quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

o castelo

o castelo

Sim 
foi com paus e com pedras
com água do mar
cerzida nos montes
com rios correndo dentro de sóis
com pingentes de ouro
erguidos em altares
com lágrimas vivas e feras
rugindo dos meus olhos
com os meus risos de criança
e sonhos caídos da lua
foi de noite e há luz do luar
que construí este castelo
cavei os alicerces com as mãos
com as unhas alisei as pedras
com os dentes cortei as cordas
e os com os pés feridos
nas escarpas que subi...
fui abrindo ogivas em janelas
os vitrais são as minhas retinas
e os azuis fui buscá-los ao céu
queimando as minhas asas
na torre mais alta plantei uma flor
e cada pequena frincha
durante anos foi tapada com amor
Não
não será fácil derrubá-lo...!
vinde com rodeios e mesuras
vinde com indiferenças saborosas
vinde com silêncios desafiadores
conheço os vossos pensamentos
cheiro os vossos andrajos
sinto as vossas cobiças e invejas
vinde e tentai deitá-lo abaixo
não cairá senão por minhas mãos
..........porque é verdadeiro e é meu....

Margarida Cimbolini

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

vazio

vazio
nesta cadeira vazia
eu me sento a baloiçar
enquanto balanço penso
quem me dera não pensar
quem me dera ser como ela
sobejo de uma oliveira
sem azeite pra jorrar
sem ser nem fazer
sem partir....sem chegar
apenas uma cadeira vazia a balouçar

AOS MEUS POETAS

aos meus poetas
versos em tiras de veludo
metade do meu pão
e o meu ténue sorriso
aos poetas que eu amo
as rendas do meu tear
os vôos das minhas asas
na indiferença dos céus
eu darei estrelas do mar
para tecerem comigo
estas rimas de luar
estes ramos que saem de mim
estes gritos do meu ser
estas ânsias de viver
os meus poetas eternos
as minhas loucas poetizas
rumos da minha historia
poetas desçam devagar
venham de mansinho
venham pelo postigo
porta dos sem abrigo
no vai -vem do respirar
depois suspirem comigo
ficam no meu colo antigo
naquele que sabe embalar
ai os poetas que eu amo
amo ainda mais que o mar
na fímbria do meu vestido
sinto-os a sussurrar
não o hei-de tirar nunca
ninguém mos há-de roubar

ONTEM

Ontem
Ontem caíram estrelas
Não as viste ?
Eram aos milhares
num brilho
de quem existe !
Num brilho
nem alegre nem triste !
Vieram ver a terra....pois..
luminosas..
para não queimar ..
vestiram.se com poeira..
Não as vistes ?
Inunfaram a vida inteira !
Não as vistes ?
E diz-me...tu olhaste para o céu ?
Margarida Cimbolini

NÃO SEI NADA

Eu sei lá de tudo o que não sei..
Do que sei menos de uma gota de chuva
É tudo o que a tâmara guarda
São estas lagrimas vertentes
Lagos escorrendo orgulho e ego
Flagelos com que me flagelo
Olhos dentes de dragão se refletem no espelho
Sofrimentos de antenho..
Sangue do meu sangue
Cabeças de veias liquidefeitas
Oferendas imaturas.
Dar o fruto do meu ventre ainda não nascido
Tudo faz ricochete
Mil anos depois será assim...
Assim seja
É este o rumor dos meus ossos
Margarida Cimbolini

PASTOR

pastor
se não pastoreias
viaja sozinho
dez mil passos
para que os queres
podes ir onde quiseres
nessa estrada tosca e bela
serás o teu pastor
levarás a alma nua
mas sempre e só a tua
não pares nas ogivas das janelas
nem te percas nos pingentes
nem te aqueças nas velas
estarás num umbral sagrado
deixa pra trás os vestidos
os vitrais e as paixões
pastoreia o teu rebanho
que és só tu
e saberás as palavras
se te faltarem ovelhas
elas te seguirão
na serena melodia do mar
sem alardes nem festões
se não pastoreias
viaja sozinho
escuta o búzio no caminho

Passos soltos

passos soltos
em memorias
nasceu um dia uma serva
que a todos ela servia
não era brava nem bela
nessa casa sem janela
onde a luz só ela via
passos soltos ela dava
de lá pra cá de cá pra lá
serviu mãe serviu irmão
serviu pai e serviu tia
e todo o dia chorava
moura que mourejava
cada minuto do dia
serva muda e amuada
que a vida a não servia
e vazia estava ela
pois estava a casa vazia
nessa casa sem janela
onde só a serva via
acendeu uma fogueira
e acendeu a candeia
a casa já estava fria
e estava a serva sozinha
o gato por companhia
e nem a ela servia
morreu a serva cansada
pois que não ..fazia nada
.........
.........se cá houvesse santeiro
eu um santo lhe pedia....
...só pra honrar essa serva
e a quem ninguém servia
essa serva que foi serva
e não se serviu da vida
essa serva
...onde a vida não fervia....
8 -12-2016

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

SE CALHAR SOU BURRA

se calhar sou burra
se calhar é a morte que fica
e a vida que passa
se calhar viver é complicado
e morrer é muito simples
se calhar a alma é eterna
e a dúvida também
se calhar eu sei mas não sei
por isso sofro
se calhar eu brinco com as palavras
porque elas brincam comigo
e tenho a ilusão de que Deus omnipotente
está a ver o que eu faço e leva-me ao colo
se calhar sou que carrego ao colo um Deus pesado
Burra atravesso o rio com a minha carga de sal
e na outra margem fico sentada porque me doem as costas
Quando o sal se dissolve agradeço o milagre
se calhar vivo num deserto cheio de oásis
e estou sempre á procura de um camelo que me leve ao colo
.se calhar sou burra.
Margarida Cimbolini

SOU EU

Sou eu
Não sei
Assisto a tudo isto
Vou aqui e mais além 
Por mim não ia !
Ficava ...como fica o gato macio..bucansdo o quente
e o carinho....
atrás do seu olhar verde..
sem querer saber de idas..
andando se houver caminho !
Ficaria escutando os meus ruídos .
Voando nas minhas alturas !
Alma branca em... ....desassossego !
mas vou pois tenho até medo !
....de ficar neste segredo..
E saio a ver a lua ..
....mas há gente no meio....
e almas fundas fechadas..
Fechaduras encerradas ...que rodam na minha chave..
Estava então eu tão quieta neste meu desassossego e venho em linha recta...
A saber doutro degredo..
E tudo me passa na frente !
E tudo mexe comigo....
Chego a pensar que é castigo !
Tanta gente...em romaria !
São ventos que vêm de longe e chuvas e tempestades...
E antigas ondas e vaidades...
Então fechada e indecisa..
recuo..quero voltar para o meu buraco azul verde sereno e louco
...onde me aturo só a mim
e isso já não é pouco.
Margarida Cimbolini

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

ACORDO

Acordo
Sinto montes de agulhas no peito
Elas não me magoam
Não ferem
Despertam
O gato passeando sobre o meu corpo
marca com as suas quatro patas finas e frágeis
Pressiona me e massaja me
Exita me
Dá pequenas marradas com a cabeça
Acaricia me
Roronga mos os dois
As agulhas espalham se no corpo
Sabem bem
O gato olha me magnifico !
Belo .....felino..em silêncio
Amo o ...entro naqueles verdes lagos
matizados limpos e transparentes
Durmo neles ..afagam ...aninham !
Ondulo o corpo..
Escorro molhda de amor e feliz
O gato olha me e salta sem me desfitar
Amo o

DIAS

Dias
Andam os dias mornos
presságios de tempestade
Andam os dias quietos
fala o tempo de saudade
Falam os homens do tempo
há espera da liberdade
levam sacos de promessas
e nos bolsos mil conversas
... nos olhos nasce a verdade..
e neste tempo às avessas
....enxerga-se a realidade...
Andam mornos estes dias
.....e já é quase Natal....
... o país quase adormece !
....e o povo que estremece
é do nosso Portugal. !
Voa a dançar a bandeira..
e o hino soa no ar...
O povo finge alegria.?! Não,não finge.... soluça e berra....
O gado precisa de erva ...
a terra já pede chuva....
O povo quer mais que pão..
....quer crescer ..saber e ir...
e está farto de perdão..
O povo quer liberdade !
O povo quer mais que pão !
Quer esperança e dignidade !
E o povo tem razão...
Portugal quer a verdade..e já não pede só pão !
Margarida Cimbolini

mel

mel
Tropeço nas palavras
Palavras chave
Que esqueço 
Na beleza
Na ogiva
Tropeço no dia
São silvas e sílabas
Roseiras de mel e verbos
E a beleza que invento inteira
Enquanto fujo e tropeço
Corre me nas veias sangue
e as silvas na pele
rasgam os poros onde nascem as rosas
É esta beleza que invento toda inteira...
Enquanto fujo da beleza verdadeira...
Temo o Sol..

GELOS

GeloS
Geme o pássaro de frio
Num sussurro de alarido
Vem bater-me há janela
..na esperança do meu sorriso
Não sei sorrir ...digo eu !
e espalmo a mão no vidro..
numa carícia de amigo !
dando-lhe o calor meu..
Esvoaça alardeado....
..com asas de quem não quer !
Colo os lábios na vidraça....
e o bafo de calor passa..
No parapeito palpita a ave que
me visita...
.....e fico triste aflita ......
.....sem saber como fazer......
como aquecer passarinho
......se ave não posso ser.....
nem posso dar-lhe carinho....
Margarida Cimbolini

CLARIDADE

CLARIDADE
sem clareza a luz se torna breu
gentil a gentileza desta frágil claridade
de onde me vem esta iluminura antiga
que de repente me ilumina a vida
feliz daquele que a tem clara em beleza
arredada da saudade
tocada em cristal transparente
insustentável na sua imensa idade
e adentro do tempo a toma
sem matar a poesia
banhando-se nessa luz morna
de se saber serena
descansando sem nada garantido
vogando como nau fora de perigo
gozando o barulho do mar na noite
aluando da lua o açoite
esquecendo essa terra de gigantes
quero-me planta nessa ilha
seja a terra minha mãe e eu sua filha
regue-me a chuva com sua água pura e fria
conte-me o amor a sua história
e guarde.me a Paz na sua gloria
dos loucos dos poetas dos que tenho em mim
guardarei eu a memória.....
Margarida Cimbolini.

ESCREVER

Escrever
Escrever sempre
Sempre que o coração doi
Sempre que o corpo range
e a lágrima corre
E a cabeça grita
No céu ha uma mensagem aflita
Que só a palavra socorre...
Abençoada escrita..
na palavra que não morre..
Margarida Cimbolini

CLAROMODO

Claromodo


Claro que posso sonhar -te
Claro ou escuro
A sépia
Ou a cores
E posso chamar -te amor
Posso inventar cume de montanha
Lava em erupto vulcão
Posso gelar-te
E ferver na tua mão
Posso colar - me a ti
Nua redonda e louca...
E morder lambendo sôfrega
O sexo absoluto sem temor nem rejeição
E voar rápida e mouca..
Sozinha em maré e solta ...
Mas tu sem mim...ficarás
de olhos mudos...
Com beijos murchos na boca
Ou a pagar ilusão..
Posso correr por aí desaforada
e do céu fazer estrada..
E tudo quieta ..parada..!
Posso quase tudo...
Tu não podes nada..
Mas vem amor ..corre bate à
porta sobe a escada..
...e entra em mim...
...faz de mim escrava..
e ama me com paixão !

Margarida Cimbolini

AS MAÕS

As mãos
Olho demoradamente as minhas mãos
as mãos com que escrevo !
São pequenas e delicadas
Não sabem agarrar nem prender...
Solto as por aí e trazem os liquidos sons do dia..
Correm nas planícies azuladas pela neblina..
as minhas mãos de chuva.
Trazem gotas de orvalho..
faiscas de Sol..
Trazem pedaços de céu e as ondas do mar..
Trazem cadilhos de renda...
que não ouso desatar..
As minhas mãos de amar
São mãos de carícias postigos de sonho...
...nuas de neves quentes de luar !
Já criaram filhos já tiveram pais....
Já amaram homens correndo lhes no corpo
....aladas como quem sabe voar..
Já mataram rosas..e já foram jardins
e teceram rendas tão finas..com brilhos de mar..
Nasceram assim com o coração..e sabem falar..
Minhas mãos alegres quando podem dar......
Mãos de noite e de pecado
Mãos acesas .... fogo alto e a queimar,,,
Olho-as finitas indefesas.....contritas....
não sabem mentir nem roubar.....
Escondo -as em laços e fitas !
Junto -as aflitas ! Choram ! são ternas e doces..
mas não sabem rezar...
Margarida Cimbolini

terça-feira, 22 de novembro de 2016

VIOLETAS

violetas
violtetas são chagas
abertas mas veladas
a florir nos corações 
são flores mais do que as rosas
rochas odorosas onde fluem paixões
.....raminho de violetas....
pregão de flores já secas
morrem as violetas
e nascem de novo frescas
severas senhoras das dores
iluminam os amores
felizes explendores
temas de canção
eu gosto de violetas
flores tímidas quase pretas
e são violetas silvestres
as últimas que me destes !
.....
....raminho de violetas...
.......
vem meu amor não me esqueças...
...traz contigo violetas e traz o teu coração..
Margarida Cimbolini

PUTA

PUTA

sua cama era o palco
palco negro sem palmas
sem amor sem retrato
vazio de sorrisos
rio de gestos sem alma
berço de maus tratos
Joana era puta
porque se deu e valeu
e gostou de dar....
amou para nunca mais amar
tinha corpo de puta
cara de puta .tinha pé de puta.
Vida jogada na rua .na minoria.
sem memória .era de quem a queria.
Ela era assim .corpo instrumento .
cada dia costurava seu lamento
e perdia um pedaço tento a tento
costurou pedras mochos bombas
cada linha era uma veia
cada ponto um sonho uma ferida
de pensar fugia . cuspia ideia.
já não via .apenas se abria. .se rasgava.
se vendia por tudo .por nada.
Joana ponta de cadeia .ponto cruz. ponta feia.
Sem rosto . caída. .quanta Joana. .na puta da vida...

Margarida cimbolini

MÃE

mãe
de cara fechada
quase sempre..
olhando o chão
não
mãe
eu era rosa em botão
alma branca
na farda branca da escola
não
mãe
eu era lírio de beijos
apenas desabrochado
era lágrima de chuva
pão alvo
trigo exposto
pessoas em tinto mosto
sol que nunca foi posto
máscaras verdes de inveja
não
mãe
eu era flor do campo
rebelde erva daninha
tímida purpurina
brilhante jóia de ser
marionetas
cordas...nós em lenços
de seda escura
janelas abertas no pranto
plantas murchas de sede
olhares agudos ...secura
não
mãe
eu era tudo isso..
e tu que nunca deste por isso
quem eras tu ..
arte Aida de Sousa Dias

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

CAOS

Caos
A vida passa por entre os véus
de inimagináveis transparências
Nunca a tinha visto assim
Sem poesia....Inexorável !
Cheia de abismos...
Malditos buracos no tempo
..onde temos todos de cair
Sucessão de tempos...
Luas de incomensuráveis fases.
onde somos incinerados sem remissão!
Inevitáveis passos que temos de dar.
Filhos de pais menores...tão menores como nós...
Existentes do que não existe !
Fantasmas de nós mesmos !
Insustentável leveza da vida..
Insustentável beleza da vida !
Insustentável certeza da morte !
Sem pecado apenas sendo gente !
Foi e será assim para todo o sempre !
Ateus crentes velhos ou novos..
Crianças lançadas no Universo
Caos sabiamente organizado...
..onde enlouqueço no agora...
Não sei o que fazer comigo !
Margarida Cimbolini

A VÉNIA

A vénia

venero os azuis
que me alegram o Inverno.
e da chuva venero as gotas transparentes
que molham as alvoradas....
e do tempo venero os segundos lentos de Paz
serva das horas nele me alimento.
e dos mestres venero as pegadas.
e das espigas venero,,,,, o sustento.
e dos lilases,,,,,, venero os perfumes
suaves e unos

que adejam no ar
neles me debruço e venero os rios
,,,,,,venerando com eles sua fonte.... o mar....
venero as colmeias e venero os frutos
e os doces momentos em que sou luar
venero o amor que traz alegria
,,,,,,e das mulheres venero Maria ...
com toda a brancura que seu nome traz
venero a alfazema tão fresca e serena
não crescera ela flor que me apraz
Venero com ardor toda a criação
,,,e faço uma vénia longa e demorada
ao elan que nos tira do nada...........
há vida me curvo e peço perdão...
por ser criatura arrogante e irada
e se bem a conheço por ela ensinada
,, curvada me acho colhendo a semente por mim semeada...
Margarida Cimbolini ,

NOIVA DA NOITE

noiva da noite
em cósmica maresia
me tornei
lua,s de mim
cavalo de troia
virgens semi -nuas
em transes
acossadas por Eros
vieram ás margens
deste rio de luar
em que noivei
neve transparente
poeiras de depois
foram chuva de gente
boca clemente
boca da noite que beijei
oh ! nuvens do céu
mares de semén
cores do vento
peregrinos por essa estrada
recebei a noiva da noite
com azevinho
aliada do anjo
recebei a noiva da noite
com néctar divino
noite passeia-me em teus braços
,,com a noite me casei.....
Margarida Cimnolini

ELA

ela
aquela que nada é
só sonho habitado
onde os anjos pernoitam
e as chuvas se juntam ao mar
onde reina a tempestade
nos dias de calmaria
e nascem flores
de bastas hastes esguias
aqui onde longas tranças
se vestem de brocado
e todas as amadas
fenecem no amor amado
aquela que nada é
nada sabe nada tem
aquela que é senhora
de não ter de ser alguém
aquela com corpo de ninhos
vestida de nuas aves
coberta de nulas rendas
aquela que não cresceu
essa que estiola na terra
que não tem lugar no céu
farrapo que se perdeu
é essa a que eu procuro
n,outro sitio que não eu..
Margarida Cimbolini

CIDADE

Cidade
A minha cidade
onde nasci
Tenho saudades de ti
Lembras-te Lisboa daquela luz ao entardecer ?
Era milagre ! tão linda..
Banhava me em ti ..
Naquele tempo era tudo...tudo podia ! e ria !
..pequena sereia encantada na tua magia..
Até das pedras nascia luz e voava..ouvia a tua voz..
num sussurro quase me doía !
Quando voltava cheia de mundo trazia todas as cidades
para ti...
Achava te pequenina ! cabias toda inteira numa mão cheia !
E pouco a pouco sentia o teu respirar e era tão doce o teu ar..
Agora estou perto e não te vou ver..
Fico a recordar te e anseio o teu olhar
Mas fico ! parada poisada a ouvir te dentro de mim....
A cantar como só tu cantas assim... canta Lisboa....canta só para mim...
Margarida Cimbolini

INVERNO

Inverno

sou- te fiel

peso te
na quentura
dos meus olhos
julgo te Primavera
ou Outono

sou folha seca e caio por ti

Entre páginas está quente

Encontro borboletas frias quase pergaminhos
e partituras que queriam ser versos
No Inverno sou te fiel
Espero uma chuva de Verão

Margarida Cimbolini

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

oh

Oh !
Ai quem me dera
ser só uma pequena esfera
solta assim no meio de céu 
Teria o Sol só para mim
mas não a queimar em laberada
Não ! Queria um Sol macio..
E ao luar também o não queria frio !
Teria a lua como eu redonda e nua !
às vezez envolta em neblina...
outras mágica lancando uma poeira fina..
e eu eterna e contente !
Voando atraz de um cometa..
pequena estrela cadente....
Sempre linda e feliz...
bordando o céu a matiz...
Há chuva matando a sede ....dançando sem sombras sem rede sem mim !
Ai quem me dera ser só poesia e amor
e neste desejo.. neste voar delicado
de tal modo me embriago.......
que me esqueço que tive principio
e terei fim..
e que apenas passo e tão breve..
como breve é o odor do jasmim..
Margarida Cimbolini

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

VER

ver
ele via
e o ver é uma cegueira
aquele que vê se enrodilha
numa grande e bela teia
e ele via
via olhos negros de pranto
e céus de estrelas e sóis
via a terra onde pisada
e os sítios onde andava
via o que lá estava
e o que no ar pairava
e o ver é uma cegueira
quem dera a muitos não ver
a ver daquela maneira
ás vezes fechava os olhos
na esperança de não ver nada
e via dentro de si
um mundo onde não chegava
ver ás vezes é penoso
que me perdoem os cegos
que os meus olhos tenham vida
até o meu corpo morrer
mas que aqueles que olham
e nada parecem ver
tenham respeito por quem
vê o que não quer ver

CHARCO

Charco
No charco coaxam as rãs
A àgua é grossa e vestida de lodo
Há neblina
Do charco evola -se uma fumaça suja
O charco forma uma ilha borbulhante
Há volta pululam insectos de vôo baixo
Se chovesse os pingos fariam pequenas outras ilhas
e pequenos circulos vertiginosos e breves
Sinto- me parte do charco
Mas tão grande que nem nele iria caber
Monstro de cabeça cheia tenho momentos assim
Nem no charco penetro
Sou eu o charco e chovo !

IR

ir
naquela tarde quase noite
ensinaste-nos a morte
soprei -te na boca
abanei-te
nada aconteceu
serenamente seria bom
mas não
sereno depois
antes degolado
veias mortas
pânico da vida
e afinal nunca te perdi

AFRODITE

Afrodite
mãe sim que o serás sempre
nascida e festejada
mãe porque ao amor deste corpo 
desbragada.....
beleza como tu... Deusa do amor...
Afrodite onde está teu filho ?
longe de ter crescido loiro menino alado
longe que está de Cupido..
Eros amor adulto carnal...
....... os corpos em festa...............
O Carnaval dos sentidos......bocas ,línguas,
.....sexos encontrados ......
........o vermelho das virgens...o fogo lavra....
Mas chega Ágape presunçosa.......princesa moura
estendida .....do amor terno amorosa..
Traz água e sede infinita marés de oiro preciosas....
....e almas ambiciosas.......historia da sabedoria.
é este o amor de Ágape....o maior amor do mundo...
Guerra de linho e de querer vem Philos desabrido...
o amor há beleza é pacto secreto e branco....
e ergue.se a estátua de Sal ...
Amor., a árvore do bem e do mal eterna e louca incerteza.
o Amor pomba ou serpente...
Amor transversal amor de dor de saga e de mente..
Eros e Sua Mãe Afrodite. O Julgamento de Páris Pintura de Enrique Simonet

VELHO E LONGO

velho e longo
é sempre velho e longo
este olhar que me segue
submerso nos verdes
é nas algas que o sinto
é água
este olhar que pressinto
fala-me sempre de ti
e de mim
são olhos de antigamente
frios com a lua
queimam
doem estes olhos crispados
vêem atrás do Sol poente
mas estão sempre lá
prendem-me encadeiam -me
não os quero mais

MARIA

Maria
Chamava -se Severa
e roubou a cor ao fado
Seu brasão era o amor ..sua vida era o pecado
Na taberna da Rosario deixou ela a mocidade
Era Severa a mais bela do seu bairro e da cidade
Beijar seus lábios de amora almejava a sociedade
Tinha alma o seu cantar
e o destino marcado..
Fuljiam seus olhos negros.. lanternas da mouraria..
Foi a paixão sua sina..
.,.onde o ciume a perdeu...
Mulher de fibra e de barro..jogou a vida na rua e foi aí que a viveu..
E nos braços do Conde Maria Severa voou e em labaredas ferveu..
O conde do Vimioso agarrou sua paixão
roubou a beleza dela...
E os dois teceram historias..
...cor de sangue e coração.
Pelas vielas e becos deixaram suspiros e recados.
Pedaços de nuvens em chamas ! Velaram os seus amores..
Amar foi o seu pecado..e o ciume apareceu..
E assim Maria e Severa mourejando padeceu.
E nos postigos do tempo serviu amou e morreu
Margarida Cimbolini

ENDECHAS A LISBOA

ENDECHAS A LISBOA - Poema de Margarida Cimbolini
pé ante pé
escutando o som dos meus passos
passo
colho uma rosa desfolhada
pétalas laceradas de espinhos
transformam em estrelas
as pedras onde passo
pés nus nas pedras de Lisboa…
refaço a calçada
passo a passo sou a Madragoa…
nas sardinheiras me desfaço
Corro.. corro por Lisboa..
Flores de lis me tombam no regaço
Tombo em Alfama
E roubo-lhe o compasso
minha Lisboa…
conheces…
…ainda os meus passos…
Ergues-me muros
Estendes-me jardins..
Olha uma estrela do mar!
no tejo a boiar…
dás-me o teu rio
onde eu sonho marés..
constelações
que me dás…
..tapetes par os meus pés..
Na Mouraria no grito da rua!
onde coalhas luar
roubas-me os vestidos
para que os teça de novo
dás-me o teu tear
Respiro a minha cidade
o lugar onde nasci
antiga doce e amarga
minha barca de fé
e passo a passo
deixo no chão a pegada do meu pé
e vou guardando o caminho
não vá perder-me no cais
ou subir como uma moura…
nas ruas do Cais do Sodré

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

BREVE

breve
Não te tenho nas memórias
porque és breve
mas gosto de te ver 
porque me trazes o vento leste
e o som dos tambores
e o cheiro das marés
Quando te olho vejo-te..
Queria ser por segundos
.uma ave nova e fútil.
para viver no brilho dos teus olhos
....apenas um relance que já fui..
Gosto de ser como sou....
e que sejas como és.......
Não sei bem o que quero de ti....
...talvez chamar-te meu amor.....
Talvez me reveja em ti ..
e em memórias que vive-mos separados
gravadas nas sombras da lua...
...molhadas de chuva nas margens do Sena...
......pranteadas pelos postigos da vida.....
reflexo de gestos banais mas que reconheço..
Distantes como montanhas paralelas
nunca vamos tocar-nos......
mas no chão do céu estrelas pequeninas
dançam de baixo dos nossos pés..
Se não tivéssemos corpo nem palavras
havia-mos de rir juntos no meio das nuvens
Viventes antigos de raças lendárias vamos
....no ir dos nossos caminhos e encontramos-nos ás vezes..

O MUNDO

O mundo
incólume segundo em que nasce
divino,,, mortal,,,fatal....o mundo
ele fala da sua própria infância
como o nascer do Sol..... nasce
como o simples nascer de uma criança
Símbolos se espalham em fateixa
cada um único inalterável com sentido
mistério de sensual gueixa
cada um ..em pombas.. em milhafre. em águia
une e desune hieroglíficos ,,,fábulas e deixas..
.
Ao poeta cabe... o conhecimento... a lucidez
de na metáfora trazer os símbolos ´há ribalta
o Sol ....a lua...a terra ....a água a Paz e a guerra
tudo ressalta e ferve nos olhos do poeta
porque falar apenas do calor do Sol.
,,da beleza da lua ,,,da agua que brilha em cascata
da terra que se pisa ..que se move..... onde se semeia
onde se enterra e não a sobrepesar na cabeça onde ela pesa!
e o mar onde se esconde... onde começa.... onde vai..
...onde vai o mar... cheio de chuva ...tão cantado...?
tão amado este mar onde se aninha a terra....
.... onde o amor habita e onde habita a guerra
na maré se esconde a estrela .....da lua tomba magia
e como definir maresia....?.
ao poeta cabe a árdua tarefa de saber não só de sentir
mas de conhecer....venham os poetas do passado..!
desçam sobre este mundo pejado de historias em mágico dizer
....os símbolos dar a conhecer
que não seja esta vida apenas a ruína que de esquina em esquina
traz o poeta,,, perdido,,,sem rota,,terra sem arado,,,historia sem passado
prenhe de amor ,,,,rindo de dor ,,,,amando amarfanhado
buscando ..... roubando desgrenhado apenas a fútil brisa que o vento lhe
traz tornando-o apenas um inerte sentimento......
.........Lanterna sem luz......fechadura sem chave...
,,,,, ferramenta sem lamina.....espada sem cabo......
Margarida Cimbolini

PODE SER AGORA

pode ser agora
pode ser agora
senão quando ?
quando a vida se escoar
em labaredas
nestes dias de loucura
de espera de ansiedade
de quieta espera madura
de quem sabe que não sabe
pode ser agora?
enquanto chove no meu corpo
enquanto eu recordo as amoras
enquanto os poetas descem
e me envolvem assim
senão quando ?
quando já não houver aranhas
e as teias murcharem como as rosas
quando o fim for já e só esse o caminho
pode ser agora,,,agora que te chamo toda inteira
senão quando...........

mitos

mito
revoltam-se os dias de ser noites
morrem as noites no nascer dos dias
carrega-se o tempo de suores
só para que se esconda o sol
e tudo seja cor de bruma
só para dizer da minha solidão
vivo com um pássaro preso
e não sei abrir a gaiola
e em amando a liberdade
sou eu o carcereiro dos dois
procurando e experimentando chaves
que rolam vãs na fechadura
nenhuma se abre porque estão seladas
nos nossos lábios
mordidas nas nossas bocas
gritos escondidos nas ombreiras das portas
gritos tatuados nos ladrilhos do chão
mudos e surdos das esperas e de os pisarmos
.....a pés juntos enquanto joga.mos ás escondidas.
Destinos ou prendas de vidas antigas
que desisto de decifrar
vivo só

sábado, 29 de outubro de 2016

o sonho

o sonho corre.me nos dedos
tem dimensão de gigante
e pálpebras de menino...
é o sonho da andorinha
batendo pestanas cá dentro
ponho a corar por entre o Sol
nublado ....é liquido como o luar....
é o sonho que me move..
é ele que me alimenta..
colorindo o dia
morrem as palavras
rebolam ideias e utopias
queimadas com o restolho
o sonho é ceara é pão
é ele que faz o poeta
salta.me dos poros
respiro o sonho
respiro em grandes haustos
às vezes tenho medo da realidade que me sufoca..
Margarida Cimbolini

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

RAIVA

raiva
não tenho medo da tristeza
nem da alma
nem das lágrimas
dessas que me caem dos olhos
deixando olheiras de pedra
Fica a cara vincada
a face descomposta
não tenho medo de chorar
Porque há-de a poesia ser alegre
ou jocosa ou irónica
e terminar com um laço de alfazema
Porque há-de a poesia fazer rir
ser anedota de carne
ser marioneta de actriz
concubina do palavrão
ou não ?
De pedra pois sempre será pedra
Dura como a visão do mundo
Muro tombado na esquina
falha e solene consciência nua
Há noite o vento na rua distrai a face
Serei distraída de tudo de todos
Olhos calejados de calúnias
Leque de penas de falso pavão
Mas sim é triste e necessário o infortúnio !
ironicamente.....!
Só a dor nas almas cabe a fundo.....

terça-feira, 25 de outubro de 2016

lábios de barro

lábios de barro
de barro
moldados
com sol
secam gretados
caem hotenses
crestadas
da vida..
secas no calor
cio da terra
orgasmos do Sol
cio da terra..
e um grito que berra
doido de amor
Margarida Cimbolini

TÁ CHOVENDO

tá chovendo
Está chovendo !
E você minina...
você está fervendo ! 
aí tão quieta e compostinha !
Vem no meu joelho minina ...
conversa comigo..
Olha a lua no postigo !
ouve o que está dizendo...
Ouve com teu ouvido.
Vem menina vem correndo..
Eu e tu mais o que estou ouvindo...
Vamo fazer um ..
......filho.
Tá tu tou eu ....tá todo
esse areal..deixa comigo !...

A CANÇÃO DA TERRA

a canção da terra
Ás vezes a terra canta
uma canção de magia
que inquieta e inebria
É negro o grito da terra.!
Quando o grito da terra soa
Levanta-se a areia do deserto
e varre tudo....
A linha do horizonte
esconde um grito mais forte
o glorioso grito do mar
Também o mar grita e canta
na voz clara da água
Antes tudo era água e borbulhava
uma melodia sem nenhuma igual..
Quando a agua se move o cosmos reage
esconde a terra....piedosamente...
É a água que chama as estrelas
.. cada noite quando nasce outro planeta
ela vem dar-lhe de beber ...
vem criar os rios os ribeiros e o mar...
A água é vida....
tem memória e voz.....
levou milhares de anos a ser passado
e será a ultima força a acabar
É água a mãe que faz a terra tremer e abrir....
Quando voam as aves assustadas no céu
e na terra tossem os animais inquietos..
É a água rindo da criação ,,,riso surdo..
que caminha e se levanta......
E água e terra juntas cantam uma só canção....