ARRAIAL
os tambores tecem suas cores
no ar macio
há um pássaro azul sugando o tempo
dos sugados
chega-me o lamento
há um pássaro azul sugando o tempo
dos sugados
chega-me o lamento
tecem os tambores
dores amarguras esquecimentos
dores amarguras esquecimentos
são os povos lutando
largos olhos olhando dentro
nas ruas coram as pedras
também elas vendidas
pela ganancia desse vampiro sedento
largos olhos olhando dentro
nas ruas coram as pedras
também elas vendidas
pela ganancia desse vampiro sedento
e os morros os canaviais os vales
são corridos pelo vendaval
são corridos pelo vendaval
são os tempos das lutas das batalhas
abre-se o eu em valente plural
abre-se o eu em valente plural
como ignorar o povo
se o ouço chorar
sereno mas rouco
como manso animal uivando
roubado pelo chacal
se o ouço chorar
sereno mas rouco
como manso animal uivando
roubado pelo chacal
é o meu povo
e eu que povo não tenho
nem bandeira .nem curral.
ergo os olhos
e eu que povo não tenho
nem bandeira .nem curral.
ergo os olhos
já o pássaro azul mudou a cor
agora é cinzento
cor de metal
.e não voa . caíram as penas. uma. a uma.
cheio de penas está meu país
e eu que não tenho país
.nem sei nada. deste bem. nem deste mal.
agora é cinzento
cor de metal
.e não voa . caíram as penas. uma. a uma.
cheio de penas está meu país
e eu que não tenho país
.nem sei nada. deste bem. nem deste mal.
.ouço os tambores. e as penas . deste pequeno arraial.
margarida cimbolini
