo-te tanto
mais que outrora
na vida partida um sorriso chora...
Margarida cimbolini

SÃO AS CARPIDEIRAS

São as carpideiras
que chegam
mulheres curtas
de saias inteiras
têm olhos negros
e faces cerosas
usam ventos negros
as mãos cor de bruma
postas a carpir
ângulos no rosto
choram quase a rir
as lagrimas mortas
traçam sulcos fundos
são as carpideiras
a carpir o mundo
eram aves negras
vinham num sussurro
são as carpideiras
que se vão chegando
de volta às lareiras
dunas que separam
o mundo do mundo
à noite noitinha
lá na capelinha
saem as herdeiras
num silêncio fundo
vão. carpir ideias
e na capelinha...
depois de louvado
o pobre defunto
fica só coitado.
Margarida Cimbolini

SONS

sons
o silêncio esculpe
sons no ar
ondas maleáveis
ondulam no tempo
a manhã escuta
há neblina no ar
espessa húmida e fria
não gosto da manhã
os tempos são só tempos
a manhã a tarde a noite
tempo esquartejado
lamelas de Sol e de chuva
conceitos das horas
prisões que o tempo consagra
sem cor sem razão sem amor
correntes fortes
que magoam os corpos
culpam e esmagam
os seres
é preciso obedecer
fujo do caminho
penduro o lençol
no varal
branco na lua cheia
escarneço do tempo
numa luta insana
viajo no tempo
o inverno arde na tarde
apenas um momento
no sermão do padre
Pois sejai fiéis
No inverso da razão eu e o tempo
na estrofe e na rima come-mos poesia
de manhã do tempo na noite e no dia

FRIO

Frio
Está frio dentro das pessoas
o frio húmido de quem
amanhece sozinho
Está frio no coração das estátuas
Essas que dançam ao som dos tambores
feitos música
a fútil música que ressoa
nessas montanhas sem eco
Hino sem explendor
País sem passado
Estátuas alacres e vazias
Essas que envelhecem a saudade
Cujo brilho ofusca a verdade
Raiz mergulhada no gelo
Feminil caricatura de mulher
Sempre encontra seu par
Ocarinas sibilantes
Só o mar pode salvar
só ele pode lançar seu feitiço
Muralhar lento corroendo o frio que está dentro das pessoas
Que venha o amor!
Margarida Cimbolini

ERA POSIA

era poesia
quando eu era outra criança
lia e relia e cismava
pensava
tinha uma grande trança
grossa e loura
antes ela esvoaçava
para ler prendia-a
as letras querias grandes,,gordas !
um dia descobri um pequeno livro
entre os grossos livros que já lia
de letras miúdas....falava de mim
dizia das coisas o mais..
mas de outra forma
... nunca ouvira coisas tais
era o que eu escrevia..
seria milagre alquimia ...
como adivinhava a minha pequena vida
a minha súbita alegria
e logo lágrimas tais que nem eu percebia
os brilhos do Sol que guardava nas mãos
o mar vivo a minha companhia
a lua e tanto tanto mais ..o livro sentia !
foi a primeira vez que li poesia....

E

E..uma imensa ternura me invade
pela poesia
pela minha...
pela que ouço
pela que leio
pela palavra
perfumada
e esguia
não a de antes
ou a que ouço agora
ela é só uma
e quando a esqueço
esta terna saudade
me invade tal como
hoje e sempre
me invadiu outrora

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

SOU

Sou
sou barco ancorado
no ventre de minha mãe
não venho pedir nada
não quero nada de ninguém
quero nascer dentro de mim
saber o que a vida sabe
ter o que a vida tem
quero o âmago da noz
da romã os rubros bagos
do cimo da amendoeira
quero ser a flor branca
que guarda a alma inteira
quero para mim a moura princesa
o branco dos olhos dela
e no azul claro que ilumina os céus
quero minha luz acesa
com olhos de mim lavados
e as minhas mãos abertas
presas há historia do mundo
de luar as quero cobertas
e a sede na alma bem fundo
molhada na água do mar
para que tenha mais sede
e queira o amor profundo
incondicional e fecundo
pois meu destino e meu rumo
é cada vez mais amar não o amor
deste mundo.....mas aquele amor salgado
que vem nas ondas do mar..........

GULOSA

gulosa
gulosa de sentir
o teu cheiro
a tua mão subindo e descendo
vagueando no meu corpo
gulosa dos lábios mordentes
tão ávidos tão quentes
um dia hei-de chamar-te amor
mas não esta noite
esta noite quero-te assim
menino na dança das mãos
tão carinho ... desbravas o caminho
como se ele fosse tão virgem
,,,,,, como o teu sonho
e rolo em ti gulosa de sentir
sentir os teus olhos no escuro
tacteando os véus com que me cubro
as tuas pestanas batendo na minha pele
a que já chamas tua
............talvez venha a ser tua
esta noite quero apenas sentir...sentir-me
desgarrada.....molhada e nua.....sentindo.....
......gulosa de sentir....sinto -te......

logo

Logo
Logo na beirinha da tarde
Escuta a folha do vento!
Elê vai trazer saudade
Sou eu meu amor
Venho dar -te o sonho
da minha realidade ...
Margarida Cimbolini

FAÍSCAS

Faíscas
crescem na terra
cearas de loiras espigas
quantas mortes! quantas vidas! 
as faíscas do destino
tombam nas palmas das mãos
longe de nós está o tino
de abrir o coração
muda a Vida de repente
ao sabor do Universo
emproado e indiferente
cada um segue o seu verso
abre -se o céu de cansado
tudo avisa a tempestade
os animais Inquietos
anseiam por liberdade
o humano hirto. erecto..continua a passar certo.
qual detentor da verdade
que me queimem as faíscas
no tropeço da idade
peço o aviso constante
e mais que tudo o que tenho peço uma grande humildade

VENDADOS

vendados
ceifadas foram as espigas
quando prontas a colher
vendados estão os meus olhos
vendados ás alegrias
para onde estão voltados
estão cheios de avé-marias
ceifadas foram as espigas
quando prontas a colher
abertos sejam meus olhos
antes de o corpo morrer
abertos que os tenho dentro
por meu mal estou a sofrer
vendados estão os meus olhos
só porque não quero ver